Etiquetas

, , , , , , , , , , , , , ,

Fontane Effi BriestEffi Briest (Hanna Schygulla) é uma jovem de 17 anos, ainda muito inexperiente, quando é dada em casamento ao promissor barão Geert von Innstetten (Wolfgang Schenck), cerca de 20 anos mais velho que ela. Levada a viver na casa de província em Kessin, Effi convence-se que esta está assombrada, o que é apenas mais um motivo de desconforto, que o marido desdenha, pois apenas se preocupa com o que a sociedade poderá pensar de tal. Com Innstetten sempre ausente em Berlim a cuidar da sua carreira política, Effi vai cultivar a amizade do major Crampas (Ulli Lommel), um conhecido conquistador que poderá colocar a reputação dela em perigo.

Análise:

Desta vez, adaptando um romance de outro autor (o alemão Theodor Fontane, activo no século XIX), Fassbinder escolhia o filme de época como seu veículo, aliando assim os valores e convenções arcaicas presentes em “Nora Helmer” com os valores de produção e estilo melodramático de “Martha”, ambos do mesmo ano deste “Fontane Effi Briest”, que em Portugal ganhou o título “Amor e Preconceito”, contando com Hanna Schygulla como protagonista.

Com o título completo “Fontane Effi Briest oder: Viele, die eine Ahnung haben von ihren Möglichkeiten und ihren Bedürfnissen und trotzdem das herrschende System in ihrem Kopf akzeptieren durch ihre Taten und es somit festigen und durchaus bestätigen” (algo como: “Effi Briest de Fontane ou: Os muitos que têm uma ideia de suas possibilidades e suas necessidades e mesmo assim aceitam, através do seu comportamento, o sistema vigente, consolidando-o e fortalecendo-o”), “Amor e Preconceito” conta-nos a história da jovem Effi Briest (Hanna Schygulla), que com apenas 17 anos é dada em casamento ao promissor barão Geert von Innstetten (Wolfgang Schenck), cerca de 20 anos mais velho, e antigo pretendente da mãe de Effi (Lilo Pempeit). Realizado o casamento, o casal muda-se para a casa provincial de Kessin, onde Effi se sente pouco à vontade, e abandonada, pois a carreira política de Innstetten retém-no longamente em Berlim. Em Kessin, Effi encontra companhia na presença do major Crampas (Ulli Lommel), um conhecido sedutor que consuma a relação com a jovem, mesmo sob a desconfiança de Innstetten. Anos depois, já com uma filha crescida, o casal muda-se finalmente para Berlim, para gáudio de Effi, que desprezava Kessin, e temia a casa onde moravam que julgava assombrada. Mas pouco depois, Innstetten descobre correspondência antiga da esposa, que lhe prova a traição passada. Mesmo contra o conselho dos amigos, Innstetten decide desenterrar o passado, desafiando Crampas para um duelo, em que o mata, e expulsando a esposa, que tem de voltar para casa dos pais, os quais a recebem, depois de um longo período de repudia, durante a qual Effi sente a filha a afastar-se de si. Vítima de depressão, Effi vem a adoecer e morrer, pedindo aos pais que informem Innstetten de que ela o perdoa.

Com comparações com outros romances famosos do século XIX, como “Anna Karenina” de Tolstoi e “Madame Bovary” de Flaubert, “Effi Briest” é uma história centrada na personalidade de uma protagonista feminina, casada demasiado cedo, e imersa numa sociedade fechada e retrógrada que ela não compreende nem a compreende a ela. O resultado de uma mente ainda aberta, que busca, e se busca, é o recontro com outros desejos e paixões, levando ao adultério, como uma forma de insurgência contra a estagnação e isolamento a que a votam aqueles que lhe deviam querer bem. Neste caso, esposa de um homem mais velho, sempre ausente, apenas preocupado com a sua posição social e política (e que por isso não aceita os medos da esposa, que para ele apenas envergonhariam a família), Effi Briest definha num contexto provinciano, onde todos a olham – como a petulante governanta Johanna (Irm Hermann), ou a caprichosa criada Roswitha (Ursula Strätz) – criticam, ou lhe inspiram desdém.

Como já fizera antes, esta era uma forma de Fassbinder voltar a pegar em personagens femininas fortes e, no seu exemplo tão humano de querer viver, denunciar a cristalização social vigente, retrógrada, mesquinha e de forte pendor religioso, que castrava qualquer ambição de crescimento pessoal ou indulgência de espírito. Effi é quase uma Lolita, demasiado jovem para o casamento (ela que nos é desde logo apresentada como uma adolescente, no baloiço, zombando dos pretendentes), ignorada por todos como ser inferior, simplesmente por ser mulher. Resta-lhe a sua vida interior, nas longas narrações e contemplações a que assistimos, e que depois ganharão forma na atenção do amante Crampas. Destaca-se, claro, a frieza de Innstetten, apenas preocupado com a sua imagem, como a da submissa Johanna (secretamente apaixonada pelo patrão), ou a da irreverente Roswitha, representando talvez os excessos aos quais Effi não quer ter de chegar.

Filmando a preto e branco, Fassbinder dá ao seu filme um ar pesado, e quase académico, com longas narrações em off e uma atmosfera poética, onde as sequências terminam em cortes em que o ecrã se torna completamente branco, como que marcando mudanças de capítulos de um livro, nunca nos fazendo esquecer que o material de origem é esse pesado realismo de tom poético e carácter social que marcou a segunda metade do século XIX, e onde não faltam títulos dentro do filme, leituras de cartas e citações de Fontane. Assim, em simultâneo, Fassbinder consegue um filme que mantém um cuidado distanciamento (frio em certos pontos), aliado a uma envolvência quer poética, quer estética, com um visual cuidado, e interpretações clássicas, onde se destaca a – ao mesmo tempo – forte e frágil Effi de Hanna Schygulla, a qual arrasta consigo todo o filme. Seja pelos enquadramentos que lembram pinturas, pelos movimentos majestosos de câmara, pela atenção dada aos rostos, ou ainda pelo quase fetichismo de Fassbinder pelos espelhos (bem como cortinas, vidros, móveis, ramos de árvores, que ajudam a definir espaços e a enclausurar personagens e emoções), “Fontane Effi Briest” ou “Amor e Preconceito” é uma obra cativante, plena de uma força serena, instrospectiva, evocativa e filosoficamente contemplativa, que esconde uma forte crítica social.

O livro de Fontane fora já várias vezes adaptada ao cinema (1939, 1955, 1961), e viria a ser de novo mais tarde (2009), mas é o filme de Fassbinder aquele que melhor define “Fontane Effi Briest”, numa obra que seria apresentada no Festival de Berlim, e que se mantém até hoje como um dos momentos mais marcantes da carreira do realizador alemão, transição para um cinema mais mainstream, onde Fassbinder assumia uma adoração pelo cinema de Hollywood, em particular pelo melodrama de Douglas Sirk.

Karlheinz Böhm em "Amor e Preconceito" (Fontane Effi Briest, 1974), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Fontane Effi Briest; Produção: Tango Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1974; Duração: 140n minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), Cinegate (RFA); Estreia: 21 de Junho de 1974 (Festival de Berlim, RFA), 5 de Julho de 1974 (RFA), 21 de Janeiro de 1983 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produtor Associado: ; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir do romance de Theodor Fontane] Música: Camille Saint-Saëns; Fotografia: Jürgen Jürges, Dietrich Lohmann [preto e branco]; Montagem: Thea Eymèsz; Direcção Artística: Kurt Raab; Figurinos: Barbara Baum; Caracterização: Sybille Danzer.

Elenco:

Hanna Schygulla (Effi Briest), Wolfgang Schenck (Barão Geert von Innstetten), Ulli Lommel (Major Crampas), Lilo Pempeit (Senhora Briest), Herbert Steinmetz (Senhor Briest), Ursula Strätz (Roswitha), Irm Hermann (Johanna), Karlheinz Böhm (Wüllersdorf), Karl Scheydt (Kruse), Barbara Lass (Polnische Köchin), Rudolf Lenz (Geheimrat Rummschüttel), Andrea Schober (Annie von Instetten), Eva Mattes (Hulda), Theo Tecklenburg (Pastor Niemeyer), An Dorthe Braker (Senhora Pasche), Peter Gauhe (Vetter Dagobert), Barbara Valentin (Marietta Tripelli), Rainer Werner Fassbinder (narrador) [não creditado].

Anúncios