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The Promise Há muito tempo, após uma guerra devastadora, a pequena Qingcheng recebe um dom de uma deusa, pode ter toda a beleza e riqueza do mundo, mas perderá todos os que ama, a não ser que o tempo volte para trás, neve na Primavera, e os mortos voltem a viver. 20 anos depois, o general Guangming (Hiroyuki Sanada) é vitorioso noutra guerra, graças ao poderes do escravo Kunlun (Jang Dong-Gun), que ele passa a tomar por assistente. Quando Guangming, ferido, percebe que o rei vai ser assassinado pelo duque do Norte (Nicholas Tse), envia Kunlun disfarçado com a sua armadura para o salvar. Mas ao chegar, este mata o rei para salvar nem mais que Qingcheng (Cecilia Cheung), agora princesa, e que se apaixona por ele, pensando tratar-se de Guangming. Caído em desgraça, resta a Guangming, enquanto a maldição não se revelar, viver o amor da princesa, sob o olhar de Kunlun, que entretanto descobre quem destruiu tudo o que ele antes fora.

Análise:

Contnuando, a par de Zhang Yimou, a carregar a tocha dos grandes épicos históricos de inspiração no universo wuxia, apostados em chegar ao mercado ocidental, Chen Kaige dava-nos em “A Promessa” um filme que, ao contrário dos filmes mais recentes do género, que procuravam factos históricos como inspiração, preferia um piscar de olhos a uma espécie de contos de fadas, onde figuras mitológicas, poderes mágicos e aventuras maiores que a vida eram o ponto de partida para uma alegoria sobre o amor e o poder.

Adaptando livremente o conto, “O Escravo Kunlun” (Kunlun Nu), escrito por Pei Xing durante a dinastia Tang (séc. IX), Chen Kaige começa por nos colocar no território mítico das lendas, no qual vemos os destroços de uma grande batalha num reino mítico, onde uma menina (Guan Xiaotong) corre livremente procurando comida. Aprisionada, momentaneamente por um menino (Shi Lei) em pose guerreira, a menina ludibria-o e foge com um bolo. É então interpelada por uma figura flutuante (Chen Hong), que lhe salva o bolo de cair num rio, e lhe faz uma proposta: dar-lhe todas as riquezas que quiser, à custa de nunca poder o amor. A menina aceita, e a história avança no tempo.

No momento presente, o general Guangming (Hiroyuki Sanada), prepara-se para vencer uma batalha de 3 000 homens contra 10 000, pelo uso de escravos, que fará correr em frente dos animais que são soldados na sua direcção. Quando os escravos debandam, espezinhados pelos animais em tropel, um deles, Kunlun (Jang Dong-Gun), toma a dianteira, para salvar o seu chefe caído, correndo mais veloz que o vento, e conduzindo os animais atrás de si, dizimando o exército inimigo. Agradado, Guangming toma Kunlun como seu escravo pessoal, e os dois dirigem-se ao palácio imperial para comunicar a vitória, quando Guangming é interpelado pela mesma figura mítica de antes. Esta diz-lhe que o homem da armadura vermelha (título de Guangming), matará o rei por uma mulher, e aposta com ele que não o conseguirá evitar. Guangming apressa-se a acorrer ao palácio, mas é atacado por uma figura de negro, denominada Lobo de Neve (Liu Ye), que pára quando reconhece em Kunlun um par, dada a velocidade impossível que os dois têm. Ferido, Guangming envia Kunlun no seu lugar, com a sua armadura. Quando este chega, o palácio está sitiado pelas tropas do duque Wuhuan (Nicholas Tse), com o rei a escudar-se na princesa Qingcheng (Cecilia Cheung), que julga que o traiu. Vendo a princesa em perigo, Kunlun mata o rei instintivamente, salvando-a e fugindo com ela. Só que o par é encurralado num precipício pelas tropas de Wuhuan, e para salvar a princesa, Kunlun salta, com todos a pensar que fora Guangming que matara o rei e agora morreu. Ao saber do sucedido, o verdadeiro Guangming decide, sempre com a ajuda de Kunlun, libertar a princesa e fazê-la enamorar-se dele, já que ela pensa que foi ele que a salvou na primeira vez, matando o rei. A princípio relutante, pois é ela a menina do início da história, Qingcheng vive uma história de amor com Guangming, enquanto Kunlun aprende a correr mais que o tempo, e a viajar ao passado com o assassino Lobo de Neve, que lhe conta como o duque Wuhuan em tempos matou todos na aldeia de ambos, na busca de pessoas que quisessem o seu dom da velocidade. Só ele aceitou, tendo com a ela a maldição de ser um fantasma, que morrerá sem o seu manto. Entretanto, os soldados de Guangming vêm chamá-lo para os liderar, pois não gostam de servir Wuhuan. Este acede e deixa Qingcheng, para perceber que fora tudo um logro, e tanto ele como Qingcheng e Kunlun caiem prisioneiros de Wuhuan. Com Wuhuan a matar Lobo de Neve, o manto deste fica livre e Wuhuan oferece-o a Guangming, para que este fique seu escravo, em vez de morrer. Guangming aceita, mas apenas para ser desagrilhoado, e atacar Wuhuan. Na luta, Guangming e Wuhuan matam-se mutuamente, soltando no processo Kunlun e Qingcheng, com este a levá-la, mais rápido que o tempo para um lugar e tempo onde possam ser felizes.

Fortemente fantasista, “A Promessa” destaca-se tanto pela componente mágica – associada à mitologia taoísta – como pelo modo estilizado da acção, desde as corridas impossíveis de Kunlun, aos combates de voos vertiginosos. Tudo isto necessitou de uma forte presença de efeitos visuais, a qual recaiu ainda no tratamento da imagem, o que dá ao filme uma qualidade irreal. Nada disto destoa, no entanto, da característica principal presente neste tipo de filmes: a recriação de uma época remota, uma fotografia brilhante, com uso de cenários impressionantes, guarda-roupas elaborados, e milhares de figurantes (ainda que aqui, com algumas cenas em que estes são gerados por computador).

Aspectos técnicos e estilísticos à parte, “A Promessa” é essencialmente um conto de fadas, onde desejo, ambição, poder e amor são os temas principais. Logo no prólogo, que mostra um momento marcante na infância de dois dos protagonistas – ela recebendo a maldição que a marcaria, ele conhecendo pela primeira vez o gosto amargo do engano –, percebemos que estamos perante um mundo de encantamento, onde se fala por metáforas. Saltamos depois para um conto de luta por poder, com a nova intromissão do enredo amoroso a chegar por portas travessas, numa multitude de enganos. O escravo Kunlun, que deve salvar o rei, mata-o. A princesa Qingcheng apaixona-se por ele, pensando tratar-se do general Guangming. Este, pensando evitar o assassínio, precipita-o, e vendo-se privado do título e poder, decide apaixonar-se pela princesa, para despeito de Wuhuan. Este, por sua vez, descobrindo que foi Kunlun o assassino, prefere continuar a acusar o rival Guangming pela inveja que lhe tem. Pelo meio temos o tal amor impossível, sinal de tragédia anunciada, quase em jeito de tragédia grega, onde a húbris está no acreditar que o amor é possível. Por fim, um pouco como peixe fora de água, temos Kunlun, que apenas quer obedecer, nada sabe de poder, e deixa que o olhar da princesa o encante mesmo sabendo que ela o dirige a outro. Ainda assim, é essa força que leva o par final a desafiar o universo, para ter apenas um novo recomeço, onde o destino (isto é, as escolhas) esteja nas suas mãos, e não nas de forças superiores.

E é essa lição de que podemos sempre escolher o nosso destino, que Chen Kaige parece querer deixar-nos, mesmo que chegue a ela de modo transviado, depois de muitas voltas, nas quais chegamos a esquecer a verdadeira motivação das personagens ou como se relacionam com o tal prólogo. Por outras palavras, é muita a ambição de Chen Kaige onde a subtileza seria talvez mais eficaz quando se quer deixar uma mensagem emocional. Por outro lado, não devemos esquecer que, mesmo querendo chegar ao público ocidental – e “A Promessa” tem essa preocupação, como se vê, por exemplo, nas sequências de sedução erótica –, há sempre algo de «intraduzível» quando se populariza conceitos que têm na raiz uma filosofia oriental.

“A Promessa” foi mal recebido pela crítica, por ser demasiado escapista, com acção extremamente estilizada, e uma cenografia mais artificial que a dos seus congéneres mais celebrizados. Como se não bastasse, o filme ficou envolvido em polémicas sobre destruição ambiental, durante a sua produção, e o próprio Chen Kaige passou por processos judiciais. Não obstante, o filme foi um sucesso na China, sendo mesmo nomeado para um Globo de Ouro, e recebeu o prémio do Fantasporto, para a secção Orient Express.

Hiroyuki Sanada em "A Promessa" (Wu ji, 2005), de Chen Kaige

Produção:

Título original: Wu ji/無極 [Título inglês: The Promise]; Produção: China Film Group Corporation / Moonstone Entertainment Inc. / Beijing Film / Beijing 21st Century Shengkai Ltd. / Capgen Investment Group / Show East; Produtores Executivos: Han Sanping, Chen Hong, Ernst Etchie Stroh; País: China / Coreia do Sul / EUA; Ano: 2005; Duração: 117 minutos; Distribuição: China Film Group Corporation (China), Moonstone Entertainment (Internacional), Warner Independent Pictures (WIP) (EUA); Estreia: 15 de Dezembro de 2005 (EUA), 2 de Outubro de 2008 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Chen Kaige; Produção: Yang Buting, Chen Hong, Hu Lan, Ernst Etchie Stroh; Argumento: Chen Kaige, Zhang Tan; Música: Klaus Badelt; Fotografia: Peter Pau, Choi Shung-fai [digital]; Montagem: Zhou Ying, Li Fang; Figurinos: Kimyia Masago, Tim Yip; Design de Produção: Tim Yip; Efeitos Especiais: Frankie Chung; Efeitos Visuais: John Chu (Centro Digital Pictures Ltd.); Animação: Tommy Cheng, Eric Suen; Coreografia de Acção: Stephen Tung Wai, Dion Lam.

Elenco:

Jang Dong-Gun (Kunlun), Hiroyuki Sanada (General Guangming), Cecilia Cheung (Princesa Qingcheng), Nicholas Tse (Duque Wuhuan), Liu Ye (Lobo de Neve), Chen Hong (Deusa Manshen), Cheng Qian (Rei), Calvin Yu [como Yu Xiao Wei] (Ye Li), Guan Xiaotong (Jovem Qingcheng), Shi Lei (Jovem Wuhuan), Peng Lu (General de Vermelho), Qian Po (Um Olho).

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