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Faustrecht der Freiheit Frank Biberkopf (Fassbinder), conhecido como Fox, trabalha como atracção de feira, quando o seu patrão e amante, Klaus (Karl Scheydt), é preso por fraude fiscal. À deriva sem emprego, Fox, entretanto um protegido do antiquário Max (Karlheinz Böhm), vence um prémio da lotaria, e passa a ganhar o interesse do snob industrial Eugen (Peter Chatel), que logo o seduz a ficar com ele. Enquanto Fox vive esses dias como uma constante lua-de-mel, Eugen vai-se aproveitando da ingenuidade do amante para com o seu dinheiro comprar e mobilar apartamento, mudar de guarda-roupa e investir na empresa de família, enquanto Fox se vai sentindo cada vez mais posto de parte e humilhado por não estar ao nível do requinte do círculo de Eugen.

Análise:

Voltando a trabalhar para cinema, com a sua equipa habitual (Peer Raben na música, Michael Ballhaus na fotografia, Thea Eymèsz na montagem, Kurt Raab no design), Rainer Werner Fassbinder voltava a uma história por si assinada, onde, desta vez era mesmo protagonista, algo que não acontecia com tal destaque desde “O Machão” (Katzelmacher, 1969). O filme era também a sua primeira abordagem directa de personagens homossexuais masculinos, o que era um afastamento dos temas femininos que marcaram a sua carreira nos filmes anteriores.

Quando conhecemos Frank Biberkopf (Fassbinder), este é uma atracção de feira, conhecido como «Fox, a cabeça falante», do espectáculo do seu amante Klaus (Karl Scheydt), o qual é preso por fraude fiscal, deixando Fox sem emprego. Fox passa a circular por bares à mercê de supostos amigos, quando conhece um novo protector, o mais velho Max (Karlheinz Böhm), um requintado antiquário que o apresenta no seu círculo como uma atracção exótica. Quando Fox ganha uma pequena fortuna na lotaria, Eugen Thiess (Peter Chatel), um rico industrial, e mais jovem amigo de Max, sedu-lo e os dois passam a inseparáveis, vivendo e viajando juntos numa espécie de lua-de-mel permanente. De volta a casa, Eugen, apostado em tornar Fox uma pessoa elegante da classe alta, convence-o a remobilar o apartamento com peças de colecção, pede-lhe dinheiro emprestado para investir na companhia do pai, e insiste em mudar os seus gostos musicais e modo de vestir. Mas Fox não se adapta à nova vida, e é uma constante vergonha para os gostos finos de Eugen, que o vai excluindo cada vez mais da sua vida e programa social. Aos poucos Fox começa a sentir-se rejeitado, humilhado e cada vez menos à vontade no mundo de Eugen, para descobrir que este lhe ficou com todo o dinheiro, e apartamento, não precisando mais dele para nada. Fox volta aos bares onde tudo começara, bebendo, e procurando relações físicas, cansado que todos o vejam só por aquilo que ele lhes possa dar. Acaba morto, por ingestão excessiva de comprimidos, no chão do metro, onde mesmo aí ninguém se parece importar consigo.

Definitivamente apostado numa linguagem narrativa convencional, Fassbinder continuava o seu caminho inovador, quanto mais não fosse, pelos temas, como era o caso da homossexualidade em “O Direito do Mais Forte à Liberdade”. E o maior mérito de Fassbinder era o modo como esta surgia com naturalidade e não como um facto em si próprio, pois afinal a história não depende dela, podendo passar-se num qualquer casal, independentemente da orientação sexual dos seus elementos.

E essa história é sobretudo de desigualdade social – no quanto isso se torna uma barreira intransponível entre pessoas de mundos diferentes – e na hipocrisia de quem apenas procura o conforto que o dinheiro possa dar. Em lados diametralmente opostos estão, de um lado Franz/Fox, uma pessoa de classe baixa, de maneiras poucos educadas, habituado a procurar e viver para os impulsos carnais, sem vontade de mudar, mas sincero, generoso, e muito inocente; e do outro Eugen, homem educado, de gostos sofisticados, apreciador de boa comida, de boa música, de arte e decoração, proveniente de uma família de classe média-alta, fútil nas suas maneiras, hipócrita nos comportamentos, e revelando não ter sentimentos nem escrúpulos que se sobreponham à sua sobrevivência e conforto pessoal. Tudo isso se mostra numa série de episódios (os contratos em que Fox é enganado; os jantares em que as maneiras de Fox envergonham todos; as saídas ao teatro e ópera para as quais Fox nunca é convidado; o aumentar da frieza no contacto físico entre Fox e Eugen; etc.).

É, mais uma vez, Fassbinder a dizer que as aparências escondem uma sociedade podre, onde as pessoas (supostamente) de bem, são simulacros que têm por trás hipocrisia e uma inexistência de bondade e calor humano. A isso, Fassbinder contrapõe o mundo mais carnal, sem aspirações que não sejam existenciais, onde aceita os bares, as festas, as orgias, a prostituição (como no caso da aventura marroquina, ou dos soldados americanos), quase que dizendo que as influências externas são elas próprias um mau exemplo para uma Alemanha ainda inocente e à deriva.

Talvez Fassbinder tenha preferido uma relação homossexual no cerne do seu filme para que os temas centrais da exploração e do abuso (monetários e sentimentais) não fossem distraídos pela proverbial «guerra dos sexos», mas a verdade é que o seu filme ganhou detractores pelo elogio da subcultura gay, e, por outro lado, defensores pelo expor despudorado dessa realidade. Mas questões sexuais à parte, a verdade é que “O Direito do Mais Forte à Liberdade” fica na memória pela sua mensagem de hipocrisia social (num darwinismo cego de sentimentos, onde o amor é apenas uma comodidade financeira), com um final pungente, no qual o corpo do infeliz Fox (cansado de dar tudo, e só ser apreciado pelo que dá – como o próprio grita), só serve como pasto para dois miúdos procurarem algum lucro, e que até os amigos (Max e Klaus) procuram ignorar. É, nesse sentido, um dos mais desiludidos filmes de Fassbinder, agora que a emoção (ao contrário de nos filmes iniciais do autor) já procura um lugar na sua narrativa, mas vê as portas fechadas pela hipocrisia de alguns.

Note-se a presença, em papéis perfeitamente secundários, de Brigitte Mira e El Hedi ben Salem, os protagonistas do consagrado “O Medo Come a Alma” (Angst essen Seele auf, 1974).

Peter Chatel, Rainer Werner Fassbinder e Karlheinz Böhm em "O Direito do Mais Forte à Liberdade" (Faustrecht der Freiheit, 1975), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Faustrecht der Freiheit [Título inglês: Fox and His Friends]; Produção: Tango Film / City Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1975; Duração: 124 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), New Yorker Films (EUA); Estreia: 15 de Maio de 1975 (Festival de Cannes, França), 6 de Junho de 1975 (RFA), 12 de Novembro de 1981 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Rainer Werner Fassbinder; Argumento: Rainer Werner Fassbinder, Christian Hohoff ; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Eastmancolor]; Montagem: Thea Eymèsz; Design de Produção: Kurt Raab; Figurinos: Helga Kempke; Caracterização: Helga Kempke; Direcção de Produção: Christian Hohoff.

Elenco:

Peter Chatel (Eugen Thiess), Rainer Werner Fassbinder (Frank ‘Fox’ Biberkopf), Karlheinz Böhm (Max), Adrian Hoven (Wolf Thiess, Pai de Eugen), Christiane Maybach (Hedwig, Irmã de Fox), Harry Baer (Philip), , Hans Zander (Barman Springer), Kurt Raab (Wodka-Peter), Rudolf Lenz (Advogado Dr. Siebenkäss), Karl Scheydt (Klaus), Peter Kern (Florista ‘Fatty’ Schmidt), Karl-Heinz Staudenmeyer (Krapp), Walter Sedlmayr (Vendedor de Carros), Bruce Low (Médico), Marquard Bohm (Soldado Americano), Brigitte Mira (Lojista #2), Evelyn Künneke (Secretária na Agência de Viagens), Barbara Valentin (Mulher de Max), Elma Karlowa (Lojista #1), Ingrid Caven (Cantora no Bar), Lilo Pempeit (Vizinha), Ulla Jacobsson (Mãe de Eugen), El Hedi ben Salem (Salem, o Marroquino) [não creditado], Irm Hermann (Madame Cherie de Paris / Voz da Cantora de Bar) [não creditada], Wolfgang Hess (Dobragem de voz de El Hedi ben Salem) [não creditado].