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Von Richthofen and BrownNa frente ocidental da Primeira Guerra Mundial, uma esquadrilha de pilotos aliados bate-se nos céus com os alemães. Estes, recebem como novo herói o prodigioso barão Manfred von Richthofen (John Phillip Law), cujas proezas aéreas tanto custam aos aliados, como colocam em perigo os próprios alemães. No lado oposto, a chegada do canadiano Roy Brown (Don Stroud) vai também trazer diferenças, já que este advoga o emprego de tácticas mais mortíferas que ignorem as regras de cavalheirismo que os dois lados ainda usam. A morte dos comandantes das respectivas esquadrilhas vão ser a peça que faltava para que os combates se intensifiquem e se tornem mais fatais e impiedosos.

Análise:

Com distribuição da United Artists, os Corman (Gene, o produtor e Roger, o realizador) filmaram na Irlanda um filme de acção aérea que fazia uso do mito do aviador alemão da Primeira Guerra Mundial, Manfred von Richthofen, que passou à história como o Barão Vermelho (pela cor do seu aeroplano), senhor de enorme proeza no ar, e um impressionante registo, que fazia dele um pesadelo para os aviadores ingleses.

A acção de “O Barão Vermelho” inicia-se no momento em que o barão Manfred von Richthofen (John Phillip Law) chega de avião à sua nova unidade, na frente ocidental da Primeira Guerra Mundial, onde alemães e ingleses trocam ataques aéreos. A sua chegada e feitos incomodam tanto os ingleses quanto os alemães. Os primeiros pelas pesadas baixas que sofrem, os segundos porque não simpatizam com os métodos exuberantes de von Richthofen, que põe os companheiros em perigo em nome da sua vaidade e prazer de «caçar». Do lado inglês a mudança vem com a chegada do canadiano Roy Brown (Don Stroud), que é recebido com desconfiança, e mesmo antipatia, por propor que se deixe de lado o antigo cavalheirismo, e se trate o inimigo como um animal a abater. A morte dos comandantes das respectivas companhias leva a um intensificar das hostilidades. Do lado alemão, von Richthofen passa a comandante, e manda pintar os aviões de cores garridas, subindo o tom da provocação. Do lado inglês a morte do comandante lança a raiva, e faz os pilotos seguir Brown que planeia um ataque furtivo ao campo alemão, nunca antes feito, por causa do tal cavalheirismo. A resposta alemã é ainda mais cruel, e a destruição invade os dois aeródromos. Mas com a guerra a ser perdida, o alto comando alemão ordena a von Richthofen que deixe os aviões. Este recusa, pois prefere morrer soldado, o que acontece num último raid no qual e abatido pelo próprio Brown.

Mostrando que às vezes os pequenos episódios contam tanto para o imaginário futuro como os grandes movimentos da história, Roger Corman filmou o duelo entre von Richthofen e Roy Brown quase como se a guerra dependesse dele, mesmo mostrando-nos no final que esse duelo era apenas uma teimosia de soldados, quando a guerra já tinha o seu final assegurado. E é esse duelo que dá nome ao filme, e que justifica todo o enredo, o qual, na verdade, é quase inexistente. Desde o primeiro plano que percebemos que apenas uma coisa conta no filme de Roger Corman: preparar terreno para vermos como os dois pilotos inimigos se vão defrontar, num duelo fatal.

Usando as paisagens húmidas e nevoeirentas dos campos verdejantes da Irlanda como pano de fundo, Corman compõe um filme onde o que verdadeiramente conta são as filmagens aéreas. Para tal, usa aparelhos antigos, e consegue que grande parte das sequências de combate seja, de facto, filmada do ar, num filme que assim presta homenagem aos clássicos dos anos 1920 e 1930 como “Asas” (Wings, 1927), de William A. Wellman, “A Patrulha da Alvorada” (The Dawn Patrol, 1930), de Howard Hawks e “Os Anjos do Inferno” (Hell’s Angels, 1930), de Howard Hughes e Edmund Goulding. É no ar que se define o desenrolar dos acontecimentos, bem como a as atitudes individuais, com von Richthofen a lembrar que descende de cavaleiros teutónicos, e para si a aviação é apenas mais uma forma de cavalaria, com tudo o que aquela tinha de aventureiro, nobre e cavalheiresco.

E é nessa apreciação do papel do cavalheirismo e mudança dos tempos que surgem os pontos de dissensão nos dois campos. Do lado aliado, o comandante lamenta ver camponeses no lugar de nobres, e a chegada de Brown, com as suas tácticas mais destrutivas, mostra ao comando que a nobreza anterior tem os dias contados no mundo que sairá da guerra. No lado alemão o barão é mal recebido por militares mais violentos, como Hermann Goering (Barry Primus), que lhe sucederá e que o barão acusa de ser um carniceiro e não um soldado de honra – lembre-se que se trata do mesmo Goering que seria um dos braços direitos de Adolf Hitler durante o nazismo. Von Richthofen será, mais tarde, chamado a abdicar do cargo para se começar a preparar uma nova elite alemã que conduzirá o país após a guerra, mas recusa, pois é como soldado e não como político que quer morrer.

Essas evidentes lutas de classe, e discussão sobre os seus papéis num mundo em mudança (do lado alemão, já sob a ameaça do socialismo) lembram ainda “A Grande Ilusão” (La grande illusion, 1937), de Jean Renoir, dando ao filme uma textura mais rica que a do simples acumular de combates aéreos que são aquilo pelo qual o filme ficaria conhecido. É verdade que Corman nunca leva muito a sério os outros enredos do filme. Na verdade, o encontro de Brown com uma rapariga sem uma perna (Lorraine Rainer) torna-se quase anedótico – com Brown mais tarde a responder à pergunta sobre o que espera das raparigas francesas «que tenham dois braços e duas pernas». O mesmo acontece com o encontro entre von Richthofen e o engenheiro Fokker (Hurd Hatfield), em que a descrição de um avião revolucionário passa um tanto comicamente à descrição física de uma mulher (Karen Ericson), para incluir forçadamente uma componente romântica. Mas, falta de subtileza à parte (e Corman nunca foi famoso por ela), o filme vale pelas vistas aéreas e movimentos de aviões, mesmo que um pouco repetitivos, e, claro, pelo repensar da tal galantaria em tempo de guerra, que pode não ter dado vitórias, mas ajudou a criar um mito.

Imagem de "Barão Vermelho" (Von Richthofen and Brown, 1971), de Roger Corman

Produção:

Título original: Von Richthofen and Brown; Produção: The Corman Company; País: EUA / Irlanda; Ano: 1971; Duração: 96 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 30 de Junho de 1971 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Roger Corman; Produção: Gene Corman; Produtor Associado: Jimmy T. Murakami; Argumento: John William Corrington, Joyce Hooper Corrington; Música: Hugo Friedhofer; Fotografia: Michael Reed [cor por Deluxe]; Montagem: George Can Noy, Alan Collins; Direcção Artística: Jimmy T. Murakami [não creditado]; Cenários: Maureen Roche; Guarda-roupa: Charles Guerin; Caracterização: Toni Delaney; Efeitos Especiais: Noel Gallagher, Peter Dawson, Gerry Johnston [não creditado]; Direcção de Produção: Peter Manley.

Elenco:

John Phillip Law (Barão Manfred von Richthofen), Don Stroud (Roy Brown), Barry Primus (Hermann Goering), Corin Redgrave (Major Lanoe Hawker VC), Karen Ericson [como Karen Huston] (Ilse), Hurd Hatfield (Anthony Fokker), Stephen McHattie (Werner Voss), Brian Foley (Lothar von Richthofen), Robert La Tourneaux (Ernest Udet), Peter Masterson (Major Oswald Boelke), Clint Kimbrough (Major von Höppner), Tom Adams (Owen), Ferdy Mayne (Pai de Richthofen), David Weston (Murphy), John Flanagan (Thompson), Lorraine Rainer (Rapariga Francesa), Brian Sturdivant (May), Maureen Cusack (Mãe de Richthofen), George Armitage (Wolff), Gordon Phillips (Cargonico), David Osterhout (Holzapfel), Seamus Forde (Imperador)), Fred Johnson (Joalheiro), Des Nealon (Oficial dos Serviços Secretos Britânicos), Emmet Bergin.

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