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House of Flying Daggers No ano de 859, o império governado pela dinastia Tang está em declínio, e grupos rebeldes como a Casa dos Punhais Voadores, surgem como ameaça, roubando aos senhores corruptos para distribuir pela população. Sabendo que uma agente deste grupo, a dançarina cega Xiao Mei (Zhang Ziyi), trabalha num bordel local, a polícia, pelas mãos do chefe Leo (Andy Lau) engendra um plano, usar um dos seus homens, Jin (Takeshi Kaneshiro), para provocar uma confusão, que leva à sua prisão e de Xiao Mei, para que Jin finja uma fuga em que salve a dançarina, e assim esta o leve ao esconderijo do grupo rebelde. O que Leo não prevê é que Jin e Mei se apaixonem.

Análise:

Depois do sucesso obtido com o seu drama histórico de artes marciais “Herói” (Ying xiong, 2002), Zhang Yimou não perdeu tempo, e voltou a filmar uma história passada muitos séculos atrás, agora com uma co-produção mais alargada entre entidades chinesas e de Hong Kong, para um épico monumental, onde Zhang Ziyi, secundária em “Herói”, e que o realizador lançara em O Caminho para Casa (Wo de fu qin mu qin, 1999) brilharia como protagonista

A história de “O Segredo dos Punhais Voadores” decorre no ano de 859, durante a dinastia Tang, num período de decadência do império, quando a corrupção aumenta, e vão surgindo grupos rebeldes que se opõem ao governo central. Um desses grupos é a Casa dos Punhais Voadores, que a recente morte do líder terá enfraquecido. Aproveitando uma oportunidade, a polícia imperial coloca em marcha um plano. O chefe Leo (Andy Lau) combina com Jin (Takeshi Kaneshiro) entrar, disfarçado, no bordel da cidade, onde este irá provocar o caos, embebedando-se e atacando a dançarina cega Xiao Mei (Zhang Ziyi), que se suspeita pertencer ao grupo rebelde. Segue-se a prisão fingida de Jin, e Leo expõe-se para provocar o ataque de Xiao Mei, que ele de seguida prende. Como combinado, Jin finge assaltar a prisão e leva Xiao Mei consigo, na esperança de que esta o guie ao covil da Casa dos Punhais Voadores. Para o plano ser mais convincente, Leo envia soldados que o par fugitivo vai vencendo em lutas fingidas por Jin. Só que, no processo, Jin e Xiao Mei apaixonam-se, para desgosto de Leo, que os espera no esconderijo da Casa dos Punhais Voadores. É que ele é membro secreto do grupo, e antigo amante de Xiao Mei, e todo o plano serviu para arrastar as tropas imperiais para uma armadilha. Magoado, Leo tenta violar Xiao Mei, mas é ferido nas costas pela líder Yee (Song Dandan), que o envia embora, e encarrega Xiao Mei de matar Jin. Esta liberta Jin, mas diz que não pode fugir com ele. Arrependendo-se mais tarde, Xiao Mei tenta juntar-se a Jin, mas é interceptada por Leo, que a fere mortalmente com um punhal no peito. Ao mesmo tempo chega Jin, e a luta com Leo dura imenso tempo, sem que um se superiorize. Por fim resta apenas o punhal que Leo tem ainda espetado nas costas, mas Xiao Mei ameaça matar Leo com o punhal que tem no peito, morrendo pela hemorragia. Jin pede-lhe que não o faça, e Leo, percebendo o amor que une os dois, simula atirar o punhal, para que Xiao Mei o mate. Só que esta prefere usar o punhal para interceptar o punhal que Leo não lançou, e deste modo nenhum dos homens morre, vendo morrer aquela que ambos amam.

Há duas coisas que marcam indelevelmente “O Segredo dos Punhais Voadores”: a fenomenal fotografia e a presença hipnótica de Zhang Ziyi. A primeira, que teve processamento digital, e pós-produção em diferentes laboratórios, serve, claro, para «iluminar» a cenografia e paisagens que são comuns nos filmes wuxia deste período. Isto é, paisagens deslumbrantes (muitas filmadas nos Cárpatos da Ucrânia), de um garrido irreal, e cenários interiores cheios de cor (a qual é também personagem), espaços originais, e guarda-roupas impressionantes que apontam sempre para a tradição chinesa no sentido de uma antiguidade de contos de fadas. Quanto à segunda, o filme constitui uma espécie de confirmação de uma grande actriz, que já chamara a atenção no célebre “O Tigre E o Dragão” (Wo hu cang long, 2000), de Ang Lee. Aqui, numa graciosidade incomum, vemo-la dançar – Zhang Ziyi foi inicialmente bailarina – lutar, e fazer-nos reter a respiração com as expressões subtis nas quais tentamos adivinhar se a sua Xiao Mei é mesmo invisual, e o que moverá na verdade a rapariga. Embora reduzido, o elenco é notável, com uma química completa entre a enigmática Mei e o jovial e semi-irresponsável Jin (interpretado por um actor japonês), o qual é contrabalançado pelo austero e amargurado Leo.

Como habitual nestes filmes, a história é um drama de qualidade shakespeariana, com espaço para fulgurantes sequências de acção – nos habituais bailados e movimentos irreais, como se toda a acção fosse um sonho, ou uma lenda – e muito suspense, graças a um enredo inteligente, misto de história de espionagem e drama passional. Mas, por mais que o aspecto visual nos extasie – e bastará a sequência da luta na floresta de bambus, ou a sequência final em que parecemos percorrer várias estações numa só luta, para que esse efeito nos tolha –, são as dinâmicas humanas que conduzem o filme e a nossa emoção.

E isso é dizer a história de amor entre os protagonistas, num triângulo surpreendente e arrebatador. Obviamente que, da forma como a história nos chega, é a aresta Jin-Mei que nos toca, ainda que compreendamos o drama de Leo, que deu três anos à causa, para, em paga, perder aquela que sempre amou. O desfecho, visualmente impressionante, é também ele tenso e eficaz com um dos mais importantes (e inesperados) truelos da história do cinema, a par da sequência final de “O Bom, o Mau e o Vilão (Il buono, il brutto, il cativo, 1966), de Sergio Leone. No final o amor triunfa como salvador, os homens compreendem o seu papel, mas nem por isso a tragédia é menos dolorosa para todos. Shakespeare teria, sem dúvida, gostado. Note-se que, perante a tensão do dito truelo somos postos completamente à margem da história principal (as armadilhas em torno da Casa dos Punhais Voadores), da qual não voltamos a saber mais nada.

Como acontecera com o seu filme anterior, Zhang Yimou teve em “O Segredo dos Punhais Voadores” outro sucesso internacional, tendo estrado em Cannes, e recebido uma nomeação aos Oscars (Melhor Fotografia), tendo ganho inúmeros prémios internacionais e muitas mais nomeações.

Zhang Ziyi em "O Segredo dos Punhais Voadores" (Shí Miàn Mái Fú, 2004), de Zhang Yimou

Produção:

Título original: Shí Miàn Mái Fú/十面埋伏 [Título inglês: House of Flying Daggers]; Produção: Elite Group Enterprises / Edko Films / Zhang Yimou Studio / Beijing New Picture Film Co. / China Film Co-Production Corporation; Produtor Executivo: Zhang Weiping; País: China / Hong Kong; Ano: 2004; Duração: 119 minutos; Distribuição: Edko Films (Hong Kong), Sony Pictures Classics (EUA), Focus Features (Internacional); Estreia: 19 de Maio de 2004 (Festival de Cannes, França), 15 de Julho de 2004 (Hong Kong), 10 de Março de 2005 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Zhang Yimou; Produção: William Kong, Zhang Yimou; Produtor Associado: Zhang Zhenyan; Argumento: Li Feng, Zhang Yimou, Wang Bin; Música: Shigeru Umebayashi, Kathleen Battle (canção “Lovers”); Orquestração: Sachiko Miyano; Fotografia: Zhao Xiaoding [fotografia digital]; Montagem: Cheng Long; Design de Produção: Huo Tingxiao; Direcção Artística: Han Zhong; Figurinos: Emi Wada; Caracterização: Kwan Lee-Na, Yang Xiaohai; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: Angie Lam (Animal Logic Film); Encenação de Cenas de Acção: Tony Ching Siu-Tung; Coreografia: Zhang Jianmin.

Elenco:

Takeshi Kaneshiro (Jin), Andy Lau (Leo), Zhang Ziyi (Xiao Mei), Song Dandan (Yee), Zhao Hongfei, Guo Jun, Zhang Shu, Wang Jiusheng, Zhang Zhengyong, Wang Yongxin, Liu Dong, Zi Qi, Qu Xuedong, Tian Liping, Zhao Hongwei, Huang Weina, Ge Dan, Yang Xiadong, Shang Yisha, Liu Ying, Huang Jingwen, Zhang Kejia, Luo Tianyou, Zhu Lin, Hu Jiwei, Hong Yu, Hao Bojie, Zhu Jiajun, Xu Ge, Chou Jingxiu, Guo Cuifang, Li Chengyuan, Zhang Shuo, Zhang Jidong, Li Qiang, Fu Yang, Yang Guang, Wen Yang, Chen Liang, Lin Xiuqiang, Wang Kun, Li Meng, Dong Ming, Zheng Xiaodong, Song Chacha, Wang Xuanyi, Huang Xueying.

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