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Wildwechsel Hanni Schneider (Eva Mattes) é uma adolescentre precoce, que aos 14 anos se sente prisioneira do estilo de vida sem esperança da sua família de classe média-baixa, formada pelo pai Erwin (Jörg von Liebenfelß) e pela mãe Hilda (Ruth Drexel). Dando largas à sua rebeldia, Hanni deixa-se levar pelo mais velho Franz (Harry Baer) de 19 anos, com quem tem uma relação sexual. Só que isto é sabido, e Franz acaba preso, trazendo à família Schneider uma aura de vergonha e incompreensão. Mas Hanni está disposta a manter a sua posição, e mal Franz sai da prisão, ela procura-o para reatar a relação, mesmo que a tragédia esteja ao virar da esquina.

Análise:

De novo filmando para televisão, adaptando uma peça de teatro de 1971 (neste caso de outrem), tal como fizera no anterior “Bremer Freiheit” (1972), Fassbinder voltava a inspirar-se numa história verídica, que revolvia em torno de um crime cometido por uma mulher, quando em 1967 uma rapariga de 13 anos foi responsável pela morte do próprio pai.

A mulher em causa, ou antes, a adolescente, é Hanni Schneider (Eva Mattes), de apenas 14 anos, e que vemos no início, em comportamento normal para uma jovem da sua idade, entre momentos de rebeldia juvenil e de de busca de conforto infantil junto dos pais, o cinzento casal de classe média, Erwin (Jörg von Liebenfelß) e Hilda (Ruth Drexel). Ao conhecer Franz (Harry Baer), de 19 anos, Hanni vai iniciar uma relação carnal com ele, pelo puro prazer da transgressão e entrada no mundo dos adultos. Só que o caso é falado, e a polícia prende Franz, com a família de Hanni a passar pela vergonha de ser informada dos acontecimentos. A forte oposição paterna (que chega a elogiar a ordem nazi) desgosta Hanni que volta a procurar Franz, mal ele é posto em liberdade. Reiniciada a relação, Hanni engravida, e sabe que o pai fará tudo para que ela não tenha o filho ou ela possa voltar a ver Franz. Por isso, Hanni convence Franz (que trabalha num matadouro) a matar o pai, e arma-lhe uma cilada, chamando-o ao bosque (o «wildwechsel» do título – travessia de caça grossa), onde este deverá ter uma conversa de homem para homem com Franz. Franz mata o pai de Hanni, mas a polícia rapidamente compreende o que aconteceu, e os dois amantes vão presos. Hanni dá à luz um bebé que já não quer, e este morre logo após o parto. Quando Hanni conta o sucedido a Franz, fá-lo com frieza, dizendo que na verdade nunca houve amor entre eles.

Não se coibindo de mostrar nudez, de se alongar nas cenas em que faz de Hanni um ser puramente sexual, ou de abordar frontalmente uma relação sexual entre um adulto e uma menor, Rainer Werner Fassbinder, um pouco à luz do que fizera no anterior “Bremer Freiheit”, voltava a partir de uma história de um crime inconcebível – por ser praticado por uma mulher tão jovem, e contra o seu próprio pai –, para nos dar uma espécie de ensaio do que poderá ter estado por trás de tudo. Ao contrário do filme citado, desta vez Fassbinder opta por uma realização mais clássica, onde – se excluirmos um certo abuso dos diálogos filmados em ostensivos campo/contra-campo, e alguns close-ups bruscos – encontramos uma forma de encenar, de usar os espaços (interiores e exteriores) e de decompor as cenas em planos, que obedecem às regras do cinema clássico.

Mas “Jogos Perigosos” não deixa de ter o toque de Fassbinder, desde a rudez e habitual distanciamento frio dos seus protagonistas, à subversão de conceitos (note-se a ambiguidade da relação entre pai e filha, com leves sugestões de contactos incestuosos), passando, claro, pela forma austera de narrar, onde não faltam enormes elipses, que não nos deixam ver momentos importantes (a prisão do casal, a morte do filho de Hanni), preferindo falar-nos delas, para que testemunhemos o seu efeito nas personagens, e não a situação em si. Note-se ainda a crescente propensão de Fassbinder para filmar rostos ao espelho ou através de molduras de vidros e janelas.

Conto de uma classe média sem objectivos, perdida na sombra do passado da guerra, à beira de um mundo diferente (o comunismo), e sem quaisquer certezas de futuro, “Jogos Perigosos”, como quase sempre na obra de Fassbinder, é um ensaio sobre a decadência de valores, quer da sociedade, quer do estado da nação. Nessa metáfora, a família Schneider é uma representação do tradicionalismo conservador, com medo da mudança, procurando subsistir a todo o custo, enquanto o crime vem de fora, provocado por uma juventude sem rumo (de inspiração americana, no penteado de Franz à anos 50, e na música de Paul Anka), explorada e deixada ao Deus dará. Por isso, “Jogos Perigosos” traz-nos um ambiente triste, sombrio, sem alegria ou esperança que não seja uma rebeldia sem objectivo nem paixão, o que é traduzido no final na forma como os dois amantes se despedem, sem desejos ou sonhos.

Por este papel, e também pela sua presença no filme “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” (Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972), Eva Mattes venceria um prémio de Melhor Actriz do Cinema Alemão. Curiosamente, o autor da peça original, Franz Xaver Kroetz processaria o filme de Fassbinder, pelo seu conteúdo sexual.

Produção:

Título original: Wildwechsel [Título inglês: Jail Bait]; Produção: Intertel / Sender Freies Berlin (SFB); Produtores Executivos: ; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1973; Duração: 94 minutos; Distribuição: New Yorker Films (EUA); Estreia: 9 de Janeiro de 1973 (ARD, RFA), 26 de Janeiro de 1977 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Gerhard Freund, Rolf Defrank (SFB); Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir da peça homónima de Franz-Xaver Kroetz]; Música: Peer Raben, Paul Anka (canção “You Are My Destiny”); Fotografia: Dietrich Lohmann [cor por Eastmancolor]; Montagem: Thea Eymèsz; Design de Produção: Kurt Raab; Caracterização: Fredy Arnold.

Elenco:

Eva Mattes (Hanni Schneider), Ruth Drexel (Hilda Schneider), Harry Baer (Franz Bermeier), Jörg von Liebenfelß (Erwin Schneider), Karl Scheydt (Inspector da Polícia), Rudolf Waldemar Brem (Dieter), El Hedi ben Salem (Amigo de Franz), Hanna Schygulla (Médica), Klaus Löwitsch (Inspector da Polícia), Kurt Raab (Chefe na Fábrica), Marquard Bohm (Agente Policial), Irm Hermann (Polícia Policial).