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Sergeant York No remoto Valley of the Three Forks of the Wolf, no estado do Tennessee, Alvin C. York (Gary Cooper) é um estouvado, sempre a beber a a armar confusão, até ao momento em que conhece a jovem Gracie Williams (Joan Leslie), por quem se apaixona. Decidido a mostrar-lhe que pode ser um bom partido, Alvin começa a trabalhar arduamente para comprar um pedaço de terra e construir uma casa, mas entretanto os EUA entram na Primeira Guerra Mundial, e Alvin tem de partir. Apesar de começar como objector de consciência, a sua perícia de atirador vai fazer dele um herói, conciliando mensagem religiosa com a defesa do seu país e modo de vida, e por fim com os sonhos que tem para o seu futuro.

Análise:

Com os Estados Unidos prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial, nada melhor para mover vontades e elevar espíritos patrióticos que o enaltecer de um dos mais condecorados heróis norte-americanos da Primeira Guerra Mundial, o nominal Sargento York, em cujo diário se buscou inspiração para este filme que Howard Hawks realizou para a Warner Bros. Segundo reza a lenda, há muito que se buscavam os direitos da história para adaptação ao cinema, algo sempre recusado por Alvin C. York, até aceder usar o dinheiro para a criação de uma sociedade de estudos bíblicos, uma motivação bastante consentânea com as do personagem do filme.

“Sargento York” é a história de um jovem campónio do remoto Valley of the Three Forks of the Wolf, nas montanhas Cumberland, no estado do Tennessee, onde, como a dada altura um caixeiro-viajante nos confirma, as notícias levam eternidades a chegar e de onde ninguém parece conseguir entrar ou sair. Ali, como que que numa terra retirada de uma lenda, fala-se um inglês arcaico, e vive-se uma vida simples, onde a única figura de autoridade é o pastor religioso, que prega uma leitura da Bíblia muito pessoal e ligada à terra. Destoando do resto, Alvin C. York (Gary Cooper) é um estouvado, permanentemente bêbedo, até conhecer a jovem Gracie Williams (Joan Leslie), por quem imediatamente se apaixona e imediatamente decide que será sua esposa. Mas o orgulho de Alvin leva-o a tentar primeiro comprar um pedaço de terra, pelo que passa a trabalhar arduamente, em todo o tipo de trabalhos para outros, vendendo caça, e participando em torneios de tiro. Quando a sorte o atraiçoa, Alvin desespera, mas numa noite de temporal, vê Deus, e decide que deve seguir um caminho justo, de acordo com O Livro. É então que os Estados Unidos entram na guerra, e Alvin é chamado, depois de, em vão, tentar evitar a recruta por motivos religiosos. Mas quando o Major Buxton (Stanley Ridges) lhe dá a conhecer a história dos Estados Unidos, Alvin percebe que tem um novo livro segundo o qual se guiar, e aceita participar. Já na Europa, a sua destreza como atirador distingue-o ao capturar, quase sozinho, cerca de 130 prisioneiros alemães. O feito torna-o um herói internacional, sendo recebido no seu país com pompa e circunstância. Mas Alvin apenas quer regressar a casa, para voltar a trabalhar para construir a casa que prometeu a Gracie. Só que, no vale, espera-o uma surpresa. O estado construiu-lhe a casa em honra dos seus feitos, e Alvin já pode casar com Gracie.

Com o aproximar, e o decorrer da Segunda Guerra Mundial, a Primeira deixou de ser tema no cinema norte-americano. A excepção foi “Sargento York”, um filme que, mais que sobre a guerra, é sobre o patriotismo, e uma certa forma de se viver o amor à pátria. A pátria surge aqui na forma mais concreta possível, na história de um vale remoto no Tennessee, onde as pessoas vivem em completo isolamento, num estilo de vida (e dialecto) muito peculiares. É aí que conhecemos Alvin York, que de jovem estouvado passa a modelo, exemplo de abnegação, trabalho e dedicação aos ideais da terra, primeiro por querer casar uma uma das vizinhas, e depois pela sua aceitação da mensagem bíblica. Terra, tradição, família (não esquecer a presença da mãe e irmãos com guias espirituais de Alvin) e religião formam o núcleo de princípios que fazem Alvin um homem diferente. E essa diferença descobrimos logo na recruta onde a sua inocência (nunca sequer ouviu falar do Metro) acompanha a força dos princípios que o levam a não querer matar.

Mas não se pode ser patriótico nos Estados Unidos sem estar disposto a derramar sangue inimigo, e é isso que Alvin aprende, quando lê a história do país, nas reverências a Liberdade, Constituição e Pais Fundadores, e com elas aprende que às vezes é preciso matar para salvar. De um modo quase metafórico é isso que lhe acontece no cenário de guerra, com a sua perícia como atirador a acabar com ninhos de metralhadoras numa batalha onde assim salva, não só os seus homens, como os próprios alemães, da carnificina que se seguiria. Herói nacional, tratado com honras que nem percebem Alvin tem o estado do Tennessee aos pés, e a todas as soluções para a sua vida e casamento, numa prova de como dar a vida pelo país resulta no país a dar tudo por si, afinal a mensagem que interessava passar em 1941.

Fortemente propagandístico, e cheio de mensagens sobre a natureza mais «inocente» do americano remoto, “Sargento York” é assim como que um apelo ao bom selvagem apegado a valores tradicionais, sem quaisquer ambições ou conhecimentos fora do seu quintal. Por outras palavras é um apelo à vastidão de um país que vive fora das cidades, desligado dos acontecimentos trans-nacionais ou internacionais, ao mesmo tempo que elogia a vida simples, ideais profundos e essa tal tradição peculiar que forma a paisagem étnica do país.

Com Walter Brennan num papel diferente, como um pastor religioso, o filme inicia-se num serviço religioso, dando o mote para onde está a linha entre o bem e o mal. A comprovar essa mensagem temos um Alvin inicialmente bêbedo, desrespeitador, e um embaraço para a família, que ganha novo propósito e tecido moral, graças à religião, num incidente que é a sua estrada para Damasco, onde a luz é a trovoada que quase o mata, no que é uma metáfora completamente ostensiva, e o maior afastamento da história do verdadeiro Alvin, cuja conversão foi um processo longo.

Por esse aparente despretensiosismo, mensagem simples e apelo a ideais adormecidos, “Sargento York” tornou-se um fenómeno de popularidade, e um dos mais conhecidos filmes de Gary Cooper, que o carrega às costas com a sua personalidade própria, algures entre o bem disposto romântico e o teimoso retrógrado, mas sempre homem modos simples e sinceros. O filme tornar-se-ia mesmo fundamental no aumento do recrutamento militar, com o verdadeiro Alvin C. York a visitar as filmagens, e a insistir sempre na veracidade da narrativa (tal como na escolha da actriz, rejeitando que fosse uma estrela). A isto aliou-se a descrição do vale (com uma fotografia bem conseguida de paisagens muitas vezes filmadas em estúdio), e as dinâmicas (se bem que romantizadas) cenas de batalha, de grande fôlego e aventura.

“Sargento York” receberia nomeações para dez Oscars da Academia, vencendo dois – Melhor Actor (Cooper) e Melhor Montagem – perdendo nas categorias de Melhor Filme, Realizador (a única nomeação da carreira de Hawks), Actor Secundário (Brennan), Actriz Secundária (Margaret Wycherly), Argumento Original, Fotografia, Direcção Artística e Banda Sonora.

Gary Cooper em "Sargento York" (Sergeant York, 1941), de Howard Hawks

Produção:

Título original: Sergeant York; Produção: Warner Bros.; País: EUA; Ano: 1941; Duração: 134 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 2 de Julho de 1941 (EUA), 4 de Janeiro de 1945 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Howard Hawks; Produção: Jesse L. Lasky, Hal B. Wallis, Howard Hawks [não creditado]; Argumento: Abem Finkel,
Harry Chandlee, Howard Koch, John Huston [baseado no livro “Diary of Sergeant York”, editado por Tom Skeyhill]; Música: Max Steiner; Orquestração: Hugo Friedhofer; Direcção Musical: Leo F. Forbstein; Fotografia: Sol Polito, Arthur Edeson (sequências de batalha) [preto e branco]; Montagem: William Holmes; Direcção Artística: John Hughes; Cenários: Fred M. MacLean [não creditado]; Figurinos: ; Caracterização: Perc Westmore; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Eric Stacey.

Elenco:

Gary Cooper (Alvin C. York), Walter Brennan (Pastor Rosier Pile), Joan Leslie (Gracie Williams), George Tobias (‘Pusher’ Ross), Stanley Ridges (Major Buxton), Margaret Wycherly (Mãe York), Ward Bond (Ike Botkin), Noah Beery Jr. (Buck Lipscomb), June Lockhart (Rosie York), Dickie Moore (George York), Clem Bevans (Zeke), Howard Da Silva (Lem), Charles Trowbridge (Cordell Hull), Harvey Stephens (Capitão Danforth), David Bruce (Bert Thomas), Carl Esmond (Major Alemão), Joe Sawyer (Sargento Early), Pat Flaherty (Sargento Harry Parsons), Robert Porterfield (Zeb Andrews), Erville Alderson (Nate Tomkins).

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