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Welt am DrahtNo IKZ (Institut für Kybernetik und Zukunftsforschung), o professor Vollmer (Adrian Hoven) dirige uma experiência de simulação computacional criando um mundo similar ao nosso, com unidades que em tudo parecem pessoas reais e não sabem não o ser. Quando o professor morre em situações estranhas, o seu sucessor, Fred Stiller (Klaus Löwitsch) investiga a sua morte, deparando com uma série de peculiaridades como pessoas que desaparecem e ninguém se parece lembrar delas. Numa experiência, um dos seus colegas regressa do mundo virtual com a mente de uma das unidades nele criadas, a qual diz a Stiller que, não só é possível viajar entre níveis, como o dele não é o real, mas também uma simulação.

Análise:

Em 1973, Rainer Werner Fassbinder abraçou um projecto diferente, no que seria a adaptação, a uma mini-série televisiva de dois episódios, do livro “Simulacron-3” de Daniel F. Galouye. Com um ambiente diferente daquilo que era habitual no realizador, a série acabou por ter uma curta distribuição internacional, vindo mais tarde a passar nalguns cinemas.

O filme leva-nos a um futuro próximo, onde, no Institut für Kybernetik und Zukunftsforschung (IKZ) um novo supercomputador é utilizado para criar uma simulação do nosso mundo, com 9 mil “unidades” que se comportam como pessoas reais com comportamentos iguais aos nossos, e sem saberem que são simuladas. Quando o responsável científico, o professor Vollmer (Adrian Hoven) começa a mostrar um comportamento errático, morre em situações estranhas. O seu sucessor, Fred Stiller (Klaus Löwitsch) é abordado pelo chefe de segurança, Günther Lause (Ivan Desny), que lhe quer contar sobre uma descoberta do professor, só que Lause desaparece misteriosamente. Mais estranho é que ninguém mais se lembra da existência de Lause, e Stiller começa a pensar estar a enlouquecer. Mais tarde para resolver um problema no mundo simulado, Fritz Walfang (Günter Lamprecht), colega de Stiller, ao entrar nesse mundo vê a sua mente trocada com a unidade chamada Einstein (Gottfried John), unidade de contacto, e por isso a única a saber da simulação, e que tenta agora subir para o nível superior. Quando Stiller o descobre e o impede, Einstein conta-lhe que também este mundo é simulado, o que explica os desaparecimentos, transformações e perdas de memória colectivas.

Descoberta esta verdade, Stiller não sabe o que fazer, pois tentar prová-la faz dele louco aos olhos de todos. Pressionado pelo director da IKZ, Herbert Siskins (Karl-Heinz Vosgerau), que quer que a simulação sirva para prever comportamentos de mercado, Stiller é posto de licença, enquanto procura incongruências – desaparecimentos, notícias que surgem modificadas, etc. – conseguindo convencer Franz Hahn (Wolfgang Schenck), o psicólogo da empresa, que o vem analisando. Só que este morre num acidente, e Stiller começa a ser procurado como assassino. Resta-lhe encontrar a unidade de contacto deste mundo com o superior, e esta é Eva Vollmer (Mascha Rabben), pretensa filha do cientista morto, entretanto enamorada de Stiller, pois ele foi modelado segundo uma pessoa do mundo de Eva, que esta de facto amou. Quando Stiller volta à IKZ para contar toda a verdade, é morto numa emboscada, só que Eva troca, nesse momento, as mentes dos dois Stillers, e Fred acorda no mundo do nível superior, a salvo ao lado de Eva.

“O Mundo no Arame” é, nitidamente, um filme diferente na obra de Fassbinder. Não só por se tratar de uma mini-série de televisão – onde se esperava um ritmo e fio narrativo mais do agrado do grande público, como por ser uma incursão no mundo da ficção científica, e ainda por ser uma história que se afasta dos temas recorrentes do realizador. Adaptando um livro de outro autor, Fassbinder não deixa de lhe trazer algumas das suas idiossincrasias autorais, como a frieza das personagens, poses de distanciamento, diálogos cínicos e movimentos de câmara dramáticos, ainda que agora usando cenários complexos, detalhados e diversificados.

Mas o que mais define “O Mundo no Arame” é a sua história. Falando-nos de uma sociedade futura onde se simulou um mundo dentro do nosso mundo, feito de pessoas e situações completamente realistas, tal é – numa crítica ao capitalismo galopante – usado apenas para prever comportamentos de mercado, cujo conhecimento possa trazer lucro no mundo real. Este cenário é perturbado pela morte do director científico do projecto, aparentemente enlouquecido, e pelas situações estranhas em torno do seu sucessor Fred Stiller, que, interpretado por Klaus Löwitsch, irá protagonizar os acontecimentos daí em diante, trazendo um dramatismo e sentido de tragédia que contrasta grandemente com a frieza de tudo o que o rodeia.

Como se o seu comportamento – dir-se-ia humano ou caloroso – fosse ele próprio uma ameaça, Fred Stiller começa a sentir que está a enlouquecer, quando percebe que alguns acontecimentos por ele testemunhados, e pessoas que lhe são próximas, não só desaparecem, como ninguém deles parece lembrar-se. Resta-lhe a teimosia para tentar provar que não está louco, e as suas indagações levam-no a descobrir que as transformações e desaparecimentos que aconteceram no seu mundo espelham aqueles que ele faz acontecer no mundo simulado. A conclusão é óbvia, o mundo de Stiller – aquele que julgamos o nosso, como observadores – é também ele uma simulação de um nível superior. Resta a Stiller encontrar o elo de ligação, a pessoa que viaja entre mundos, e o pode talvez salvar.

De temática complicada, “O Mundo no Arame” levanta delicadas questões filosóficas, que vão do papel da ciência, e possibilidade de replicação de inteligência artificial, até à condição humana e natureza do universo. Ainda assim, apesar de ser um exercício intelectual, a sua componente de mistério – há uma certa aura noira atravessar o filme – e trama criminal tornam-se algo mais fácil de seguir que o filme médio de Fassbinder, tendo chegado ao Festival de Berlim em 2010.

Mesmo (ou talvez por isso) sendo a única entrada de Fassbinder no reino da ficção científica, espanta como a temática é tão original no cinema, sobretudo se pensarmos o que era o poder computacional em 1974, longe de antever a incrível evolução (de capacidade e conceitos) que se seguiria. Notável também, é o livro original ser de 1964. A prova de ser uma obra à frente do seu tempo chegou-nos no virar do século, onde “O Mundo no Arame” teve um remake, realizado por Josef Rusnak, e intitulado “The Thirteenth Floor” (1999). Mais importante ainda será o facto de ter sido uma grande inspiração para “Matrix” (The Matrix, 1999), dos irmãos Wachowski, numa vaga de filmes sobre estes temas, que inclui, por exemplo eXistenZ (1999), de David Cronenberg, e “A.I. Inteligência Artificial” (Artificial Intelligence: AI, 2001), de Steven Spielberg.

Imagem de "O Mundo no Arame" (Welt am Draht, 1973), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Welt am Draht; Produção: Westdeutscher Rundfunk (WDR); País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 204 minutos; Estreia: 14 de Outubro de 1973 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Peter Märthesheimer, Alexander Wesemann; Argumento: Fritz Müller-Scherz, Rainer Werner Fassbinder [a partir do livro “Simulacron-3” de Daniel F. Galouye]; Música: Gottfried Hüngsberg; Fotografia: Michael Ballhaus, Ulrich Prinz; Montagem: Marie Anne Gerhardt, Ursula Elles; Design de Produção: Kurt Raab, Horst Giese, Walter Koch; Figurinos: Gabriele Pillon; Caracterização: Rosemarie Schönartz, Norbert Gerwin; Direcção de Produção: Fred Ilgner.

Elenco:

Klaus Löwitsch (Fred Stiller), Barbara Valentin (Gloria Fromm), Mascha Rabben (Eva Vollmer), Karl Heinz Vosgerau (Herbert Siskins), Wolfgang Schenck (Franz Hahn), Günter Lamprecht (Fritz Walfang), Ulli Lommel (Rupp, o Jornalista), Adrian Hoven (Professor Henri Vollmer), Ivan Desny (Günther Lause), Joachim Hansen (Hans Edelkern), Kurt Raab (Mark Holm), Margit Carstensen (Maya Schmidt-Gentner), Ingrid Caven (Uschi, Secretária de Rupp), Gottfried John (Einstein), Rudolf Lenz (Hartmann), Lilo Pempeit [como Lieselotte Eder] (Técnica de Dados), Heinz Meier (Von Weinlaub, Secretário de Estado), Peter Chatel (Hirse, Secretário de Estado), Rainer Hauer (Inspector Stuhlfauth), Ernst Küsters (Segurança), El Hedi ben Salem (Segurança), Karl Scheydt (Inspector Lehner), Solange Pradel (Cantora), Bruce Low (Médico), Elma Karlowa (Gerente da Cafetaria), Maryse Dellanoy (Empregada no Café), Werner Schroeter (Convidado na Festa), Magdalena Montezuma (Convidada na Festa), Christine Kaufmann (Convidada na Festa), Rainer Langhans (Rainer, Criado na Festa), Corinna Brocher (Empregada), Dora Karras-Frank (Vítima do Atentado a Stiller), Katrin Schaake (Assistente do Laboratório Informático), Peter Gauhe (Informador).

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