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Bem-vindo ao deserto do real dos Wachowskis

Segunda-feira, dia 23 de Julho chega o sétimo episódio de Universos Paralelos, como sempre no podcast Segundo Take, e com a autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta).

Desta vez o explora-se o deserto do real da forma como os irmãos Wachowski nos deram a conhecer as fronteiras entre realidade e virtual, na série Matrix. O episódio poderá ser encontrado aqui:
podcast

 

Bem-vindo ao deserto do real dos Wachowskis

Larry e Andy Wachowski

“Bem-vindo ao deserto do real”. Com estas palavras ditas por Morpheus a Neo, somos lançados numa das trilogias mais marcantes que a 7ª Arte nos tem para oferecer.

Em 1999, os irmãos Wachowskis, Andy e Larry – agora Lilly e Lana, respectivamente – apresentaram ao grande público um filme que se tornaria um dos filmes mais discutidos nos círculos académicos filosóficos desde o “Vontade Indómita” (The Fountainhead, 1949) de King Vidor ou “O Sétimo Selo” (Det sjunde inseglet, 1957) de Ingmar Bergman. Tal como no tratado de Jean Baudrillard, “Simulacres et Simulation” (1981), de onde a linha de diálogo supra referida é retirada, “Matrix” procura examinar as relações entre realidade, símbolos, e sociedade, em particular os significados e simbolismo da cultura e dos media que estão envolvidos na construção de um entendimento de uma existência partilhada. No tratado, os simulacros são cópias que representam coisas que nunca tiveram um original, ou que deixaram de ter um. No filme, o simulacro não é uma cópia do real, mas torna-se verdadeiro no seu próprio direito: o hiper-real; ou seja, a incapacidade da consciência distinguir entre a realidade e uma simulação da realidade. Uma simulação é a imitação das operações de um processo do mundo real ou sistema ao longo do tempo.

Os Wachowskis, intencionalmente, procuram desestabilizar o espectador com estas questões. Numa entrevista, disseram candidamente que queriam colocar as grandes questões do Homem num só filme. Revelou-se um projecto ambicioso que viria a crescer para uma trilogia (posteriormente estrearam: “The Matrix Reloaded” (The Matrix Reloaded, 2003) e “Matrix Revolutions” (The Matrix Revolutions, 2003)). Como sugerido por Slavoj Žižek, Matrix é um verdadeiro teste de Rorschach para teses filosóficas: existencialismo, Marxismo, feminismo, Budismo, niilismo, pós-modernismo, … É possível encontrar, praticamente, qualquer ismo nesta trilogia. No entanto, algumas questões apresentam-se como centrais: O que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? O que é real? O que é a felicidade? O que é a mente? O que é a liberdade, e será que a temos? É a inteligência artificial possível?

Imagem de "Matrix" (The Matrix, 1999), dos Irmãos Wachowski

Aparte das questões que os filmes suscitam, esta trilogia também representa um salto bastante relevante dentro do género cinematográfico dos filmes de acção. Repleto de inovações técnicas que permitem aos actores desafiar as leis da gravidade (evidenciando o contraste entre as cenas do mundo actual e as do mundo virtual – “there is no spoon” – como é dito a Neo, pois a Matrix apesar de não ser de forma senciente distinguível do real, não deixa de ser constituída por linhas de código e mudando isso – no filme isso implica mudar-se a si mesmo –, muda-se a realidade aparente, permitindo a Neo parar balas, voar ou saltar entre prédios), como é o caso da bullet time, Matrix aproxima-se de um cinema de artes marciais clássico com técnicas modernas; funde lutas coreografadas e a utilização de fios presos aos actores para simular capacidades sobre-humanas (também conhecido como Qinggong) dentro de um mundo virtual para contrastar múltiplas realidades. Cinematograficamente falando este contraste encontra-se na escolha das cores: predominância do verde no virtual e do azul no real. Notemos ainda que o que é representado como realidade virtual não recorre (ou recorre pouco) ao digital, ao passo que o que é representado como realidade actual é, em contrapartida, sistematicamente produzido com imagens digitais. A realidade actual é negra, suja e desesperante, enquanto que a realidade virtual é colorida, limpa e no fundo, feliz. Compreende-se a posição de Cypher: “After nine years, you know what I realize? Ignorance is bliss.” Incapaz de distinguir duas realidades, mas vale viver naquela em que somos felizes.

Imagem de "The Animatrix" (2003), de Peter Chung, Andrew R. Jones, Yoshiaki Kawajiri, Takeshi Koike, Mahiro Maeda, Kôji Morimoto e Shinichirô Watanabe

Ainda com o intuito de aumentar o universo de Matrix e preencher algumas lacunas presentes nos filmes, os Wachowskis produziram uma antologia de curtas metragens de animação denominada de “The Animatrix” (The Animatrix, 2003). A antologia contém detalhes da história do universo Matrix, incluindo a guerra original entre homem e máquina que levou à criação da Matrix. Conta com convidados de renome como: Shinichirō Watanabe (Cowboy Bebop) ou Peter Chung (Æon Flux)

Filho do cyberpunk, Matrix é uma série de filmes que carrega a tocha bem acesa desse subgénero da ficção científica. Apresenta-se como vários filmes de acção, mas que inevitavelmente suscitam em nós várias questões de grande importância. Aqui, neste pequeno texto, procurei reflectir mais sobre a questão do real, mas a título de possível interesse, deixo outros três problemas filosóficos, presentes neste universo, que aconselho o devido aprofundamento: (i) a alegoria da caverna de Platão, (ii) o dualismo cartesiano corpo-alma e (iii) o problema de Molyneux.

Bons visionamentos, boas leituras, e vemo-nos do outro lado da toca do coelho.

Tomás Agostinho, Julho de 2018.

 

Fontes primárias

Filmografia

  • Matrix (The Matrix, 1999)
  • The Matrix Reloaded (The Matrix Reloaded, 2003)
  • Matrix Revolutions (The Matrix Revolutions, 2003)
  • The Animatrix (The Animatrix, 2003)

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Irwin, W., ed., (2002). The Matrix and Philosophy: Welcome to the Desert of the Real. Chicago: Open Court Publishing Company.

Documentários

Outras referências

Filmes

  • Metrópolis (Metropolis, Fritz Lang, 1927)

Livros

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