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Uomini contro No Norte de Itália, na frente contra a Áustria na Primeira Guerra Mundial, o exército italiano passa momentos terríveis, pelo cansaço e desespero dos seus homens, má preparação, equipamento e apoio logístico, e, sobretudo, vítima de ordens sem sentido, que buscam vitórias vãs a todo o custo. Aí, domina a crueldade sádica do general Leone (Alain Cuny), quando o sub-tenente Sassu (Mark Frechette) é para lá transferido, ele que é um humanista de boa formação, e cedo perceberá quão sem sentido são as mortes e as ordens que vê acontecer à sua volta.

Análise:

Fruto de uma co-produção italo-jugoslava, “A Vontade de Um General” foi um filme anti-guerra da autoria de Francesco Rosi, a partir da memórias de Emilio Lassu, presentes no livro “Un Anno sull’Altopiano” (Um ano no planalto), e que contou com a fina flor do cinema italiano, do fotógrafo Pasqualino De Santis ao montador Ruggiero Mastroiani, para além da presença de Tonino Guerra como co-argumentista. O filme foi rodado usando paisagens naturais na Jugoslávia, por um Francesco Rosi já com alguns filmes no seu curriculum, e a reputação de ser um autor que conferia sempre uma mensagem política forte às suas obras, algo que o lançaria para o estrelato no seu filme seguinte, o internacionalmente muito apreciado “O Caso Mattei” (Il Caso Mattei, 1972).

Com a acção a decorrer na frente do Trentino, entre 1916 e 1917, na Primeira Guerra Mundial, “A Vontade de Um General” mostra-nos as condições debilitantes do exército italiano, na campanha de Monte Fior, na divisão comandada pelo general Leone (Alain Cuny). Vemo-lo pelos olhos do consciencioso sub-tenente Sassu (Mark Frechette), ex-estudante universitário. Sassu serve às ordens do tenente Ottolenghi (Gian Maria Volontè), um veterano de ideias socialistas, que não se coíbe em se opor frequentemente a ordens superiores que ele considera sem sentido, até vir a morrer em mais um ataque inútil na vã conquista de Monte Fior.

Ali, o sub-tenente Sassu assiste aos movimentos da sua divisão, o desespero dos homens, a falta de preparação, o mau equipamento, as ordens sem nexo, e as deserções e tentativas de deixar a frente. Marcante é o episódio em que o general ordena o fuzilamento de um soldado só para dar um exemplo, e Ottolenghi, aproveitando um corpo morto, usa-o para fingir o fuzilamento, dando assim ao general o corpo que ele tanto queria. Mas as ordens assassinas continuam, e um ataque final leva à morte do major Malchiodi (Franco Graziosi) pelos seus soldados, encorajados pela sublevação de Sassu, que assim tenta salvar parte da divisão. Salvos os homens, tal valerá a Sassu a chamada ao Quartel-general, onde o espera a pena de fuzilamento.

Mais que dar-nos uma narrativa coesa, “A Vontade de Um General” é um filme de momentos, os quais servem sempre para nos mostrar a guerra como algo inútil e os comandos militares como desprovidos de sentido, por serem compostos por pessoas que se deixam dominar pelos seus egos, numa cegueira total às condições dos seus homens, apostados apenas em fazer nome, ou seguir ordens mecânicas, que perpetuem um status quo sem valores. Tal é representado pelo general Leone – e o momento em que o vemos erguer-se arrogantemente acima das trincheiras ordenando a alguém que o faça para uma morte certa é paradigmático –, e por ordens ridículas como a de enviar homens desprotegidos para cortar as linhas de arame farpado inimigo expondo-os ao fogo mortal das metralhadoras.

Filmando o cenário de guerra (por vezes de câmara ao ombro) como um campo de desolação, onde quase tudo é lama e nevoeiro, Rosi usa uma cor quase inexistente, de um cinzentismo permanente, onde tudo é impotência e desespero. Entre movimentos de tropas que são pouco mais que arrastamentos pantanosos, e posicionamentos estratégicos que são apenas amontoados na lama, as tropas italianas são-nos mostradas como folhas esvoaçando ao vento, sendo este as ordens sem sentido e inumanas do alto comando. Aqui nota-se desde logo o verdadeiro conflito da guerra, que antes de ser entre italianos e austríacos, é entre soldados e superiores hierárquicos. Estes são-nos mostrados como arrogantes, desumanamente cruéis, e completamente cegos ao bom senso, com supostas deserções, e tentativas de amotinação a resultarem em fuzilamentos colectivos.

Para aumentar o sentido dramático, Rosi vai destacando o papel humanitário do seu protagonista, bem como o de Ottolenghi – um verdadeiro herói (e mártir) na defesa dos seus homens –, ele que é levado também a desobedecer a ordens para salvar os seus homens, colocando a vida humana acima de conquistas inúteis. Como tal, e – como recorda o general com desdém – por nunca ter sido sequer ferido em combate, Sassu é condenado – numa sequência final que nos traz à memória Horizontes de Glória” (Paths of Glory, 1957) de Stanley Kubrick – ao fuzilamento, como bode expiatório da incompetência do alto comando. Como destaque fica ainda a sequência do fuzilamento, numa paisagem absolutamente incrível, que confere ainda mais peso ao momento.

Elogiado pela caracterização realista das condições na frente austríaca, “A Vontade de Um General” foi também criticado pela sua posição fortemente anti-institucional, exagerando na descrição do que seriam as posições dos oficiais italianos, aqui tratados caricaturalmente, no que o filme se afasta nitidamente do livro de Lassu. Por essa razão, e tal como acontecera com o filme de Kubrick, “A Vontade de Um General” teve problemas de distribuição, e foi rapidamente retirado de circulação.

Alain Cuny e Gian Maria Volontè em "A Vontade de Um General" (Uomini Contro, 1970), de Francesco Rosi

Produção:

Título original: Uomini Contro [Título inglês: Many Years Ago]; Produção: Prima Cinematografica / Jadran Film; Produtores Executivos: Luciano Perugia, Marina Cicogna; País: Itália / Jugoslávia; Ano: 1970; Duração: 97 minutos; Distribuição: Euro International Film (EIA) (Itália), Warner Bros.; Estreia: 31 de Agosto de 1970 (Festival de Veneza, Itália), 17 de Setembro de 1970 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Francesco Rosi; Produção: Francesco Rosi, Luciano Perugia; Argumento: Tonino Guerra, Raffaele La Capria, Francesco Rosi [a partir do livro “Un Anno sull’Altipiano” de Emilio Lussu]; Música: Piero Piccioni; Direcção Musical: Pierluigi Urbini; Fotografia: Pasqualino De Santis [cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Andrea Crisanti; Cenários: Ezio Di Monte; Figurinos: Franco Carretti, Gabriella Pescucci; Caracterização: Massimo De Rossi, Sukrija Sarkic [como Suko Sarkic]; Efeitos Especiais: Zdravko Smojver; Direcção de Produção: Carlo Lastricati, Donko Buljan.

Elenco:

Mark Frechette (Sub-Tenente Sassu), Alain Cuny (General Leone), Gian Maria Volontè (Tenente Ottolenghi), Giampiero Albertini (Capitão Abbati), Pier Paolo Capponi (Tenente Santini), Franco Graziosi (Major Ruggero Malchiodi), Mario Feliciani (Coronel Medici), Alberto Mastino (Soldado Marrasi), Brunetto Del Vita (Coronel Stringari), Nino Vingelli (Soldado Que Alegadamente Se Feriu a Si Próprio), Zdravko Smojver, Antonio Pavan (Tenente Pavan), Emilio Bonucci, Franco Acampora [como Francesco Acampora], Luigi Pignatelli (Avellini), Spartaco Conversi, Maurizio Mastino, Daria Nicolodi (Crocerossina), Bruno Pischiutta [como Mario Pischiutta], Gianni Pulone (Soldado de Roma Ferido), Franca Sciutto, Roberto Bertea (dobragem de voz de Brunetto Del Vita) [não creditado], Carlo D’Angelo (dobragem de voz de Alain Cuny) [não creditado], Giancarlo Giannini (dobragem de voz de Mark Frechette) [não creditado].

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