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Lawrence of ArabiaNo momento da sua morte e funeral em Londres, T. E. Lawrence (Peter O’Toole) é ainda uma figura controversa e desconhecida. Voltando atrás, vemo-lo no auge da sua vida, como militar, no Cairo, quando por influência do político Dryden (Claude Rains), Lawrence é enviado em busca do príncipe Feisal (Alec Guiness), para se aperceber dos movimentos das tropas árabes durante a Primeira Guerra Mundial, no momento em que os ingleses combatiam os turcos no Médio Oriente. Desobedecendo aos seus superiores, Lawrence começa a incitar Feisal a actuar, e oferece-se para liderar o ataque a Aqaba, atravessando o intransponível deserto de Nefud. Pelo caminho, mais que vencer o deserto ou os turcos, Lawrence tem de conquistar o respeito dos líderes tribais, como Sherif Ali (Omar Sharif) e Auda Abu Tayi (Anthony Quinn). Visto como um libertador entre os árabes, Lawrence continua um caminho que o coloca em conflito quer com as chefias inglesas quer com as árabes.

Análise:

Com uma reconhecida propensão para os filmes de grande fôlego, nomeadamente dramas históricos de grandes valores de produção e um classicismo inerente, o britânico David Lean cavalgava ainda o sucesso do recente “The Bridge on the River Kwai” (The Bridge The Bridge on the River Kwai, 1957), quando começou a preparar o seu filme seguinte, uma aventura no deserto sobre a vida do controverso T. E. Lawrence. Num momento em que o colonialismo terminava um pouco por todo o mundo, Lean, baseado nos escritos de Lawrence, questionava o papel do Império Britânico, na história do nascimento do nacionalismo árabe, no final da Primeira Guerra Mundial, usando um elenco de luxo, no qual despontava o muito jovem Peter O’Toole, até aí praticamente desconhecido.

Centrando-se completamente no personagem de Lawrence (O’Toole), o filme começa com a sua morte e reacções no funeral, como enquadramento, e de certo modo motivação, para a sua história. Esta leva-nos ao Cairo, em plena Primeira Guerra Mundial, quando Lawrence estagna em lugares administrativos, até lhe ser confiada a tarefa de encontrar o príncipe Feisal (Alec Guiness), para conhecer os seus planos na guerra contra os turcos. Depois de, no caminho ter um recontro pouco amistoso com Sherif Ali (Omar Sharif), da tribo dos haritas, e preferir continuar sem guia no deserto, Lawrence chega ao acampamento de Feisal. Enquanto as ordens britânicas são para que Feisal fuja para sul, Lawrence surpreende o príncipe aconselhando-o a tomar Aqaba, porto guardado pelos turcos, mas vulnerável por terra, a quem for louco para tentar atravessar o deserto de Nefud. Com 50 homens liderados por Ali, Lawrence consegue o feito, e conhece Auda Abu Tayi (Anthony Quinn), o belicoso líder dos howeitat, que persuade a juntar-se-lhe. Tomada Aqaba, Lawrence volta ao Cairo, convencendo o General Allenby (Jack Hawkins) a prosseguir para Jerusalém, enquanto ele liderará os árabes numa guerrilha sem tréguas contra os turcos. A passagem por uma prisão turca em Deraa, e os maus tratos recebidos abalam-no, e Lawrence regressa ao Cairo disposto a desistir, mas Allenby convence-o a voltar, para a tomada de Damasco. Lawrence recruta de tribos mais hostis e sedentas de sangue, participa em massacres e leva os árabes até Damasco, tomando-a antes da chegada britânica. Segue-se a pacificação e a difícil gestão da cidade, impossível por homens do deserto, sempre em disputa entre si. Os árabes deixam Damasco aos ingleses, enquanto Feisal e o governo britânico, representado pelo sinuoso Dryden (Claude Rains), negoceiam o futuro, sem terem necessidade de Lawrence por perto.

Não é novidade que “Lawrence da Arábia” foi, desde o momento da sua estreia, considerado um dos filmes mais emblemáticos da história do cinema. As razões são várias, e apontando elementos isolados podemos imediatamente enumerar: a grandeza da fotografia (num resultado cristalino no pouco usado formato Super Panavision 70), as paisagens arrebatadoras (com as sequências do deserto filmadas em Marrocos, na Jordânia, na Andaluzia e na Califórnia, numa altura em que não existia CGI), a grandiosa história (Lawrence como uma daquelas personagens maiores que a vida), o ritmo majestoso (resultando num filme de quase 4 horas), a música portentosa de Maurice Jarre (tocada pela London Philharmonic Orchestra, e que inclui quatro minutos de introdução com o ecrã a negro antes dos créditos iniciais e outros quatro minutos de intervalo por volta das duas horas e vinte).

Deixando de lado esses elementos, interessa olhar para os temas, e estes são tanto factuais – a união pan-árabe, o fim do colonialismo britânico, a superação das divisões internas na criação de uma nação –, como o são de um nível mais metafísico, quando relacionados com o homem-enigma que é Lawrence. Figura paradoxal, Lawrence é descrito como um aventureiro irresponsável, mas também como um sonhador. Testemunhando todos os eventos, ficamos sempre com a dúvida sobre o que o movia: um altruísmo que o levava a sacrificar-se em prol de uma causa que o transcendia? Ou um complexo de Deus que o fazia desafiar o razoável apenas por se julgar acima de tudo? Num episódio em que tem de executar um dos seus para evitar o nascimento de um feudo de sangue, fá-lo com pesar ou gáudio? E quando na subida para norte, deixa a sua guarda pessoal (composta de assassinos) divertir-se chacinando colunas de turcos feridos, fá-lo contrafeito para criar a tal unidade em torno de um inimigo comum, ou porque no seu íntimo também ele necessitava de lavar com sangue afrontas passadas (como a humilhação perante o seu captor turco – José Ferrer)? Talvez haja sempre um pouco de tudo isso em cada decisão e comportamento de Lawrence, o personagem que desafiou as ordens inglesas, e afrontou os propósitos árabes, para criar algo que nenhuma das duas partes acreditava ser possível. Mas se o fez em função dos outros ou por orgulho pessoal, é coisa que o filme não pretende responder. Vai antes deixando respostas em frases como «nada está nunca escrito, a não ser que nós o escrevamos», «não há nada que não se possa fazer», que destacam o seu carácter de quem desafia o destino.

Esse lado acaba por dar ao personagem de Lawrence um aspecto messiânico, alguém eleito por Deus por trazer a salvação (a união e ganhar de um orgulho árabe) que encontra paralelos até na história de Cristo. Temos a travessia do deserto, a angariação de discípulos, a humilhação às mãos do oficial de justiça na cidade que quer tomar (neste caso Deraa em vez de Jerusalém, e um Bei turco, em vez de Pilatos), e a ideia do sacrifício indesejado, aceite por fim, em benefício de um bem maior (sacrifício que é das suas posições morais – matar inocentes –, e dos ideais pelos quais luta – ao ceder o terreno aos políticos). Note-se como o próprio goza com isso, quando, em Deraa, caminha ostensivamente sobre uma poça de água, rindo-se para Ali, como se fosse Jesus caminhando sobre o Mar Morto; ou como invoca Moisés quando tem de atravessar o Sinai para voltar ao Cairo.

Com uma crítica clara ao paternalismo, prepotência e objectivos da política colonial britânica, mostrando os interesses britânicos como cínicos, e os ingleses como racistas, “Lawrence da Arábia” dá-nos uma interpretação controversa de T. E. Lawrence (idealista puro ou egocêntrico dissimulado?), que levou a que os seus descendentes não autorizassem que o livro “The Seven Pillars of Wisdom” (de Lawrence) fosse citado nos créditos, embora tivesse servido de base ao filme. Mas o que permaneceria para todos era a imagem de Peter O’Toole no seu ambíguo (mesmo sexualmente) personagem, que ninguém conseguiria mais imaginar interpretado por outro actor, e que foi o ponto de partida para uma carreira riquíssima. Os seus profundos olhos azuis, marcam o paradoxo do pretendente a árabe que nunca o será, enquanto o seu jeito ao mesmo tempo fraco e conflituoso mostram as lutas internas e a insegurança que ironicamente o movia para feitos cada vez maiores. Ao lado de um homem invulgar, a mensagem política surge-nos como fresca e sempre actual, onde idealismos acabam triturados pelo cinismo dos interesses, ou como diria Feisal «os jovens fazem a guerra, e as virtudes da guerra são as virtudes dos jovens: coragem e esperança no futuro. Depois os velhos fazem a paz, e os vícios da paz são os vícios dos velhos: desconfiança e precaução».

Com uma forma narrativa e estilo visual que seriam para sempre citados entre os mais influentes da história do cinema (veja-se por exemplo a influência sobre a saga “Star Wars” de George Lucas), uma realização perfeita e uma montagem de antologia – note-se o corte do soprar do fósforo para uma imagem do sol no deserto, um dos mais famosos cortes de sempre, ao nível da famosa elipse de milhões de anos no filme “2001: Odisseia no Espaço” (2001: A Space Odissey, 1968) de Stanley Kubrick – “Lawrence da Arábia” foi um sucesso imediato, tornando-se um dos mais amados filmes da história do cinema, citado por grande parte dos mais conhecidos realizadores. Como esperado, o filme arrasou nos prémios do seu ano, com oito aos Oscars em dez nomeações (Melhor Filme e Melhor Realizador incluídos), quatro aos Globos de Ouro em seis nomeações (Melhor Filme e Melhor Realizador incluídos) e quatro BAFTA em cinco nomeações (Melhor Filme e Melhor Actor incluídos), tornando-se a mais acabada lição do que é um filme clássico que transpira que o coloca a par da mais cuidada literatura.

Quase tão épico quanto o filme – e de certo modo ajudando ao seu carisma – têm sido os esforços de restauro no sentido de termos a versão integral de uma obra que foi conhecendo vários cortes ao longo dos tempos. Estreado com 222 minutos, o filme foi posteriormente editado para 210 para ser distribuído internacionalmente, dadas as críticas dos exibidores à sua duração. Em 1970 uma nova versão voltou aos cinemas, com apenas 187 minutos, a qual tinha algumas sequências com a imagem invertida. Foi esta versão que passou depois à televisão, e foi base para as conversões aos formatos caseiros. Uma primeira restauração surgiu em 1989, contendo 216 minutos e incluindo as suítes musicais de início, meio e fim. Finalmente em 2012, os mais modernos métodos de restauração digital trouxeram o filme à sua maior dimensão, 227 minutos, que voltou aos cinemas nos últimos tempos.

Anthony Quinn, Peter O'Toole e Omar Sharif em "Lawrence da Arábia" (Lawrence of Arabia, 1962), de David Lean

Produção:

Título original: Lawrence of Arabia; Produção: Horizon Pictures; País: Reino Unido; Ano: 1962; Duração: 227 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 10 de Dezembro de 1962 (Londres, Reino Unido), 28 de Novembro de 1963 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: ; Produção: Sam Spiegel, David Lean [não creditado]; Argumento: Robert Bolt, Michael Wilson [a partir de textos de T. E. Lawrence]; Música: Maurice Jarre; Orquestração: Gerard Schurmann, Lawrence Ashmore [não creditado]; Direcção Musical: Adrian Boult, Maurice Jarre [não creditado]; Fotografia: Freddie Young [filmado em Super Panavision 70, cor por Technicolor]; Montagem: Anne V. Coates; Design de Produção: John Box; Direcção Artística: John Stoll, Anthony Masters [não creditado]; Cenários: Dario Simoni; Figurinos: Phyllis Dalton; Caracterização: Charles E. Parker; Efeitos Especiais: Cliff Richardson, Wally Veevers [não creditado]; Direcção de Produção: John Palmer, R. L. M. Davidson [não creditado].

Elenco:

Peter O’Toole (T. E. Lawrence), Alec Guinness (Príncipe Feisal), Anthony Quinn (Auda Abu Tayi), Jack Hawkins (General Allenby), Omar Sharif (Sherif Ali), José Ferrer (Bei Turco), Anthony Quayle (Coronel Brighton), Claude Rains (Mr. Dryden), Arthur Kennedy (Jackson Bentley), Donald Wolfit (General Murray), I.S. Johar (Gasim), Gamil Ratib (Majid), Michel Ray (Farraj), Zia Mohyeddin (Tafas), John Dimech (Daud), Howard Marion-Crawford (Oficial de Medicina), Jack Gwillim (Secretário do Clube), Hugh Miller (Coronel da Royal Army Medical Corps).