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Pioniere in Ingolstadt Na cidade bávara de Ingolstadt, a chegada de um destacamento de soldados para ajudar a construer uma ponte traz uma nova vida à cidade. Do lado das mulheres tal é visto como uma oportunidade. Seja pela cínica Alma (Irm Hermann), que vê na presença dos soldados modo de se divertir com sexo e ganhar dinheiro fácil, seja do lado da ingénua Berta (Hanna Schygulla) que acredita que poderá finalmente conhecer amor verdadeiro. Enquanto o seu patrão Fabian (Rudolf Waldemar Brem) é demasiado inseguro para se propor, Berta apaixona-se por Karl (Harry Baer), um soldado que não a ama e acabará por a tratar como se ela se prostituísse como Alma.

Análise:

Novamente com base na sua companhia Antiteater-X-Film, e produção do seu colega Kurt Raab, Rainer Werner Fassbinder continuava o seu ritmo intenso de filmes para cinema e televisão, neste caso para o pequeno ecrã, num filme que seria estreado em Cannes, e que, ao contrário do habitual não partia de uma ideia do realizador, mas sim da adaptação de uma peça de teatro de outra autora.

O tema de “Pioneiros em Ingolstadt” são os jogos de sedução, papel do amor e sexo, numa pequena comunidade de Ingolstadt dominada por relações de poder patriarcais. O pretexto é a presença de uma companhia de soldados ali estacionados para ajudar à reparação de uma ponte. Logo na sequência inicial (o desfile dos soldados), destacam-se as duas posições mais contrastantes. De um lado está Berta (Hanna Schygulla), inexperiente e inocente, que procura amor profundo, temendo o sofrimento que isso lhe possa trazer. Do outro está a aventureira e cínica Alma (Irm Hermann), que vê na presença dos soldados oportunidade para relações fáceis, de preferência proveitosas financeiramente. Seguindo o conselho da amiga, Berta conhece Karl (Harry Baer), por quem se apaixona. Mas este não está tão convencido do amor que lhe deva dar, ele que tem mulheres, e até filhos, noutras cidades. Interessado em Berta está o filho do patrão desta, Fabian Unertl (Rudolf Waldemar Brem). Este, homem fraco, permanentemente humilhado pelo seu pai (Walter Sedlmayr) e pelos próprio soldados, não se consegue propor, afogando as mágoas na cerveja com o sargento (Klaus Löwitsch), homem que puxa da sua patente para seduzir mulheres, mas que troca a jovem Frieda (Carla Egerer) pela mais fácil Alma, a qual se torna ódio daquela. No final Berta procura ainda fazer ciúmes a Karl com Fabian, mas não o consegue, e se por um lado Fabian acaba espancado pelos soldados, por outro Berta abandona-se ao desgosto, parecendo cair no caminho de Alma.

Continuando na sua senda de narrativas frias, olhares cínicos e personagens decadentes e pouco recomendáveis, Fassbinder traz-nos desta vez soldados que são tudo menos heróicos (não combatem, constroem – e mal – uma ponte), preocupados apenas em beber, sem objectivos que não sejam aproveitar a farda para conquistar algum sexo fácil. Ao seu lado, as mulheres não passam de muito mais que prostitutas, quer nominalmente – Alma prostitui-se por gozo – quer porque para eles, mesmo as mais inocentes apaixonadas – como Berta – são apenas veículo para uns momentos de prazer físico.

Mostrando-nos Ingolstadt como uma cidade agastada, perdida de objectivos ou bem estar, de relações difíceis entre poder patriarcal e uma juventude que se quer rebelar, numa atemporalidade abstracta (note-se como a música e roupas são dos anos 70, mas os soldados envergam uniformes nazis), esta define-se nos comportamentos. Estes são de predação – quer o dos soldados, quer o das mulheres, ou mesmo das pessoas em redor como o incapaz Unertl e o seu prepotente pai. Esse clima de constante predação e cinismo lembra a atmosfera do noir, onde todos tentam usar todos, seja Alma com o sexo, o sargento com a patente, os soldados com a farda, ou mesmo Unertl com o carro – instrumento de estatuto que o leva finalmente a ser considerado por Berta.

Pelo meio destaca-se a posição das mulheres em relação ao sexo oposto. Alma, que se prostitui tanto pelo dinheiro que lhe permite uma vida mais alegre que a de criada de servir, como pelo seu ego, ao procurar constantemente reconhecimento pela sua habilidade para o sexo, vendo isso como factor de superioridade em relação às amigas. Já Berta deixa-se guiar apenas por sentimentos, não percebendo que é usada tanto ou mais que Alma, pois ao contrário daquela (que cede o corpo por gosto), Berta não percebe que é usada. Finalmente temos Frieda (um pouco como personagem-tipo que representa a maioria das raparigas, mais jovem e insegura, querendo alguma libertação perante os soldados, mas sentindo-se sempre ultrapassada por Alma, a qual passa a odiar, e tenta denunciar.

Com o pano de fundo de uma ponte, que nunca acaba construída, e que parece ser mais figurativa que real, “Pioneiros em Ingolstadt” fala-nos do papel do amor, e da sua relação (ou falta dela) com a expressão física do sexo. Necessita o amor de sexo? E o sexo necessita de amor? Nas várias relações que testemunhamos estas ideias são testadas e contestadas. Como habitual em Fassbinder, a resposta não nos é dada, sendo deixados apenas exemplos, filmados com a sua habitual frieza, aqui numa câmara que procura longos planos-sequência, movendo-se de personagem em personagem, como uma intrusa, e mesmo quando nada na sequência o pediria.

Num conjunto de interpretações que continua a tocar a lógica teatral e estilização tão querida em Fassbinder, destaca-se a graciosidade da lindíssima Hanna Schygulla, como um toque de calor num mundo de um cinismo completamente gélido.

Irm Hermann e Hanna Schygulla em "Pioneiros em Ingolstadt" (Pioniere in Ingolstadt, 1971), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Pioniere in Ingolstadt; Produção: Janus Film und Fernsehen / Antiteater-X-Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1971; Duração: 97 minutos; Distribuição: Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF); Estreia: Maio de 1971 (Festival de Cannes, França), 19 de Maio de 1971 (RFA – TV).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Klaus Hellwig, Kurt Raab; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir da peça homónima de Marieluise Fleisser]; Música: Peer Raben; Fotografia: Dietrich Lohmann; Montagem: Thea Eymèsz; Design de Produção: Kurt Raab; Direcção Artística: Gernot Krää, Burghard Schlicht.

Elenco:

Hanna Schygulla (Berta), Harry Baer (Karl), Irm Hermann (Alma), Rudolf Waldemar Brem (Fabian Unertl), Walter Sedlmayr (Fritz Unertl), Klaus Löwitsch (Sargento), Carla Egerer [como Carla Aulaulu] (Frieda), Günther Kaufmann (Max), Burghard Schlicht (Klaus), Peter Gauhe, Gunter Krää (Gottfried), Hanna Köhler, Sibylle Danzer, Elga Sorbas (Marie), Rainer Werner Fassbinder (voz de Klaus Löwitsch) [não creditado].

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