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Angst essen Seele aufEmmi Kurowski (Brigitte Mira) é uma viúva sexagenária, mulher a dias, com uma vida de solidão, que um dia, causalmente, conhece Ali (El Hedi ben Salem), um imigrante marroquino vinte e tal anos mais novo, e contra todas as probabilidades, os dois encontram um no outro uma fuga às solidões e incompreensões que atravessam. Só que Emmi vai começar a conhecer a discriminação de quem a rodeia – vizinhas, colegas, e a própria família – para quem o relacionamento com um estrangeiro é, no mínimo, um escândalo. Para legitimar a situação, o par decide casar, contra todas as opiniões, e sabendo que a sua vida será sempre apontada por todos.

Análise:

De novo produzindo para cinema, e filmando em apenas duas semanas, Rainer Werner Fassbinder voltava ao quotidiano de Munique centrado no pós-guerra, para nos dar a conhecer uma história de preconceitos ligados à imigração, racismo e intolerância em geral.

Essa é a história de Emmi Kurowski (Brigitte Mira) e Ali (El Hedi ben Salem), ela uma viúva sexagenária, que vive sozinha e ganha a vida como mulher a dias, ele um imigrante marroquino ainda jovem, que trabalha numa oficina de carros, e passa o tempo livre num bar com amigos, onde se ouve música árabe. Quando, um dia, para se abrigar da chuva, Emmi entra no dito bar, os dois começam a conversar, algo desajeitadamente, e Emmi convida Ali para a acompanhar a casa, onde ele acaba por pernoitar. Seja porque ambos vêem um no outro uma fuga à solidão e incompreensão que ambos vivem, seja por algo mais, Emmi e Ali encetam uma relação amorosa, e acabam por casar, um pouco para surpresa de ambos. Tal cai mal na comunidade. Seja nas vizinhas de Emmi que lamentam verem um estrangeiro no prédio, seja nas colegas de Emmi, que consideram putas as mulheres alemãs que se ligam a imigrantes, seja, finalmente, perante a família de Emmi, que se sente ofendida. Curiosamente, mesmo do lado de Ali as coisas não são fáceis, e o seu círculo zomba dele, por andar com uma «velha». Para combater tudo isto e procurar aceitação, Emmi passa a comportar-se mais como os que a rodeiam, conquistando-os ao ceder às suas necessidades, e tratando Ali cada vez mais como um objecto. Sentindo-se alienado, Ali passa mais tempo fora, e deixa-se levar para uma relação carnal com a dona do bar (Barbara Valentin). Quando Emmi percebe que pode estar a perder o marido, volta ao bar, para o reconquistar com a mesma atitude humilde de antes. Os dois reconciliam-se e Ali cai doente, vítima de úlceras motivadas pelo stress, com Emmi prometendo ficar sempre ao seu lado.

Com o mais directo dos seus filmes até então, Fassbinder, partindo da realidade de Munique, onde a xenobia foi marcada pelo massacre de 1972, conta uma história de choque de mentalidades, descrevendo como os imigrantes de fora da Europa – neste caso um marroquino – eram vistos como seres de segunda, causadores de asco e medo na sociedade alemã. Como se não bastasse o preconceito racial, Fassbinder adiciona-lhe o da idade, dando-nos a conhecer uma relação entre um jovem e uma mulher idosa. Alvo de todos os olhares, o casal é acusado porque ela é velha, porque ele é imigrante. Só uma «puta velha» se dará a tal, como muitos referem – colegas, vizinhas, família, comerciantes, senhorio – numa série de incompreensões, nas quais o homem é sempre um porco, selvagem, violentador de mulheres e costumes.

Alheios a tudo isso, Emmi e Ali tentam contrariar todas as probabilidades, construindo algo seu. Fazem-no por entre surpresa mútua e muito desajeitamento, pois nenhum procurava coisa alguma, mas ambos encontraram no outro um eco do silêncio e solidão em que viviam até aí. Só que as diferenças mantêm-se, e se Emmi precisa da aprovação dos filhos, e dos que a rodeiam, Ali precisa manter uma ligação com a sua cultura – nem que seja pelos cous-cous que Emmi não cozinha –, e cansa-se de se sentir objectificado para que Emmi ganhe estatuto perante os seus.

No seu jeito frio, desligado, sem tempo para momentos supérfluos – e mantendo a teatralidade dos movimentos estilizados em espaços fechados e sempre os mesmos –, Fassbinder vai-nos dando vinhetas da vida do casal, cada qual uma espécie de formulário do quanto o racismo, a xenofobia e a discriminação em geral podem triturar as vidas das pessoas. Perto do melodrama – que admirava, por exemplo, no cinema norte-americano – Fassbinder traçava uma crítica social mordaz, ao mesmo tempo que delineava uma história de amor diferente, algo desconcertante até, mas nem por isso menos comovente ou sincera.

Talvez por ser um dos seus filmes mais acessíveis e humanistas, ou pela universalidade do tema, tão importante no seu tempo como hoje, “O Medo Come a Alma” foi apreciado internacionalmente, tendo ganho dois prémios em Cannes em 1974 (Prémio da Federação Internacional de Críticos, e Prémio do Júri Ecuménico). De então para cá tem sido considerado uma das obras-primas do realizador e do Novo Cinema Alemão.

Brigitte Mira e El Hedi ben Salem em "O Medo Come a Alma" (Angst essen Seele auf, 1973), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Angst essen Seele auf [Título inglês: Ali: Fear Eats the Soul]; Produção: Filmverlag der Autoren / Tango Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1973; Duração: 89 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA), New Yorker Films (EUA), Cinegate (Reino Unido); Estreia: 7 de Novembro de 1973 (RFA), 27 de Fevereiro de 1987 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Rainer Werner Fassbinder; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Fotografia: Jürgen Jürges [cor por Eastmancolor]; Montagem: Thea Eymèsz [não creditada]; Caracterização: Helga Kempke; Direcção de Produção: Christian Hohoff.

Elenco:

Brigitte Mira (Emmi Kurowski), El Hedi ben Salem (Ali), Irm Hermann (Krista, Filha), Elma Karlowa (Mrs. Kargus), Anita Bucher (Mrs. Ellis), Gusti Kreissl (Paula), Doris Mattes (Mrs. Angermeyer), Margit Symo (Hedwig), Katharina Herberg (Rapariga no Bar), Lilo Pempeit (Mrs. Münchmeyer), Peter Gauhe (Bruno Kurowski, Filho), Marquard Bohm (Gruber, Filho do Senhorio), Walter Sedlmayr (Angermayer, Lojista), Hannes Gromball (Empregado), Hark Bohm (Médico), Rudolf Waldemar Brem (Mecânico / Jogador de Cartas), Karl Scheydt (Albert Kurowski, Filho), Peter Moland (Chefe da Oficina), Barbara Valentin (Barbara), Rainer Werner Fassbinder (Eugen, Genro).