Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

Fräulein Doktor Durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães tentam matar o Marechal britânico Lord Kitchener, enviando dois homens e uma mulher para a Escócia. Os homens são capturados, e o segundo deles, Meyer (James Booth), fala, contando o plano da mulher, Fräulein Doktor (Suzy Kendall), a qual consegue divulgar o paradeiro do seu alvo, resultando na morte dele. Resta, ao coronel Foreman (Kenneth More) converter Meyer, para que este volte à Alemanha, para matar a espia. Mas esta e os alemães vão, mais uma vez, ludibriar os ingleses, e preparar golpes ainda mais trágicos e mortíferos.

Análise:

Co-produção italo-jugoslava, saída da companhia de Dino De Laurentiis, “Espia sem Nome” é um filme que versa a Primeira Guerra Mundial, filmado na Jugoslávia e Hungria. Falado em inglês, numa tentativa de Alberto Lattuada – um realizador celebrizado na corrente do Neo-realismo italiano – de conquistar um mercado alargado, a história revolve em torno de uma espia alemã, versão da verdadeira Elsbeth Schragmüller, conhecida como Mademoiselle Docteur or Fräulein Doktor (com doutoramento em ciências políticas), e cuja verdadeira identidade só foi revelada em 1945, cinco anos após a sua morte.

A história começa com o desembarque de uma mulher (Suzy Kendall) e dois homens em solo britânico, durante a guerra, com os homens a serem capturados pelo coronel Foreman (Kenneth More), e a mulher a escapar. O primeiro dos homens é fuzilado à frente do segundo, mas numa encenação para o fazer falar. Este, de nome Meyer (James Booth) conta que a mulher tem o nome código de Fräulein Doktor, infame pelo roubo de uma fórmula de um gás mortífero ao qual as máscaras são impotentes. Em flashback vemos como Fräulein Doktor seduziu a cientista que desenvolvia o gás (Capucine), para depois a matar e roubar a fórmula, e vemos ainda os efeitos horripilantes deste, nas trincheiras. Ao mesmo tempo, Fräulein Doktor seduz um militar para que este lhe revele os movimentos do seu próximo alvo, Lord Kitchener, cujo navio é depois afundado, matando-o. Meyer é convencido por Foreman a voltar à Alemanha, para matar Fräulein Doktor, pretendendo ter escapado. Depois de a encontrar, Meyer é capturado pelos alemães que dizem saber que ele é agente duplo, mas deixam-no envenenar Fräulein Doktor, pois querem também ver-se livres dela. Só que, sem que Meyer saiba, a morte é um embuste, e enquanto ele volta a Inglaterra, ela está livre para novo golpe, que consiste no roubo de planos de defesa belgas, fazendo-se passar por enfermeira da cruz vermelha espanhola, e auxiliando um grupo de infiltrados. Os alemães roubam os planos, depois de uma troca de tiros, e podem assim bombardear as linhas aliadas. Só que Foreman, chegado ao local com Meyer, apreende Fräulein Doktor, que ele sempre julgou viva. No último momento, Meyer assassina Foreman, sendo morto de seguida, com Fräulein Doktor a conseguir fugir.

Não sendo um dos temas mais habituais nos filmes que retratam a Primeira Guerra Mundial de 1914 a 1918, a espionagem e contra-espionagem é o tema central de “Espia sem Nome”, um filme que se inspira na actividade da infame Elsbeth Schragmüller, aqui simplesmente chamada pelo seu nome de código: Fräulein Doktor. Espécie de Mata-Hari mais discreta, esta espia alemã – uma mulher de rara inteligência e grande conhecimento científico – insinuou-se na própria Grã-Bretanha, e no cenário de guerra, atrás das linhas inimigas, procurando interceder no terreno para dar vantagem ao Império Alemão. Por isso, o filme de Lattuada, um nome forte no Neo-realismo dos anos 50 – e que procurava agora estabelecer-se internacionalmente em temas de interesse generalizado –, foca-se nos métodos de interrogação, manipulação e engano, num jogo de gato e de rato, entre a nominal Fräulein Doktor, e o coronel Foreman.

Pelo meio vemos o uso de uma relação homossexual para obtenção de uma fórmula; as relações sexuais ainda como forma de conseguir informação; os interrogatórios sob pressão de pelotões de fuzilamento; o ferimento (permanente) de uma perna para fornecer um álibi; roubos de planos; obtenção de paradeiros a fazer explodir; efeitos da guerra química; etc. De situação em situação, o filme é um acumular de episódios de guerra e contra-informação, onde a argúcia e intrepidez dos envolvidos é o ponto fulcral, sempre com vantagem para a espia alemã.

Central no filme é, por isso, o papel de Suzy Kendall, discreta, fria, mortiferamente bela e eficaz, a ponto de levar ao sacrifício aquele que é suposto ter mais a ganhar (em termos pessoais) com a sua morte. Sempre na tentativa de conferir um realismo menos glamoroso às suas histórias, Lattuada não escamoteia a relação entre a espia e a heroína, mostrando-a como viciada em diversas ocasiões.

O filme ganha ainda pelo uso de cenários, sejam eles palacetes transformados em quartéis, linhas de trincheiras, hospitais de campanha ou campos de prisioneiros, tudo filmado com extremo realismo e bom gosto. Em destaque fica sempre a sequência da mutilação por gás, onde este queima a pele dos soldados, com efeitos horripilantes ao olhar.

Capucine e Suzy Kendall em "Espia sem Nome" (Fräulein Doktor, 1969), de Alberto Lattuada

Produção:

Título original: Fräulein Doktor; Produção: Dino de Laurentiis Cinematografica /Avala Film; País: Itália / Jugoslávia; Ano: 1969; Duração: 101 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 24 de Janeiro de 1969 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Alberto Lattuada; Produção: Dino De Laurentiis; Argumento: H. A. L. Craig, Vittoriano Petrilli, Alberto Lattuada, Duilio Coletti, Stanley Mann [a partir de uma história de Vittoriano Petrilli]; Música: Ennio Morricone; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Luigi Kuveiller [cor por Technicolor]; Montagem: Nino Baragli; Design de Produção: Mario Chiari; Direcção Artística: Miodrag Miric, Zoran Zorcic; Cenários: Enzo Eusepi; Figurinos: Maria De Matteis; Caracterização: Otello Fava, Marija Kordic; Efeitos Especiais: Dusan Piros; Direcção de Produção: Bianca Lattuada, Aleksandar Krstic.

Elenco:

Suzy Kendall (Fraülein Doktor), Kenneth More (Coronel Foreman), Nigel Green (Coronel Mathesius), Alexander Knox (General Peronne), Olivera Katarina [como Olivera Vucio] (Marquesa de Haro), Capucine (Dr. Saforet), James Booth (Meyer), Andreina Paul (Doña Elena de Rivas), Silvia Monti (Margarita), Virginia Bell (Doña Julia), Giancarlo Giannini (Hans Ruppert), Mario Novelli (Sargento Otto Latemar), Roberto Bisacco (Schell), Milivoje Popovic-Mavid (Capelão), Janez Vrhovec (Coronel Belga), Milutin Micovic [como Miki Micovic] (Blondel), Dusan Bulajic (Coronel Delveaux), Gérard Herter (Capitão Munster), James Mishler (General von Ludendorff), Andréas Voutsinas, Ralph Nossek, Michael Elphick (Tom), Bernard De Vries (Tenente Wilhelm von Oberdorff), Malcolm Ingram (Cartwright).