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HeroNo final do século III a.C. a China vive um período de guerras internas, do qual emergirá como vitorioso o rei de Qin, no seu objectivo de unificar a nação e terminar para sempre com as guerras. Dada a sua reputação de ambicioso e sanguinário, ao longo do seu reinado foram feitas várias tentativas de o assassinar, e o filme inicia-se quando um soldado conhecido por Sem Nome (Jet Li), vem ao palácio para ser homenageado pelo rei (Chen Daoming), por ter morto os mais perigosos inimigos do rei, Céu (Donnie Yen), Espada Quebrada (Tony Leung Chiu-Wai) e Neve Flutuante (Maggie Cheung Man-Yuk). Mas desconfiado que tal soldado não pudesse matar os três formidáveis inimigos, o rei interroga-o desvendando uma história bem mais complexa.

Análise:

A história das tentativas de assassinado do rei de Qin, na China de 227 a.C., numa altura em que este se preparava para tentar unificar o país, tem sido um dos momentos que mais dramas históricos chineses de artes marciais tem inspirado. E se em 1998, Chen Kaige nos dera “O Imperador e o Assassino” (Jing Ke ci Qin Wang/荊軻刺秦王), não passou muito até Zhang Yimou nos contar mais uma história desses tempos, no seu filme de época “Herói”, uma produção com o aval do estado chinês, e que estreou em Hong Kong, para se tornar um sucesso internacional.

“Herói” conta-nos a história de um funcionário do governo local do rei de Qin (Chen Daoming), que se sabe ter morto os três mais temidos assassinos que há vários anos procuravam matar o rei. Por esse feito, Sem Nome (Jet Li) – assim se chama esse herói – é chamado a audiência com o rei, onde o feito lhe permite sentar-se no palácio a dez passos do monarca. Inquirido sobre como conseguiu matar três adversários temíveis, Sem Nome conta que desafiou Céu (Donnie Yen) e o matou em duelo aproveitando um momento de distracção. Depois dirigiu-se à escola onde Espada Quebrada (Tony Leung Chiu-Wai) e Neve Voadora (Maggie Cheung Man-Yuk) – outrora um casal, mas agora desavindos, por ela o ter traído com Céu – praticavam caligrafia, para que Espada Quebrada lhe desenhe o símbolo de esgrima. Aí, aproveitando o conflito, Sem Nome esperou que Neve Voadora matasse Espada Quebrada por ciúmes da aprendiz deste, Lua (Zhang Ziyi), que seria também morta, lutando, já em conflito emocional com Sem Nome, que a matou perante o exército de Qin.

Ouvida a história, o rei nega-a e diz que tudo não passou de um embuste, em conluio com os três assassinos, para dar a Sem Nome a hipótese de chegar a dez passos dele, e fazer o que eles no passado não conseguiram. Assim o rei conta como o duelo entre Sem Nome e Céu foi encenado, e Céu se sacrificou para os soldados verem. De seguida Sem Nome procurou o casal Espada Quebrada e Neve Voadora, os quais continuavam juntos, pois não estava na sua natureza traírem-se, convencendo-os da sua missão, mostrando como pode matar qualquer alvo a dez passos. Neve Voadora feriu Espada Quebrada para ser ela a sacrificar-se, e Sem Nome matou-a à frente dos soldados, recebendo depois a espada de Espada Quebrada.

Ouvida a versão do rei, Sem Nome, confessa que não fora sincero, e conta agora a verdadeira história, na qual ele procura Espada Quebrada e Neve Voadora mostrando-lhes uma precisão cirúrgica com a espada que permite ferir profundamente qualquer adversário, sem o matar, contando-lhes que Céu, recupera sem problemas, embora todos o julguem morto. Mas ao explicar o seu plano de fingir matar um deles em público, Espada Quebrada nega-se, dizendo não querer a morte do rei, e ter sido por ele que a tentativa anterior falhou. Sentindo-se traída, Neve Voadora ataca e fere o amante, e completa o plano de Sem Nome, que finge matá-la, perante os soldados. Antes de viajar para a capital, Sem Nome é procurado por Espada Quebrada, que lhe escreve três palavras, e explica porque decidiu não matar o rei. Sem Nome conta ao rei que as palavras eram «Tudo sob o céu» explicando que Espada Quebrada acreditava que só o rei podia unir a nação, acabando com o sofrimento de séculos de caos, guerras e sofrimento.

Comovido ao ver que o seu maior inimigo fora o único a compreendê-lo, o rei dá a sua espada a Sem Nome, ao mesmo tempo que interpreta a palavra esgrima que este trouxera pela caligrafia de Espada Quebrada, como sendo o desígnio máximo do espadachim não precisar mais de matar. Sem Nome faz o seu movimento para o rei, mas não o mata, por também ele acreditar no que Espada quebrada acreditou. Quando a notícia chega a Neve Voadora, esta acusa o amante de traição, e ataca-o. Para provar a força da sua crença, ele não se defende, e é morto sem que Neve Voadora tencionasse. Esta compreende então, e mata-se abraçando-se a ele na mesma espada, para desespero da aprendiz Lua, que chega tarde. Na capital, perante a pressão da corte, o rei tem de matar Sem Nome, pela tentativa de assassinato, dando-lhe um funeral com honras de herói.

Drama de época de execução impressionante, no estilo operático habitual nestes filmes, “Herói” espanta tanto pela forma como pelo conteúdo. Do lado da primeira destaca-se a fotografia, o guarda-roupa e recriação de uma época, mas principalmente a cenografia (quer os salões enormes onde o espaço vazio realça a força dos seus contornos, quer as paisagens a céu aberto, onde a natureza funciona como uma força irresistível), e o uso da cor, com o tingir de certos momentos de maior dramatismo (vermelho quando um personagem morre, azul na frieza do palácio, o preto e branco na sequência do combate imaginado, e que de um modo mais geral distingue momentos narrativos). Temos depois o modo estilizado dos movimentos, e ceremonialismos sempre presentes (no palácio, na escola de caligrafia, na biblioteca), quer na definição dos personagens quer nas sequências de acção, com os voos impossíveis das artes marciais do cinema, as lutas coreografadas de movimentos sempre originais a velocidade estonteante, em momentos de antologia como o são o uso dos pingos de água ou do vento nas folhas das árvores como armas de combate, definindo a acção e a estética das sequências.

Mas nada disto ofusca o conteúdo, que pode aqui ou ali ser elusivo a um ocidental, por exemplo os paralelos entre a musicalidade e o combate (com parte deste a dar-se na imaginação dos oponentes que se enfrentam como num jogo mental de xadrez), ou nas relações entre o espadachim e a caligrafia, que permite 19 formas de escrever a palavra espada, e cuja vigésima terá o efeito filosófico de transformar vontades.

E essa vontade e sua transformação é-nos trazida de um modo dramático pela própria forma narrativa escolhida, senão vejamos. Temos uma narrativa em flashback, dividida em três partes – três versões distintas, cada uma anulando as anteriores – como uma construção, ao fim de cada qual temos de apagar completamente a anterior (como o personagem Lua vai apagando os desenhos na areia feitos pelo seu mestre Espada Quebrada), embora com ela tivéssemos ficado a conhecer melhor as personagens. Esta construção por camadas lembra-nos o carácter mitológico da história, onde cada versão pode ser apenas mais uma, sem nunca sabermos qual a realidade, se é que ela existe.

Mas aceitando a continuidade dos factos, e nunca deixando de nos maravilhar com a forma como essa forma narrativa nos surpreende até ao fim, o que fica é a tal mudança de atitude, sugerida primeiro por Espada Quebrada, e assumida no final por Sem Nome, na qual o mais importante é aceitar um rei que, por mais que tenha fama de ambicioso e violento, é apenas uma ferramenta no caminho para a paz duradoura. Curioso é que, para fazer a ponte para a tal ocidentalidade tão ausente, Zhang Yimou tenha escolhido terminar o filme com palavras de Maquiavel, as quais reforçam que quando é o bem maior que está em jogo, as atitudes más de alguns são justificáveis, ideia que – concorde-se ou não com ela – pode ser aplicada a inúmeros momentos da história humana, incluindo a China no momento do filme.

Estreado primeiro em Hong Kong, e depois um pouco por todo o lado, “Herói” foi um tremendo sucesso, quer na China, quer no estrangeiro. Elogiado pelo seu lado visual, pelo dramatismo e forma narrativa, tanto quanto pelas inferências sobre relações entre política e cultura nas transformações globalizantes dos nossos tempos, o filme foi nomeado como Melhor Filme de Língua Estrangeira nos Globos de Ouro, Festival de Berlim, Oscars da Academia e BAFTA, tendo Zhang Yimou ganho o prémio de melhor realizador em Berlim, afirmando-se como figura de proa da chamada Quinta Geração do cinema chinês.

Jet Li em "Herói" (Ying xiong, 2002), de Zhang Yimou

Produção:

Título original: Ying xiong/英雄 [Título inglês: Hero]; Produção: Beijing New Picture Film Co. / China Film Co-Production Corporation / Elite Group Enterprises / Sil-Metropole Organisation / Zhang Yimou Studio; Produtores Executivos: Shoufang Dou, Weiping Zhang; País: China / Hong Kong; Ano: 2002; Duração: 97 minutos; Distribuição: Edko Films (Hong Kong), Beijing New Picture Film Co. (China), Miramax Films (EUA); Estreia: 24 de Outubro de 2002 (China), 26 de Setembro de 2003 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Zhang Yimou; Produção: Zhang Yimou, William Kong, Sook Yhun (versão inglesa); Produtor Associado: Zhang Zhenyan; Argumento: Feng Li, Yimou Zhang, Bin Wang; Música: Dun Tan; Fotografia: Christopher Doyle [preto e branco e cores]; Montagem: Angie Lam, Ru Zhai, Vincent Lee (secção de socumentário); Design de Produção: Tingxiao Huo, Zhenzhou Yi; Direcção Artística: Qin Hong Bo, Zhong Han, Liu Yong Qi; Figurinos: Emi Wada; Caracterização: Lee-Na Kwan; Efeitos Visuais: Andy Brown (Animal Logic) , Richard Schlein (Tweak Films), Michele Gray (Tweak Films), Luke O’Byrne (The Orphanage); Direcção de Sequências de Acção: Cai Li, Wei Tung, Jack Wai-Leung Wong; Direcção de Produção: Zhang Zhenyan.

Elenco:

Jet Li (Sem Nome), Tony Leung Chiu-Wai (Espada Quebrada), Maggie Cheung Man-Yuk (Neve Voadora), Zhang Ziyi (Lua), Chen Daoming (Rei), Donnie Yen (Céu), Zhongyuan Liu (Mestre), Zheng Tianyong (Velho Servo), Yan Qin (Primeiro-ministro), Chang Xiao Yang (General), Zhang Yakun (Comandante), Ma Wen Hua (Eunuco Chefe), Jin Ming (Eunuco), Xu Kuang Hua (Pianista), Shou Xin Wang (Músico), Heizi (Um do Sete Guardas Qin), Hua Cao (Um do Sete Guardas Qin), Li Lei (Um do Sete Guardas Qin), Xia Bin (Um do Sete Guardas Qin), Peng Qiang (Um do Sete Guardas Qin), Jie Liu (Um do Sete Guardas Qin), Zhang Yi (Um do Sete Guardas Qin).

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