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Mutter Küsters' Fahrt zum Himmel Emma Küsters (Birgitte Mira) vive em Frankfurt, casada, e mãe de dois filhos, vivendo com o filho Ernst (Armin Meier) e a nora Helene (Irm Hermann), que a ajudam no trabalho suplementar de montar tomadas eléctricas em casa. Quando recebem a notícia de que o senhor Küsters terá assassinado o director da fábrica onde trabalhava, suicidando-se de seguida, a vida familiar é devassada pela polícia e jornalistas que querem escrever a sua versão dos factos. Sentindo-se abandonada, quer por Ernst e Helene, quer pela filha Corinna (Ingrid Caven), uma cantora de cabaré, Emma vai encontrar no casal Marianne (Margit Carstensen) e Karl Tillmann (Karlheinz Böhm) os ouvidos atentos de que precisa. Só que eles, membros do Partido Comunista, vêem nela apenas mais um caso a ser explorado como panfleto político.

Análise:

A partir de uma história de Heinrich Zille, Rainer Werner Fassbinder escreveu e realizou um filme de sátira social e política, no que era um dos seus projectos mais directos e acessíveis, e em que voltava a contar com a actriz Birgitte Mira como protagonista.

Mira é a nominal Mãe Küsters, mulher já idosa que trabalha em casa, montando tomadas eléctricas, com a ajuda do filho Ernst (Armin Meier) e da nora Helene (Irm Hermann), que vivem com ela. Quando chega a notícia de que o seu marido terá assassinado alguém na fábrica onde trabalhava, suicidando-se de seguida, o seu mundo colapsa com a casa a ser invadida por jornalistas. A segunda filha, a cantora de cabaré Corinna Coren (Ingrid Caven) regressa para o funeral, mas a sua relação com o repórter Niemeyer (Gottfried John) e constantes guerras com a cunhada Helene não trazem a paz que Emma Küsters deseja. A última gota é a publicação da reportagem de Niemeyer, que conta segredos de família, e pinta o marido de Emma como um bêbedo violento. Emma é então abordada pelo casal Marianne (Margit Carstensen) e Karl Tillmann (Karlheinz Böhm), que se mostram bons ouvintes, e lhe revelam pertencer ao Partido Comunista, que a poderá ajudar a fazer justiça sobre o nome do marido. Emma Küsters adere ao partido, mas cedo percebe que o partido não age, perdendo-se em conferências e planos abstractos. É então abordada pelo anarquista Knab (Matthias Fuchs), que a convence que só eles podem agir. Acedendo, Emma Küsters vai com eles à redacção do jornal, onde tentam, por modos violentos, uma retracção da história.

Num dos seus filmes mais acessíveis, Fassbinder conta uma história perfeitamente linear, onde a protagonista – mostrada logo desde a primeira cena, onde se vêem as suas mãos montar, mecanicamente, tomadas eléctricas (ao mesmo tempo que prepara o jantar) – é uma mulher que, depois da morte trágica do marido, se vê sozinha contra todos. Quer, por um lado, limpar o nome do marido, agora olhado por todos como um monstro (veja-se como até no cabaré a filha Corinna é apresentada como a filha do assassino). Quer, por outro, um pouco de compaixão que não encontra nos seus, filho e nora mais preocupados com a sua imagem e futuro, filha Corinna sem capacidade de empatia, vivendo já noutro mundo. Inusitadamente, Emma Küsters vai encontrar na política a atenção de que precisa. Primeiro num casal comunista, que quer fazer do senhor Küsters um mártir da revolução contra o capitalismo, depois num amigo anarquista, ela encontra ouvidos atentos, que não são mais que oportunistas, procurando causas para se fazerem ouvir publicamente.

Com a acção do senhor Küsters a ser um MacGuffin, que não precisamos sequer explicar ou entender, ela serve para Emma Küsters aprender que toda a gente tem a sua agenda (a começar pelo jornalista Niedermeyer, tão atencioso e respeitoso, apenas para ganhar acesso à família para publicar a sua história difamatória), pela qual todos a tentam manipular, abandonando-a se ela não serve os seus interesses. Seja a frieza familiar, cheia de egoísmo, ou as agendas políticas (com comunistas de discursos balofos e anarquistas de métodos exagerados), tudo vai concorrer para mostrar a Emma Küsters de que, quando precisamos, estamos de facto sozinhos, e nada conta tanto como a sinceridade de alguém que sinta empatia, algo que ela encontra no final em que o contínuo do jornal a convida para ir comer a sua casa.

Filmando em vinte dias, basicamente em interiores cuidados, com uma câmara fiel à sua cinematografia (com molduras de portas, espelhos ou peças de mobiliário a definir enquadramentos e a destacar ou esconder personagens), Fassbinder dá-nos em “A Viagem ao Céu da Mãe Küster” uma directa sátira social e política (com fortes discursos politizados, e um olhar pouco simpático para com o jornalismo sensacionalista, os partidos, a vida nocturna e as famílias em geral). O filme tem dois finais diferentes, pois foi pedido a Fassbinder que modificasse o final para o mercado norte-americano. Assim, no final original, a ocupação do jornal torna-se violenta, e em legendas é-nos descrito que tal acaba num banho de sangue. Já no final filmado mais tarde, os anarquistas vêm protestar pacificamente, sendo ignorados pelos funcionários do jornal, e acabam por abandonar a redacção impotentes, deixando a Mãe Küster sozinha, até à chegada do dito contínuo, que conversa com ela e a convence a ir para sua casa.

Ingrid Caven em "A Viagem ao Céu da Mãe Küster" (Mutter Küsters' Fahrt zum Himmel, 1975), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Mutter Küsters’ Fahrt zum Himmel; Produção: Filmverlag der Autoren / Tango Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1975; Duração: 113 minutos; Estreia: 7 de Julho de 1975 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Argumento: Rainer Werner Fassbinder, Kurt Raab [a partir da história “Mutter Krausens Fahrt Ins Glueck”, de Heinrich Zille]; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus; Montagem: Thea Eymèsz; Design de Produção: Kurt Raab; Direcção Artística: Ruediger Schmid; Caracterização: Jo Braun; Direcção de Produção: Christian Hohoff.

Elenco:

Brigitte Mira (Emma Küsters), Ingrid Caven (Corinna Coren, nascida Küsters), Margit Carstensen (Marianne Tillmann), Karlheinz Böhm (Karl Tillmann), Irm Hermann (Helene Küsters), Gottfried John (Niemeyer), Armin Meier (Ernst Küsters), Matthias Fuchs (Knab), Peter Kern (Dono do Clube Nocturno), Kurt Raab (Gustav), Gustav Holzapfel (Herr Holzapfel), Lilo Pempeit (Secretária), Peter Chatel (Fotógrafo), Peter Bollag (Fotógrafo), Vitus Zeplichal (Repórter), Volker Spengler (Fotógrafo), Y Sa Lo (Terrorista), Adrian Hoven (Linke, Chefe de Redacção) [não creditado].

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