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Evil Dead II Ash Williams (Bruce Campbell) viaja com a namorada Linda (Denise Bixler) para uma cabana remota na montanha, onde poderão estar a sós. Mas à chegada, ao tocar uma fita que encontram, e recita encantamentos de um livro maldito, Ash vai despertar forças malignas que atacam Linda e a transformam numa morta-viva. Para se salvar Ash tem de a matar, para perceber que não tem fuga possível, o que só piora quando a cabeça decepada de Linda lhe morde a mão direita, que a partir de então se volta contra ele. Resta-lhe amputar a mão, e combater os monstros com uma serra eléctrica. Pelo menos até Annie Knowby (Sarah Berry) e os amigos chegarem para procurar o livro que pertenceu aos pais dela.

Análise:

Depois do sucesso de culto que foi a sua segunda longa-metragem, o estranho filme de terror, “A Noite dos Mortos Vivos” (Evil Dead, 1981), Sam Raimi realizou “O Pequeno Crime” (Crimewave, 1985), escrito pelos irmãos Coen. O filme foi um fracasso, e Raimi decidiu arrepiar caminho e apostar em território conhecido. Isto muito graças à intervenção de Stephen King, fã confesso de “A Noite dos Mortos Vivos” e que queria tanto ver uma sequela que convenceu o famoso produtor Dino De Laurentiis a financiar o projecto.

É hoje ainda motivo de feroz debate se “A Morte Chega de Madrugada” é uma sequela, um remake ou um reboot do filme de 1981, pois o que se passou foi o seguinte. Escrito para continuar no momento em que o filme anterior ficara, isto é, com Ash (Bruce Campbell) como único sobrevivente, ainda na cabana na floresta, sob ameaça dos espíritos malignos, não foi possível a Raimi utilizar imagens do primeiro filme para situar a sua história. Assim, Sam Raimi e Scott Spiegel decidiram criar um novo início que explique a chegada de Ash, o qual não sabe de nada sobre a cabana, e por isso volta a tocar a fita que despoleta o surgimento dos monstros. Nesse sentido, e embora a estrutura do filme faça pensar em remake, ele foi de facto pensado como sequela, que só um factor burocrático levou a uma pequena alteração no início, que nos pode fazer vê-lo como reboot.

Também por essa razão, o início é sucinto e quase anedótico, pois o que a produção e público queriam era ver Ash dentro da cabana a lutar com mortos-vivos, o que acontece logo ao fim de cinco minutos. Tudo nesses minutos acontece como introdução apressada, com a chegada à cabana, a sugestão sexual entre Ash e a namorada Linda (Denise Bixler), a leitura do livro, e as icónicas imagens de um plano baixo, como uma câmara rastejante que se aproxima da cabana a alta velocidade. Ao fim de cinco minutos Ash está a perder a namorada, que de seguida decepa, para lhe ver a cabeça morder-lhe a mão, a qual se volta contra ele, fazendo com que Ash, sem hesitar a ampute, passando desde então a estar armado de uma serra eléctrica. É como se todos os momentos servissem apenas como um preencher de espaços, que levam ao contexto pretendido – a luta sem história contra os mortos-vivos –, dando-nos as imagens icónicas de um Bruce Campbell lutando de serra eléctrica, com o rosto sujo de sangue, em planos em que o seu rosto (de duro) enche o ecrã, em poses de banda desenhada.

Chegam depois os personagens seguintes – já que a matança só resulta havendo muitas personagens para morrer –, e estes são os familiares e colegas do casal que descobriu o livro amaldiçoado e o leu pela primeira vez. Surgem durante os ataques, e Ash é ele próprio confundido com um monstro, ideia reforçada pelo facto de ele se transformar em morto-vivo de tempos a tempos. Mas mesmo que nem tudo nas transformações seja coerente, o importante é vermos os personagens a serem «contagiados» e chacinados um após outro, até ficarem apenas Ash e Annie (Sarah Berry), que decidem enfrentar a ameaça final lendo as passagens-chave do livro amaldiçoado.

Claro que, mais que lembrar os passos do enredo, o mais importante no filme é o seu aspecto visual. Regado a litros de sangue, fazendo uso de machadadas, cortes de serra eléctrica e todo o tipo de mutilações e agressões, “A Morte Chega de Madrugada” mostra uma tal efusão de gore e violência, que acaba por se tornar risível, como um festim de efeitos de humor negro, que diverte onde o primeiro filme pretendia assustar. Para tal contribui também o uso de prostéticos de látex, e a animação stop-motion dos monstros, que ajudam a dar ao filme um aspecto mais artesanal, ou mesmo kitsch.

Percebe-se desde logo que estamos perante um objecto de culto, declarando-se assumidamente como tal, na definição (ou capitalização) de uma forma de estar, iconografia de personagens e estética muito própria. E é dentro desses parâmetros que o filme (todo filmado dentro de um ginásio, onde se construíram os cenários do interior da cabana) segue regras do gótico, com a casa assombrada, e uma noite ameaçadora quase permanente, que define uma espécie de fronteira entre mundo real (distante, lá fora) e o fantasmagórico (que vemos durante o filme). O excesso de violência traria problemas com a catalogação do filme, o que levaria De Laurentiis a distribuí-lo apenas por uma companhia criada para o efeito, a que chamou Rosebud.

Apesar de ser um objecto híbrido, “A Morte Chega de Madrugada” é vulgarmente considerado pelos fãs como o melhor da trilogia “Evil Dead”, a qual continuaria com uma aventura medieval, no filme “O Exército das Trevas” (Army of Darkness, 1992), também realizado por Raimi, e que começa no ponto onde “A Morte Chega de Madrugada” ficara, isto é, com Ash a ser teletransportado para a Idade Média.

Produção:

Título original: Evil Dead II: Dead by Dawn; Produção: De Laurentiis Entertainment Group (DEG) / Renaissance Pictures; Produtores Executivos: Irvin Shapiro, Alex de Benedetti; País: EUA; Ano: 1987; Duração: 84 minutos; Distribuição: Rosebud Releasing Corporation (EUA); Estreia: 13 de Março de 1987 (EUA), 9 de Junho de 1988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sam Raimi; Produção: Robert G. Tapert; Co-Produção: Bruce Campbell; Argumento: Sam Raimi, Scott Spiegel; Música: Joseph Lo Duca; Direcção Musical: Dennis J. Tini; Fotografia: Peter Deming, Eugene Shlugleit [cor por Technicolor]; Montagem: Kaye Davis; Direcção Artística: Philip Duffin, Randy Bennett; Cenários: Elizabeth Moore; Figurinos: Vicky Graef; Caracterização: Mark Shostrom, Wendy Bell; Efeitos Especiais: Vern Hyde; Efeitos Visuais: Jim Aupperle; Animação Stop-Motion: Doug Beswick; Direcção de Produção: Joseph C. Stillman.

Elenco:

Bruce Campbell (Ashley ‘Ash’ J. Williams), Sarah Berry (Annie Knowby), Dan Hicks (Jake), Kassie Wesley DePaiva (Bobby Joe), Ted Raimi (Possessed Henrietta), Denise Bixler (Linda), Richard Domeier (Ed Getley), John Peakes (Professor Raymond Knowby), Lou Hancock (Henrietta Knowby), Snowy Winters (Dançarina).