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Bremer Freiheit Geesche (Margit Carstensen), é uma mulher casada, e com duas filhas, vivendo uma vida de submissão perante um marido tirânico (Ulli Lommel), que a humilha como sua escrava. Cansada, Geesche envenena-o, o que leva à questão de quem deve gerir os seus negócios. Geesche escolhe o amigo Gottfried (Wolfgang Schenck), por quem ela está apaixonada. Mas cedo, este passa de amigo e amante a mais um tirano, que a abandona grávida, por querer uma família sua. A Geesche não resta mais que envenenar Gottfried, não ficando depois por aí, ao ver que todos, quer familiares, que amigos a repreendem e tentam controlar.

Análise:

A partir de casos reais, acontecidos em Bremen por volta de 1830, no quais, uma mulher chamada Geesche Gottfried terá assassinado 15 pessoas, sendo depois decapitada naquela que foi a última execução pública de Bremen, Rainer Werner Fassbinder escreveu uma peça de teatro posteriormente adaptada pelo próprio e por Dietrich Lohmann para uma produção da televisão alemã. O resultado foi um filme de baixo custo, filmado em apenas nove dias, com um cenário único de um palco semi-nu (apenas com algumas escassas peças de mobiliário, onde o fundo era uma tela com imagens do mar.

Na sua versão dos crimes de 1830, Fassbinder conta a história de Geesche (Margit Carstensen), uma mulher oprimida por um marido tirânico (Ulli Lommel), que faz dela uma escrava submissa, humilhando-a em frente dos amigos, não se coibindo de falar das suas escapadelas sexuais à frente dela. Quando o marido morre, misteriosamente, Geesche consegue convencer todos a deixar os negócios da família nas mãos do amigo Gottfried (Wolfgang Schenck), por quem ela está apaixonada. Mas este, ao fim de um tempo começa a cansar-se dela, querendo sair de casa e ter uma família sua. Geesche mata, primeiro a mãe (Lilo Pempeit), que a acusa de viver em pecado, depois as suas filhas, para o amante ficar. Mas quando Gottfried decide sair, ela envenena-o, a tempo de ele aceitar casar, para que o filho que ela transporta no ventre, tenha um pai. Geesche resiste à vontade do pai (Wolfgang Kieling) de voltar a casá-la, com o seu familiar Bohm (Rudolf Waldemar Brem), acabando por envenenar o pai, para tomar o amigo Zimmermann (Kurt Raab) como novo amante, mas este quer apenas resgatar dinheiro emprestado, e Geesche envenena-o também. Chega então o irmão Johann (Fritz Schediwy), ferido na guerra. Quando este releva que quer tomar as rédeas da família, Geesche envenena-o também. Por fim chega a amiga Luisa Mauer (Hanna Schygulla), que Geesche envenena por simples ciúme do sucesso que aquela tem junto dos homens. Nessa altura o amigo Rumpf (Rainer Werner Fassbinder) revela-lhe que já se acumulam provas dos seus envenenamentos, e Geesche decide que é tempo de ser ela a morrer.

Quando, aparentemente, temos um drama doméstico, centrado na vida de uma esposa – posteriormente viúva –, nunca levada a sério pelos homens, e que tem que lutar para ser considerada nos destinos da sua vida e condução dos negócios de família, Fassbinder escolhe como ilustração dessa ideia e busca de liberdade – a liberdade nominal que dá nome à obra –, uma história de uma assassina em série, o que transforma a trama numa sucessão de assassinatos. Não espanta a abordagem, pois olhando para a filmografia recente do autor, mulheres dominadoras e cruéis começavam a fazer parte da sua obra como são exemplo a esposa de “O Mercador das Quatro Estações” (Händler der vier Jahreszeiten, 1972), ou a amante Karin de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” (Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972). Mas agora, na sua habitual forma de subverter conceitos, a luta por emancipação, na denúncia de um duplo padrão em que todos – pai, mãe, maridos, irmão, amantes – viam a mulher como ser menor, submisso, incapaz, Fassbinder usa uma história de assassinatos vingativos para marcar uma posição.

Numa lógica teatral em que as cenas se sucedem intercaladas por planos escuros, onde por vezes Margrit canta umas linhas de uma canção, Fassbinder filma de um modo fortemente estilizado e minimalista – note-se logo o início, onde vemos apenas metade do rosto de Ulli Lommel, dando ordens, respondidas pelo caminhar apressado de Geesche, da qual vemos só os pés em correrias patéticas –, Fassbinder dá-nos como cenário apenas um palco nu, com álbuns móveis soltos, e sem cenário, sobre o qual se projecta uma imagem em fundo – e geralmente tingida – de mar ou imagens portuárias. Com choros ensurdecedores de crianças como banda sonora, e sem preocupações de comportamentos realistas, movem-se as personagens, com a tensão criada pelos enquadramentos, e close-ups, geralmente no rosto de Margit Carstensen, a qual desempenha a sua Geesche como se uma alegria distante a controlasse e a afastasse dos verdadeiros dramas que a afligem, destacando-se o momento em que se confessa ao Pastor (Walter Sedlmayr), no qual o seu rosto enche completamente a projecção de fundo do palco.

Nesse cenário e contexto, as personagens entram e saiem de cena, adicionando eventos – e motivos – que levam a subsequentes mortes por Geesche, que apenas quer ser livre e emancipada do paternalismo castrante em que viveu toda a vida. As mortes – sempre por envenenamento por café ou chá – são simbolizadas pelo atirar da chávena ao chão (note-se como Bohm, o único que reconhece a superioridade feminina, é o único de deixa a chávena nas mãos de Geesche, saindo por isso incólume). O que fica são argumentos machistas: o primeiro marido humilhante; o segundo marido oportunista; a mãe que vê a filha como blasfema e prostituta; o pai que a considera objecto; o irmão que a menospreza por ser mulher; etc. num filme que é, por isso, uma forte denúncia da misoginia da parte da sociedade (quer a alemã de 1830, quer as contemporâneas). A intensidade marca todo o filme, numa estranheza absurda e surreal, mas nem por isso menos eficaz ou dramática.

Margit Carstensen em "Bremen Freedom" (Bremer Freiheit: Frau Geesche Gottfried - Ein bürgerliches Trauerspiel, 1972), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Bremer Freiheit: Frau Geesche Gottfried – Ein bürgerliches Trauerspiel; Produção: Saarländischer Rundfunk (SR) / Telefilm Saar GmbH; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1972; Duração: 87 minutos; Estreia: 12 de Dezembro de 1972 (RFA), 21 de Janeiro de 1981 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Karlhans Reuss; Argumento: Rainer Werner Fassbinder, Dietrich Lohmann [a partir da peça homónima de Rainer Werner Fassbinder]; Fotografia: Dietrich Lohmann, Hans Schugg, Pit Weyrich [como Peter Weyrich] [filmado em vídeo]; Montagem: Monika Solzbacher, Friedrich Niquet; Design de Produção: Kurt Raab; Caracterização: Alois Woppmann, Elke Naujoks; Direcção de Produção: Siegbert Kohl.

Elenco:

Margit Carstensen (Geesche Gottfried), Wolfgang Schenck (Gottfried), Wolfgang Kieling (Timm, Pai de Geesche), Lilo Pempeit (Mãe de Geesche), Ulli Lommel (Miltenberger), Hanna Schygulla (Luisa Mauer), Kurt Raab (Zimmermann), Rainer Werner Fassbinder (Rumpf) [não creditado], Fritz Schediwy (Johann, Irmão de Geesche), Rudolf Waldemar Brem (Bohm), Walter Sedlmayr (Pastor Markus).

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