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Curse of the Golden Flower No séc. X, a China vê os últimos dias da dinastia Tang. Nas vésperas do Festival do Duplo Nove, com o palácio decorado a flores douradas, o imperador (Chow Yun Fat) regressa subitamente com o segundo filho, o príncipe Zhai (Jay Chou) para as celebrações em família. Mas a relação no casal real não podia ser pior, com a imperatriz (Gong Li) a ser gradualmente envenenada, e a ver afastar-se o amante e seu enteado, o primeiro filho, o príncipe Wan (Liu Ye) que quer fugir com a jovem filha do médico (Li Man). Quando a imperatriz sabe do envenenamento recruta Zhai para comandar as tropas que matarão o imperador. Só que este tem também planos de limpeza no palácio.

Análise:

Depois dos recentes e muito bem recebidos “Herói” (Ying xiong, 2002) e “O Segredo dos Punhais Voadores” (Shi mian mai fu, 2004), Zhang Yimou – o mais bem sucedido realizador da chamada Quinta Geração do cinema chinês – voltava aos épicos dramas históricos, agora com um filme de inspiração shakespeariana, apostado bater todas as barreiras de grandiosidade. De facto, o filme, contendo duas das maiores estrelas do género – Chow Yun-Fat e Gong Li, – viria mesmo a destronar o mais caro filme chinês de sempre até então, o também drama wuxia, “A Promessa” (Wu ji 2005), realizado por Chen Kaige.

A acção de “A Maldição da Flor Dourada” decorre em 928, na China, durante a Dinastia Tang, nas vésperas do faustoso e solene Festival do Duplo Nove. Com o regresso inesperado do imperador (Chow Yun-fat) e do segundo filho, o príncipe Zhai (Jay Chou), até aí em campanha militar, a família real reúne-se, mas apesar da aparência de unidade, a paz não podia ser mais podre. O imperador odeia a imperatriz (Gong Li), e está a envenená-la aos poucos, com a ajuda do médico (Ni Dahong) e da filha deste (Li Man). A imperatriz, que tomara por amante Wan – seu enteado –, o primeiro filho e príncipe herdeiro (Liu Ye), colapsa quando vê que a começou a trocar pela filha do médico. Por fim, a mulher do médico confessa à imperatriz que esta está a ser envenenada, procurando assim vingar-se do imperador, pois foi ela a primeira esposa dele, mas o príncipe Wan (que não sabe ser seu filho) apreende-a e leva-a ao imperador.

A imperatriz convence então o príncipe Zhai a levar a cabo um golpe contra o pai, na noite do festival. Ao mesmo tempo, o médico e família são enviados para a província, onde a mulher do médico se escandaliza ao descobrir a relação entre a filha e Wan, pois eles são meio-irmãos. Já Wan, descobre que a imperatriz mandou bordar 10 000 flores douradas para serem usadas pelo seu exército, tal como a das vestimentas que ela lhe pediu que usasse nessa noite, e adivinha o golpe. Voltando ao palácio, Wan confronta a imperatriz, que lhe confessa o plano, e ele tenta suicidar-se. Enquanto a casa do médico é atacada por assassinos, as duas mulheres fogem para o palácio, onde a imperatriz explica o incesto do príncipe, e elas são mortas pelos assassinos do imperador. É então que o terceiro filho, o príncipe Yu (Qin Junjie), por todos tido como ainda criança, revela estar a par das traições da mãe e da corrupção do pai, mata o irmão Wan, ordenando aos seus homens que matem os imperadores. Mas os assassinos do imperador são mais fortes e derrotam os homens de Yu, deixando-o à mercê do pai que o espanca até à morte. Começa então a sublevação dos 10 000 homens de Zhai, numa luta de milhares de homens nos pátios do palácio. Os rebeldes são derrotados, Zhai levado prisioneiro ao imperador, e os pátios limpos de imediato, com as decorações do festival repostas como se nada tivesse acontecido. Este suicida-se, enquanto novo copo com veneno ácido é servido à imperatriz.

A partir da peça de Cao Yu, de 1934, mas com muito de Shakespeare como inspiração, principalmente a peça “Rei Lear”, Zhang Yimou construiu um drama épico, que é feito de intriga palaciana e golpes de bastidores, onde a tensão nasce das necessidades de sobrevivência individuais, mais até que da ambição. Senão veja-se, o imperador mata porque quer viver sem a esposa; a imperatriz mata porque quer sobreviver ao envenenamento; o primeiro filho renega o trono, e a relação com a madrasta, querendo apenas viver com a amante; o segundo filho mata para salvar a mãe; e por fim, o terceiro filho mata, apenas porque está farto da podridão que reina na família.

Com tal premissa, mais que um filme de acção – e ela existe, em momentos de grande efeito visual –, temos uma história que se revela nos cerimonialismos, olhares e momentos de tensão surda. Seja nas cenas interiores do palácio do ritual do vestir, aos adereços, preparar de cada tarefa diária, e declamar da repetição das hora (afinal é de um cerimonialismo – o Festival – que estamos a falar), seja nos exteriores, nas cenas de combate de milhares de figurantes, “A Maldição da Flor Dourada” (dourado é o tom dominante do filme, dos soldados, às flores, decorações do palácio e mesmo os lábios da imperatriz) é um impressionante exercício de coreografia e decoração, onde nada é deixado ao acaso, e cada milímetro do ecrã serve para nos impressionar, numa história que parece vinda do reino dos contos de fadas, de metáforas poéticas e lições moralizantes.

Depois temos a trama, propriamente dita, com incesto, quer explícito (Wan e filha do médico; Wan e madrasta), quer implícito (a relação da imperatriz com os outros dois filhos sugere contornos edipianos, que os levam a tentar matar o pai), traições, segredos, envenenamentos, manipulações de vontade, chantagens emocionais, castigos carnais, suicídios, e por fim assaltos frontais, com muito sangue. Tudo isto servido por grandes interpretações, destacando-se a força silenciosa de Gong Li, numa imperatriz que sabe estar a morrer, mas consegue lutar, sem o dar a entender.

Impressionando pelo ritmo, características técnicas e todo o lado operático que fazem dele algo à parte no próprio meio em que se move, “A Maldição da Flor Dourada” foi por alguns críticos considerado excessivo. Tal não evitou que recebesse uma nomeação aos Oscars (Guarda-roupa), e catorze nomeações no Festival de Hong Kong, das quais venceu quatro, incluindo Melhor Actriz (Gong Li).

Curiosidade ainda para o facto de Jay Chou, o actor que desempenho o príncipe Zhai, ser um cantor profissional, tendo cantado duas das músicas da banda sonora do filme, uma das quais seria premiada internacionalmente.

O título original do filme, traduzido do mandarim é, na verdade, “Toda a Cidade Coberta de Uma Armadura Dourada”, última linha de um poema de Huang Chao (835–884), imperador da dinastia Qi, em guerra com os Tang.

Qin Junjie, Jay Chou, Gong Li, Chow Yun Fat e Liu Ye em "A Maldição da Flor Dourada" (Man cheng jin dai huang jin jia, 2006), de Zhang Yimou

Produção:

Título original: Man cheng jin dai huang jin jia/ 满城尽带黄金甲 [Título inglês: Curse of the Golden Flower]; Produção: Film Partner International / Edko Films / Beijing New Picture Film Co.; País: China / Hong Kong; Ano: 2006; Duração: 114 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics (EUA); Estreia: 21 de Dezembro de 2006 (Hong Kong, Indonésia, Malásia, Singapura, EUA), 8 de Março de 2007 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Zhang Yimou; Produção: William Kong, Zhang Weiping, Zhang Yimou; Produtor Associado: Zhang Zhenyan; Argumento: Zhang Yimou, Wu Nan, Bian Zhihong [baseado nas peças “Thunderstorm” de Cao Yu e “Rei Lear” de William Shakespeare]; Música: Shigeru Umebayashi; Fotografia: Zhao Xiaoding [fotografia digital]; Montagem: Cheng Long; Design de Produção: Huo Tingxiao; Direcção Artística: Zhao Bin; Figurinos: Yee Chung Man; Caracterização: Liu Jianping, Man Yun-Ling; Direcção de Sequências de Acção: Tony Ching Siu-Ting; Efeitos Visuais: Angela Barson (The Moving Pictures Company), Chung Ki Hang (Centro Digital Pictures, Ltd.).

Elenco:

Chow Yun-Fat (Imperador Ping), Gong Li (Imperatriz Phoenix), Jay Chou (Príncipe Zhai, Segundo Filho), Liu Ye (Príncipe Herdeiro Wan, Primeiro Filho), Chen Jin (Mrs. Jiang, Mulher do Médico), Ni Dahong (Médico Imperial Jiang), Li Man (Jiang Chan, Filha do Médico), Qin Junjie (Príncipe Yu, Terceiro Filho).

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