Etiquetas

, , , , , , , , , , ,

Whity Em 1879, no Oeste americano, Whity (Günther Kaufmann) é o criado mulato dos Nicholson, filho de uma relação entre o patriarca Ben (Ron Randell) e a criada Malpessa (Elaine Baker). Em casa, Whity aceita ser o bode expiatório da família, sofrendo abusos físicos, sendo objecto sexual de quase todos, e ferramenta desejada por uns para que mate os outros. É que todos pensam que Ben está a morrer, e tanto a esposa Katherine (Katrin Schaake) como o filho Frank (Ulli Lommel) planeiam matá-lo para se apoderarem da herança. Fora de casa, Whity encontra conforto nos braços da prostituta e cantora de cabaré Hanna (Hanna Schygulla), que quer que ele fuja com ela para Leste.

Análise:

Filmando no estrangeiro, em Almería na Andaluzia (curiosamente, ou não, lugar escolhido para filmar centenas dos chamados euro-westerns), Fassbinder escolheu o imaginário do western norte-americano para nos trazer uma sua história de manipulações, traições e vinganças na forma de uma família completamente disfuncional de sexualidades dúbias e propensões sado-masoquistas. Como sempre a produção esteve a cargo da sua companhia Antiteater na qual trabalham os seus actores de sempre, que mais uma vez constituem o cerne do elenco.

“Whity” é a alcunha de um mulato (Günther Kaufmann), filho da criada Malpessa (Elaine Baker) com o dono da casa, o rico e orgulhoso rancheiro Ben Nicholson (Ron Randell). Ben vive na frustração de ter uma família que odeia. Davy (Harry Baer), um dos filhos, é débil mental, o outro, Frank (Ulli Lommel), sádico e emocionalmente afectado, é homossexual, e planeia a morte do pai. Finalmente, a sua segunda esposa, a jovem e bela Katherine (Katrin Schaake), espera a sua morte enquanto abertamente o trai e deseja mal aos seus filhos. No meio de tudo isto, está Whity, vítima das frustrações de todos, que aguenta estoicamente, por uma devoção ao conceito de família, que na verdade nada lhe traz. Enquanto Katherine e Frank tentam convencer Whity a matar Ben, este finge estar a morrer, contratando um falso médico (Tomás Martín Blanco), que depois mata por se ter envolvido sexualmente com Katherine. Com Whity, frequentemente espancado por Ben, e a deixar-se usar (quer sendo humilhado, quer como objecto sexual), tanto por Frank, como por Katherine, o seu escape é com Hanna (Hanna Schygulla), a prostituta e cantora de saloon que, conhecendo os Nicholson, lhe pede para deixar tudo e fugir com ela. Por fim, cansado dos abusos, Whity mata os quatro elementos da família e foge para Leste com Hanna.

Com um título que aponta logo para a questão racial (“Whity” poderia trazuir-se como “branquinho”, por ironia à sua realidade de mulato), Fassbinder usa o Velho Oeste (com laivos do Sul racista) como cenário de uma história onde barreiras sociais e raciais concorrem com prepotências pessoais, ambições e vinganças familiares. Nessa família disfuncional tudo parece valer, e todos os tipos de relações incestuosas são sugeridas, Whity é alvo de todos os interesses, quer os sexuais de Katherine e Frank (seu meio-irmão), como escape da necessidade de violência de todos. De facto, prazer e dor parecem estar sempre ligados. Veja-se como Katherine exige que o seu amante mexicano a espanque e viole, e veja-se como Whity frequentemente se oferece para receber os castigos dos outros, numa ténue fronteira entre a reacção de dor e de prazer. Curiosamente, a relação mais «normal» acontece com a prostituta Hanna, a única que coloca algum envolvimento emocional na componente física.

“Whity” é também um filme de sacrifício, o do titular ao sofrer abusos e humilhações por querer ser o elemento perfeito de uma família que não o reconhece, e o de todos os membros da família, que se sujeitam a uma insana convivência na esperança de uma herança que não chegará. É também a da Hanna, que se prostitui em troca da ideia de um futuro longínquo, como de certo modo o fizera Malpessa, sujeitando-se aos avanços do patrão, sabe-se lá a troco de que promessas nunca cumpridas. É por fim o sacrifício do par de amantes Whity e Hanna, que fogem preferindo a liberdade, mesmo que esta só tenha para eles a morte no deserto.

Desta vez procurando uma estética mais convencional, onde a narrativa é perfeitamente linear, e a onde fotografia (com Michael Balhaus ao leme), cenografia e a própria banda sonora obedecem a conceitos mais próximos do cinema clássico norte-americano, Fassbinder continua a fazer as histórias e pontos dramáticos depender das interpretações (as quais são capazes de criar desconforto) e movimentos de câmara inesperados, como os seus close-ups ostensivos, e enquadramentos menos comuns (veja-se a sequência em que Ben mata o falso médico – com o jogo de espreitadelas por janelas –, ou os movimentos sinuosos entre personagens na leitura do testamento).

Mas o cinema de Fassbinder é geralmente feito de perversões, sejam de conteúdo (a homossexualidade, o adultério, o incesto, so sadismo, o masoquismo, o roubo, a traição – onde o escovar de um cavalo a quatro mãos com o personagem atrasado mental, tem o seu quê de erótico), sejam de estilo no modo como como subverte convenções (o uso do western para contar um drama de câmara, ou algo tão simples como ter uma actriz branca americana – Elaine Baker – com a cara pintada para fazer o papel de uma personagem negra, e os brancos a terem a cara empoeirada como nos filmes mudos – ou como vampiros sociais que são). O piscar de olhos ao cabaré aparece na forma das canções (em inglês) de Hanna Schygulla, não fosse Fassbinder admirador de Brecht

Embora hoje reconhecido como um filme fundamental na carreira de Fassbinder, que ajudou na transição entre a fase mais experimental – de menor sucesso – e a que se seguiria, de maior reconhecimento internacional, “Whity” passou ao lado de público e crítica, estreando nalguns festivais, mas não chegando ao circuito comercial. Na Alemanha pôde ser depois visto na televisão, sendo editado em DVD apenas muitas décadas depois.

Günther Kaufmann e Hanna Schygulla em "Whity" (1971), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Whity; Produção: Antiteater-X-Film / Atlantis Film; Produtor Executivo: Peter Berling; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 96 minutos; Distribuição: Omnia-Film; Estreia: 2 de Junho de 1971 (Festival de Berlim, RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Ulli Lommel , Peer Raben [como Wilhelm Rabenbauer]; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Música: Peer Raben; Fotografia: Michael Ballhaus [cor por Eastmancolor]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsh], Thea Eymèsz; Design de Produção: Kurt Raab; Direcção de Produção: Peter Berling.

Elenco:

Günther Kaufmann (Whity), Ron Randell (Benjamin Nicholson), Hanna Schygulla (Hanna), Katrin Schaake (Katherine Nicholson), Harry Baer (Davy Nicholson), Ulli Lommel (Frank Nicholson), Tomás Martín Blanco (Falso Médico Mexicano), Stefano Capriati (Juiz), Elaine Baker (Marpessa), Mark Salvage (Xerife), Helga Ballhaus (Mulher do Juiz).

Anúncios