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Mars na Drinu Com o fim da Guerra dos Balcãs, de 1912 a 1913, a Sérvia mal teve tempo de respirar a paz, com a iminência da invasão austríaca no início da Primeira Guerra Mundial, logo em 1914. Aí acompanhamos Veca (Nikola Jovanović), um jovem sérvio cuja família rica já o livrara da guerra anterior, mas que agora quer provar ser tão capaz como os outros homens. Veca é então colocado às ordens do primo Kosta ‘Kole’ Hadživuković (Aleksandar Gavrić), no batalhão de artilharia que se move para o Monte Cer, para parar a entrada das tropas austríacas, enquanto convive com os homens que esperam que no momento de apuros ele volte a deixá-los.

Análise:

Hoje, talvez pouco se pense nisso quando se relembra a Primeira Guerra Mundial, mas a Sérvia esteve no seu cerne, já que após o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, era a secessão dos territórios do que seria a futura Jugoslávia, que estava na génese do conflito. Nos anos 60, em plena era comunista, a república jugoslava de Tito, usaria a célebre peça clássica “Marcha para o Drina” (composta por Stanislav Binički durante o conflito) como mote para um filme escrito e realizado por Zivorad ‘Zika’ Mitrović e que tinha por objectivo enaltecer o patriotismo e unidade nacional contra as pressões externas.

“March on the Drina” mostra-nos os acontecimentos que precedem e circundam a batalha de Cer, em Agosto de 1914, na qual os sérvios conseguiram, com enorme sacrifício, impedir a entrada austríaca no seu território. A acção inicia-se antes da guerra, com o episódio do alistamento de Veselin ‘Veca’ Hadzi Hadživuković (Nikola Jovanović), cuja família – industriais que fornecem armas para o exército –, quer usar o seu estatuto para o livrar da guerra, como, aliás, já fizera nas guerras dos Balcãs (1912-1913) para desgosto do próprio. Veca é colocado sob o comando do seu primo, o capitão de artilharia Kosta ‘Kole’ Hadživuković (Aleksandar Gavrić). Seguem-se os planos para parar o avanço austríaco, com o major Kursula (Ljuba Tadić), da infantaria – um efusivo amigo de Kole –, a adivinhar que será pelas margens do rio Drina que se dará a entrada. As tropas são então movidas, com a artilharia de Kole a tentar proteger as tropas de Kursula que tentam tomar o Monte Cer. As baixas são enormes, com avanços e recuos, e com Veca a ressentir-se por Kole fazer tudo para o afastar do perigo. Por fim, Kole acede a colocar Veca na frente, e este morre a comandar os canhões, enquanto os sérvios vencem a batalha com o avanço da infantaria, que vê ainda Kursula morrer na última investida.

Filme de nítido intuito propagandístico, no sentido de criar uma unidade jugoslava contra tensões externas – fruto da política isolacionista de Tito dentro do bloco soviético –, “March on the Drina” é um filme simples, centrado no demonstrar das personalidades dos vários soldados – o sargento (Husein Čokić) que deixou a mulher para trás, o jogador (Zoran Radmilović) que parece levar tudo a brincar, mas talvez tenha uma história triste para contar, e, claro, o próprio Veca, que quer deixar a protecção familiar e mostrar-se merecedor aos olhos dos companheiros que o vêem como alguém que quando o perigo aperta desaparece.

O argumento é, por isso, simples, dominado por um conjunto de episódios que nos trazem – com bastante jovialidade – as diferentes personalidades, formas de estar, e de encarar a realidade que atravessam. Neles, conhecemos pessoas também simples, apegadas à terra; tradições locais e familiares, que apenas querem defender o que é seu, temerosos do mal que o invasor possa trazer.

Filmado com o auxílio do exército jugoslavo, o filme de Zika Mitrović tem o seu momento mais importante na ilustração da Batalha de Cer, revelando-se então como uma peça de grande rigor e elaborada reconstituição, em longas cenas de batalha, fazendo uso de um enorme número de figurantes, que por entre explosões, movimentos de tropas e logística de canhões, nos vai mostrando as condições da guerra de então, e o que custava o avanço ou recuo, decidido em tempo real, por vezes sem grandes dados que não fossem o moral das tropas, exultação ou pânico geral. O resultado é uma mensagem bem conseguida, ao gosto do filme popular de então, mas nem por isso menos precisa ou pertinente.

Dada a ambiguidade de vários personagens, e o tema difícil que tratava – no sempre difícil equilíbrio de sensibilidades dentro da antiga Jugoslávia – “March on the Drina” sofreu de alguns problemas de afirmação aquando da sua estreia, tendo vindo, com o tempo, a ganhar o seu lugar de clássico no seu país de origem, até por ser aí um dos raros filmes a retratar a Primeira Guerra Mundial.

Ljuba Tadić e Aleksandar Gavrić em "March on the Drina" (Mars na Drinu, 1964), de Zivorad 'Zika' Mitrović

Produção:

Título original: Mars na Drinu; Produção: Avala Film; País: Jugoslávia; Ano: 1964; Duração: 100 minutos; Estreia: 17 de Julho de 1964 (Jugoslávia).

Equipa técnica:

Realização: Zivorad ‘Zika’ Mitrović; Argumento: Arsen Diklic, Zivorad ‘Zika’ Mitrović; Música: Vasilije Mokranjac; Fotografia: Milorad Marković; Montagem: Katarina Stojanović; Design de Produção: Miomir Denić; Figurinos: Danka Pavlović; Caracterização: Milica Simoncević; Direcção de Produção: Djordje Marinković.

Elenco:

Aleksandar Gavrić (Capitão Kosta ‘Kole’ Hadživuković), Ljuba Tadić (Major Kursula), Nikola Jovanović (Segundo Tenente Veselin ‘Veca’ Hadzi Hadživuković), Vladimir Popović (Primeiro Tenente Miloje), Husein Čokić (Sargento), Branko Pleša (Coronel Zdravko Lukic), Dragomir Bojanić-Gidra (Cabo Janićije), Strahinja Petrovic (Tio Laza), Božidar Drnić (Trifun Hadživuković, Pai de Veca), Zoran Radmilović (Bogi Petrović, O Jogador), Branislav ‘Ciga’ Jerinić (Aleksa), Ljubiša Jovanović (General Stepa Stepanović), Bogdan Mihajlovic, Peter Prlicko (Chef Trajko), Ljubica Sokić.

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