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The Amityville Horror Anos depois dos crimes cometidos numa casa de Amityville, no Estado de Nova Iorque, o jovem casal George (James Brolin) e Kathy Lutz (Margot Kidder) vêm habitar nela, com os três filhos de Kathy, ainda crianças. Mas logo à chegada, e principalmente depois de o padre Delaney (Rod Steiger) sentir uma presença maléfica que o assusta e leva a fugir, a família começa a sentir que algo se passa, com alguns acidentes inexplicáveis a perturbar a paz, e principalmente com a mudança de comportamento de George, cada vez mais obsessivo e ausente da realidade, e dado a acessos de agressividade que começam a causar o medo na sua família.

Análise:

Baseado na história supostamente real do casal George e Kathy Lutz, cujos relatos originaram o livro e best-seller de Jay Anson, “The Amityville Horror: A True Story” (publicado em 1977), “Amityville – A Mansão do Diabo” foi um projecto do famoso produtor independente Samuel Z. Arkoff, da célebre AIP, o qual comprou os direitos do livro, encomendou o argumento a Sandor Stern e contratou para o dirigir Stuart Rosenberg, um realizador já com mais de uma dezena de filmes, entre eles o conhecido “O Presidiário” (Cool Hand Luke, 1967), com Paul Newman.

Olhando de dentro para a história de George (James Brolin) e Kathy Lutz (Margot Kidder), Rosenberg conta-nos a história de um casal que vem para uma mansão no campo, a qual está barata devido à fama que carrega, pois nela deu-se um assassinato sangrento e inexplicável de uma família às mãos de um dos seus elementos. E se a início o único problema do casal e três filhos parece ser as contas por pagar, tudo piora quando a casa começa a manifestar estranhas ocorrências, desde ruídos, a portas que se abrem e trancam sozinhas, passando pelas histórias da menina que diz ter uma amiga invisível ou pequenos acidentes que causam ferimentos nos rapazes. Mas o que mais aflige a família é a mudança de comportamento de George, que parece ausentar-se da realidade e entrar em comportamentos compulsivos e violentos, algo que não é ajudado pela relutância do padre Delaney (Rod Steiger), que depois de se assustar enquanto benze a casa, evita o contacto com a família e passa por estranhas aflições que o levam à cegueira. Quando Kathy, investigando sobre o passado da casa, descobre que o assassino de anos antes é a cara chapada de George, e teme pelos filhos, correndo a casa para enfrentar George antes que seja tarde. Nos confrontos que se seguem a casa, sangrando, age contra a família, que consegue, em pânico, fugir.

Numa época em que o terror seria dominado por histórias de assassinos em série aterrorizando uma comunidade ou grupo de amigos, geralmente em lugar remoto, “Amityville – A Mansão do Diabo” destaca-se pelo regresso à fórmula da casa assombrada (a que não é alheio o dedo de Arkoff), maldições sobrenaturais e presenças demoníacas, que tinham sido moda nos anos 60, que pareciam ter terminado com “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby, 1968), de Roman Polanski, e “O Exorcista” (The Exorcist, 1973), de William Friedkin, e que voltariam a dominar o cinema de terror no século XXI. Mas em 1979 – e mesmo com o bastante mais asséptico “Poltergeist, o Fenómeno” (Poltergeist, 1982), de Tobe Hooper e Steven Spielberg, ao virar da esquina – o terror fazia-se de machadadas e decepações, vítimas perseguidas, e muito sangue. Salientando-se as excepções, se “Poltergeist, o Fenómeno” seria um filme que assentaria nos seus efeitos especiais e espectáculo de fenómenos psico-cinéticos, “Amityville – A Mansão do Diabo” parece-nos uma obra de charneira com o tal terror sádico do seu tempo, evitando o festival de efeitos especiais que a escola Spielberg nos traria.

Senão vejamos, mesmo com fenómenos sobrenaturais a acontecer durante todo o filme, acaba por ser do elemento humano que provém a nosso medo. É o personagem de James Brolin que vemos transformar-se em virtude da influência maléfica, são as (muito breves) cenas de mutilação e sangue que nos assustam, e são os machados e facas que ele vai segurando que nos causam o pavor de vermos repetida a cena de anos antes, quando um habitante daquela casa matou toda a família.

Esse acaba por ser um dos maiores trunfos do filme de Stuart Rosenberg. Não escamoteando os aspectos sobrenaturais, alguns dos quais seriam de antologia, e repetidos ad nauseam nas décadas seguintes – as paredes que escorrem sangue; a cave com actividade para lá de uma parede; a menina que fala da amiga invisível; os olhos que brilham na escuridão,o crucifixo que se vira ao contrário –, Rosenberg usa esses elementos para criar atmosfera, para depois procurar a tensão nas incertezas do elemento humano – a criança que assiste impávida; o padre e freira que se assustam e fogem; mas sobretudo aquele que viremos a descobrir ser imagem ao espelho do anterior assassino, e que vai agora perdendo a razão tornando-se mais violento de dia para dia. Assim como que lembrando “Shining” (The Shinhing, 1980), de Stanley Kubrick, baseado na história de Stephen King, e que estrearia no mesmo ano, Rosenberg faz da crescente esquizofrenia do protagonista – após dominado pela casa que habita – e iminência do ataque sobre a própria família, a fonte do suspense e terror (repare-se como também no filme de Rosenberg temos a célebre cena do destruir de uma porta à machadada).

Com um ritmo que vai do idílico construir de um lar (com cumplicidade do casal, brincadeiras de crianças, cenas de amor), ao acelerar da decomposição da casa (acompanhado da decomposição da sanidade dos seus habitantes), “Amityville – A Mansão do Diabo” é eficaz, cativante e hipnótico, mercê das interpretações sentidas de James Brolin e Margot Kidder. Dividindo-se entre o sobrenatural e uma espécie de olhar para a causa de loucura um assassino em série, o filme acaba por lidar com demasiados assuntos para aquilo que está preparado para explicar. Temos por isso todo o enredo religioso deixado a meio, e as próprias alusões ao passado da casa ficam em aberto. Mas afinal, querendo passar por uma história real, um final em aberto era bastante mais verosímil, além de deixar espaço para sequelas.

E estas não se fariam esperar, iniciadas por “Amityville II – A Posse” (Amityville II: The Possession, 1982), realizado por Damiano Damiani. Depois chegariam filmes em 1983, 1989, 1990, 1992, 1993, 1996, vários deles directamente para vídeo, devido à sua cada vez menor qualidade. Em 2005 chegaria o remake também intitulado “Amityville – A Mansão do Diabo” (The Amityville Horror), realizado por Andrew Douglas, e a que já se seguiram outros nove filmes, num total de dezoito filmes nesta franchise, que promete não ficar por aqui.

Sucesso de bilheteira, embora denegrido por alguma crítica – enquanto Stephen King, por exemplo, o elogiou – o filme foi um dos maiores sucessos de sempre da AIP, tendo sido inclusivamente nomeado para o Oscar de Melhor Banda Sonora. Também elogiado pelas actuações da dupla de protagonistas, o filme de Rosenberg valeria a Margot Kidder – então célebre como a Lois Lane da série “Super Homem”, protagonizada por Christopher Reeve – uma nomeação para o prémio Saturn (atribuído pela Academy of Science Fiction, Fantasy and Horror Films) de Melhor Actriz.

Como nota final acrescente-se que, anos mais tarde, foi confessado que a suposta veracidade dos factos não passava de um embuste de fins comerciais, o que para muitos denegriu a imagem da série, que é hoje colocada no caixote das histórias repetitivas dentro de um género esgotado e que se leva exageradamente a sério.

James Brolin e Margot Kidder em "Amityville - A Mansão do Diabo" (The Amityville Horror), de Stuart Rosenberg

Produção:

Título original: The Amityville Horror; Produção: American International Pictures (AIP) / Cinema 77 / Professional Films; Produtor Executivo: Samuel Z. Arkoff; País: EUA; Ano: 1979; Duração: 114 minutos; Distribuição: American International Pictures (AIP) (EUA), Ambassador Film Distributors (Canadá); Estreia: 27 de Julho de 1979 (EUA e Canadá), 30 de Maio de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: ; Produção: Ronald Saland, Elliot Geisinger; Argumento: Sandor Stern [a partir de uma história de George Lutz e Kathy Lutz baseada no livro homónimo de Jay Anson]; Música: Lalo Schifrin; Fotografia: Fred J. Koenekamp [cor por Movielab, filmado em Panavision]; Montagem: Robert Brown; Direcção Artística: Kim Swados; Cenários: Robert R. Benton; Guarda-roupa: Richard Butz, Cynthia Bales; Caracterização: Stephen Abrums; Efeitos Especiais: Dell Rheaume [como Delwyn Rheaume]; Efeitos Visuais: William Cruse, Allen Blaisdell [não creditado]; Direcção de Produção: Jere Henshaw.

Elenco:

James Brolin (George Lutz), Margot Kidder (Kathy Lutz), Rod Steiger (Padre Delaney), Don Stroud (Padre Bolen), Michael Sacks (Jeff), Val Avery (Sargento Gionfriddo), Helen Shaver (Carolyn), Irene Dailey (Tia Helena), Amy Wright (Jackie), Marc Vahanian (Jimmy), Natasha Ryan (Amy), K. C. Martel (Greg), Meeno Peluce (Matt), Murray Hamilton (Padre Ryan), John Larch (Padre Nuncio), Elsa Raven (Mrs. Townsend), Ellen Saland (Noiva), Eddie Barth (Agucci), Hank Garrett (Barman), James Tolkan (Médico Legista), Carmine Foresta (Polícia na Casa), Peter Maloney (Empregado no Jornal), Charlie Welch (Carpinteiro), J. R. Miller (Rapaz), Patty Burtt (Rapariga), Michael Hawkins (Polícia de Choque de Nova Iorque), Richard Hughes (Polícia de Choque de Nova Iorque), James Dukas (Vizinho), Baxter Harris (Polícia na Casa), Michael Stearns (Polícia), Jack Krupnick (Pai Morto).

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