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King & Country O soldado britânico Arthur James Hamp (Tom Courtenay), acusado de tentar desertar, durante um combate em França, na Primeira Guerra Mundial, encontra-se preso à espera de julgamento, sem compreender a gravidade da situação. Destacado para o defender é o capitão (Dirk Bogarde), a princípio cínico quanto a casos destes, mas que depois se compadece, ao ver que Hamp não tem noção da gravidade dos seus actos e não terá agido de má fé. Resta tentar convencer o tribunal militar, o qual tem que dar exemplos e tratar cada caso, e cada pessoa como peças de uma engrenagem que não pode falhar e tem de funcionar ordeiramente.

Análise:

Com base no livro “Return to the Wood”, escrito por James Lansdale Hodson, publicado em 1955, e na peça de teatro “Hamp” (1964), da autoria de John Wilson, o realizador e homen do teatro norte-americano Joseph Losey – então já no seu período inglês, após entrar na lista negra do Macartismo – realizou “King & Country”, com a Primeira Guerra Mundial como cenário de uma história de deserção e tudo aquilo que poderá ter estado na sua origem.

Essa é a história do soldado Arthur James Hamp (Tom Courtenay), aprisionado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial por, alegadamente, ter tentado desertar. Olhado por todos com desprezo, Hamp terá como defensor o capitão Hargreaves (Dirk Bogarde), o qual, inicialmente vê a tarefa com descontentamento por nada mais haver no fim destes casos que um pelotão de fuzilamento. Mas ao conhecer Hamp, Hargreaves compadece-se, pois o soldado parece-lhe ingénuo e genuíno, seguramente sem toda a razoabilidade, em virtude dos traumas que viveu, após uma folha de serviço que o mostrava corajoso. Por isso Hargreaves monta a defesa em torno da ideia de que Hamp terá perdido momentaneamente a razão, e se terá afastado da frente de batalha mais por um instinto impensado que por uma vontade de desertar. Do outro lado o médico que o viu, o capitão O’Sullivan (Leo McKern), confessando não ter tempo nem condições para analisar psicologicamente os soldados um por um, é intransigente na ideia de que Hamp apenas teve vontade de fugir. O resultado é o tão esperado fuzilamento.

Joseph Losey era um homem com profundas ligações ao teatro, tendo estudado na Alemanha sob orientação de Bertold Brecht, e com várias experiências de palco na sua terra natal, antes de começar a trilhar o seu percurso no cinema. Tal como viera a fazer várias vezes (nomeadamente adaptando por três vezes Harold Pinter ao cinema), Losey usou a base teatral para o argumento de “King & Country”, construindo um filme que, pese o seu cenário de trincheiras e contexto de proximidade da frente de guerra, é de facto um drama de câmara, com o seu cerne a definir-se nos diálogos e situações de interrogatório.

Com cenários fechados (a cela de Hamp, o tribunal militar), e de enorme claustrofobia – exacerbada pelas condições precárias, a constante chuva, a lama e a sujidade que levava, por exemplo, ao aparecimento de ratazanas –, “King & Country” transcende tudo isso para se centrar naquilo que mais lhe interessa, o julgamento (e podemos com isso dizer: estudo ou caracterização) de um homem e do seu comportamento num momento de fraqueza.

Iniciando-se com um longo plano do monumento do Royal Regiment of Artillery aos mortos da Primeira Guerra Mundial, em Londres, e onde se lê a inscrição tirada de Shakespeare «Here was a royal fellowship of death» (Aqui houve uma real irmandade de morte), “King & Country” é marcado por longos planos-sequência em espaços fechados, close-ups de personagens que se aproximam e afastam da câmara, num registo que lembra o noir, e uma constante coreografia de movimentos (de actores e de câmara), que tornam cada espaço exíguo um universo muito próprio, “King & Country” prende o espectador como se fosse um contínuo diálogo (por vezes com passagens sublinhadas por planos de fotos de arquivo do Imperial War Museum), onde nem os breves momentos de descontracção, que nos mostram alguns soldados no exterior em actividades fúteis, nos distraem do que realmente importa.

E isso é, obviamente, o julgamento do soldado Hamp, que vemos desde o início, numa cela, falando do seu infortúnio, e que só aos poucos vamos construindo, até nos ser claro que está preso por deserção. Defendido por alguém que preferia que ele fosse logo «abatido como um animal cuja espinha tivesse sido quebrada», Hamp vai ter na tenacidade do capitão Hargreaves a única esperança que o salve de um fim que o próprio réu não prevê. É que Hamp, longe ou não da realidade, ainda parece achar que tudo não é mais que uma brincadeira a precisar de um correctivo, e mais nada. Esse alheamento da realidade, aliado a uma quase inocência desarmante, faz-nos simpatizar com ele, e acreditar quando Hargreaves defende que o réu nunca planeou desertar, porque, de facto, não estava sequer em condições de fazer planos. Como o defensor alega, Hamp apenas quis afastar-se momentaneamente da guerra, para evitar o clamor dos tiros e explosões, o que fez por instinto e sem ulteriores motivos. O que passa a estar em causa – para a defesa, pelo menos – é que algumas situações perturbam tanto uma pessoa que ela age sem pensar, sem planear, sem trair. Apenas age, instintivamente, sem o perceber.

Só que, do outro lado está um status quo que precisa de dar o exemplo, e mais que isso, precisa de sentir que controla as suas decisões e as vontades dos homens que dirige, e dos quais não aceita mais que disciplina cega. A esse status quo alia-se o testemunho médico, de alguém (Leo McKern) que confessa não ter tempo para diagnósticos cuidados, e que tem de tratar todos – com laxativos – como casos iguais, de quem precisa apenas de vencer os nervos e voltar para o campo de batalha.

É, mais uma vez – como já víramos em “Horizontes de Glória” (Paths of Glory, 1957), de Stanley Kubrick – a luta do homem contra a máquina, da sensibilidade individual contra o sistema triturador que olha para cada pessoa como uma peça de uma engrenagem desumana, que não pode falhar, custe o que custar. Era, afinal, a luta do próprio Joseph Losey, sempre ignorado por um sistema no qual ele continuava uma voz incómoda. Por esse motivo, “King & Country” nunca deixaria o estatuto de filme de culto, de um realizador com muito ainda a ser descoberto e valorizado.

Dirk Bogarde e Tom Courtenay em "King & Country" (1964), de Joseph Losey

Produção:

Título original: King & Country; Produção: B.H.E. Productions / Landau/Unger [não creditada]; Produtor Executivo: Daniel M. Angel; País: Reino Unido; Ano: 1964; Duração: 87 minutos; Distribuição: ; Estreia: 5 de Setembro de 1964 (Festival de Veneza, Itália), 23 de Setembro de 1964 (Londres, Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Joseph Losey; Produção: Joseph Losey, Norman Priggen; Produtor Associado: Richard B. Goodwin; Argumento: Evan Jones [a partir do livro “Return to the Wood” de James Lansdale Hodson, da peça “Hamp” de John Wilson e de um poema de A. E. Housman]; Música: Larry Adler; Fotografia: Denys N. Coop [preto e branco]; Montagem: Reginald Mills; Design de Produção: Richard Macdonald; Direcção Artística: Peter Mullins; Guarda-roupa: Roy Ponting; Caracterização: Bob Lawrance.

Elenco:

Dirk Bogarde (Capitão Hargreaves), Tom Courtenay (Soldado Arthur James Hamp), Leo McKern (Capitão O’Sullivan), Barry Foster (Tenente Webb), Peter Copley (Coronel), James Villiers (Capitão Midgley), Jeremy Spenser (Soldado Sparrow), Barry Justice (Tenente Prescott), Vivian Matalon (Padre), Keith Buckley (Cabo da Guarda), James Hunter (Soldado Sykes), Jonah Seymour (Cabo Hamilton), Larry Taylor (Sergento Major), David Cook (Soldado Wilson), Richard Arthure (Guarda), Raymond Brody (Primeiro Soldado), Terry Palmer (Segundo Soldado), Dan Cornwall (Terceiro Soldado), Derek Partridge (Capitão no Tribunal Militar), Brian Tipping (Tenente no Tribunal Militar).

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