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The BanquetEm 907, no período chamado das Cinco Dinastias e Dez Reinos, a dinastia Tang definha, quando o imperador morre, e é substituído pelo irmão Li (Ge You), que logo toma a cunhada Wan (Zhang Ziyi) como sua nova consorte. Empecilho, é o príncipe herdeiro Wu Lan (Daniel Wu), retirado da capital para se dedicar ao teatro, depois do desgosto que foi ver a sua amada casar com o pai. Com a morte deste, a madrasta Wan avisa-o de que o novo imperador o tentará matar. Escapado da tentativa de assassinato, Wu Lan volta à capital, onde tenta descobrir a verdade sobre a morte do pai, e quais são de facto as motivações da imperatriz.

Análise:

Proveniente de Hong Kong, “Inimigos do Império” é mais um filme que percorre a história antiga chinesa numa super-produção de artes marciais fortemente coreografadas com dramas palacianos de inspiração shakespeariana, desta vez sob a realização de Feng Xiaogang, um autor de grande sucesso comercial na China, num filme que teria como títulos internacionais “The Banquet” e “Legend of the Black Scorpion”.

Com a dinastia Tang (século X) a chegar ao fim, a China divide-se. O príncipe herdeiro, Wu Lan (Daniel Wu) está apaixonado pela nobre Wan (Zhang Ziyi). Só que o imperador tem outras intenções para ela e decide desposá-la, o que faz Wu Lan deixar o palácio e refugiar-se num teatro distante, onde se dedica à representação e dança. Com a morte do imperador, e tomada de poder por Li (Ge You), o irmão deste, que se suspeita o tenha morto, a imperatriz Wan envia mensagem a Wu Lan de que a sua vida corre perigo, o que se verifica quando os assassinos do novo imperador chegam para matar o príncipe. Mas Wu Lan escapa e regressa à capital para confrontar o tio e a sua antiga amada, sendo recebido por Qing Nu (Zhou Xun), sua noiva prometida, dama de companhia da imperatriz, e filha do ministro Yin Taichang (Ma Jingwu).

Entretanto, o novo imperador, tenta, por um lado, seduzir a imperatriz Wan para o seu lado, por outro tenta calar as vozes que se lhe opoem na corte, como é o caso do governador Pei Hong (Zeng Qiusheng), quando este trata Wan como Imperatriz-mãe, o que faz de Li um usurpador. Enquanto se prepara a cerimónia do casamento e coroação, Wu Lang é chamado a actuar, como pretexto para ser assassinado, mas a imperatriz salva-o. Mais tarde, Wu Lan obtém a prova de que o seu pai fora envenenado, algo que ele expõe à corte, na cerimónia, na sua actuação teatral. Vexado, para se livrar do príncipe, o seu tio decide enviá-lo como refém para um reino vizinho, mas é tudo uma emboscada para o mandar matar no caminho, só que Wu Lang é salvo pelo general Yin Sun (Huang Xiaoming), filho do ministro Yin Taichang.

Acreditando ter-se visto livre do sobrinho, o imperador organiza um grande banquete, ignorando superstições, e marcando-o para um dia pouco auspicioso. A imperatriz decide finalmente envenenar o marido, com o mesmo veneno que este usara no irmão, mas Qing Nu, actuando na cerimónia, bebe o copo inadvertidamente e morre. Wu Lan revela estar vivo, acorrendo ao momento de morte da noiva. O imperador, percebendo ter sido vítima de uma tentativa de assassinato, começa por enfrentar Wu Lan, para depois beber o resto do veneno. Surge então Yin Sun que tenta matar a imperatriz para vingar a irmã, mas Wu Lan pára a lâmina com as mãos, sem saber que esta estava envenenada. A imperatriz mata Yin Sun, mas Wu Lan more de seguida. Em resultado a imperatriz consorte passa a reinante. Só que, pouco depois, ela é morta por uma seta disparada por alguém que não chegamos a ver.

Com o tema do trono usurpado por um tio que matou o rei, e tenta livrar-se do sobrinho que é o legítimo herdeiro, as ligações a “Hamlet”, de Shakespeare, são por demais evidentes. Tais temas servem aqui uma estética que segue os padrões comuns nos filmes wuxia deste século, desta vez com a componente da arte interpretativa do teatro chinês, com o uso ritual de máscaras e os movimentos estilizados que se vão, depois, confundir – ou talvez se deva dizer mais apropriadamente «fundir» – com aqueles das artes marciais.

Estas surgem logo na sequência inicial, no deslumbrante cenário do teatro natural, onde actores e assassinos esgrimem com armas diferentes, os primeiros com a coreografia da sua arte, os segundos com a dos movimentos bélicos. Vemo-los de novo nos encontros no palácio, destacando-se a primeira «dança» (porque é isso que parece) entre Wu Lan e a imperatriz Wan, e mais tarde no ensaio para a cerimónia do casamento. Numas e noutras (como se vê no culminar da história na interpretação de Yin Sun), golpes de poder confundem-se com poesia, e artes interpretativas com declarações de amor (o sacrifício de Yin Sun, bem como o de Wu Lan, dividido entre o dever vingar o pai, o antigo amor traído de Wan, e a jovem inocente Yin Sun).

Ao tema da luta pelo poder (tão caro nestas histórias) junta-se, assim, o da vingança, mas também o da redenção de amores traídos, bem como o da força feminina, com Wan como a imperatriz que todos vêm como figura secundária, mas que vai mostrar mover todos os fios (e venenos) da história. O próprio tema do veneno (note-se que de escorpião) parece um simbolismo dos poderes ocultos do misticismo chinês (como é depois salientado pelos auspícios na marcação do célebre e sangrento banquete final).

Com um fausto que rivaliza com as obras de Zhang Yimou e de Chen Kaige (pleno de cenários deslumbrantes – o cenário do interior do palácio foi o maior construído até então na China, – e recheado de milhares de figurantes que, num guarda-roupa vistoso, se movem coreograficamente para grande beleza visual, sem esquecer o papel imponente e subtil da música), o filme de Feng Xiaogang conta ainda com mais uma interpretação de cortar o fôlego de Zhang Ziyi (num papel que fora antes oferecido a Gong Li e Maggie Cheung), compondo uma imperatriz sempre a meio caminho entre tudo fazer para proteger aquele que sempre amou, e aproveitar essa desculpa (desculpa apenas para si própria, claro) para ir cimentando o seu poder, deixando-nos sempre na dúvida sobre que motivação lhe falará mais alto caso estas colidam.

Estreado no Festival de Veneza, “Inimigos do Império” foi o filme com que Hong Kong concorreu aos Oscars. Embora não tenha sido nomeado, não lhe faltaram nomeações e prémios noutros festivais internacionais.

Zhang Ziyi em "Inimigos do Império" (Ye yan, 2006), de Feng Xiaogang

Produção:

Título original: Ye yan/夜宴 [Título inglês: The Banquet]; Produção: Huayi Brothers Media / Media Asia Films; Produtores Executivos: Yuen Woo-Ping, Wang Zhonglei, Qiu Gangjian, Lorraine Ho.,; País: China; Ano: 2006; Duração: 131 minutos; Estreia: 30 de Agosto de 2006 (China), 21 de Junho de 2007 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Feng Xiaogang; Produção: Wang Zhongjun, John Chong; Argumento: Sheng Heyu, Qiu Gangjian [inspirado em “Hamlet” de William Shakespeare]; Música: Tan Dun; Orquestração: ; Fotografia: Zhang Li; Montagem: Liu Miaomiao; Design de Produção: Tim Yip; Direcção Artística: Eddie Wong; Figurinos: Chen Hsu Shu; Caracterização: Kwan Lee-Na, Wang Yuling; . Efeitos Visuais: Phil Jones; Coreografia: Wang Yuanyuan; Direcção de Produção: Hu Xiaofeng.

Elenco:

Zhang Ziyi (Imperatriz Wan), Ge You (Imperador Li), Daniel Wu (Príncipe Wu Luan), Zhou Xun (Qing Nu), Ma Jingwu (Ministro Yin Taichang), Huang Xiaoming (General Yin Sun), Zhou Zhonghe (Camareiro), Zeng Qiusheng (Governador Pei Hong), Xu Xiyan (Ling), Liu Yanbin (Mensageiro), Ma Lun (Boticário), Xiang Bin (Guarda Imperial), Zheng Chunyu (Guarda Imperial).

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