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Day of the Dead Algures na Florida, um grupo de pessoas vive numa estação subterrânea secreta, escondido dos zombies, e tentando estudá-los em experiências científicas que possam ajudar a derrotá-los. Mas estas experiências, de índole lunática, conduzidas pelo Dr. Logan (Richard Liberty) irritam os militares, liderados pelo nervoso capitão Rhodes (Joseph Pilato). No meio, tentando puxar pelo bom senso, está a Dra. Sarah Bowman (Lori Cardille), o operador de rádio, Bill McDermott (Jarlath Conroy), e o piloto de helicóptero, John (Terry Alexander). Mas quando o namorado de Sarah, o soldado Miguel Salazar (Anthony Dileo Jr.), sucumbe perante o stress e põe o grupo em perigo, as tensões extremam-se.

Análise:

Em 1985, no mesmo ano em que via a luz do dia a série de filmes “O Regresso dos Mortos Vivos” (The Return of the Living Dead), inspirada pelo livro de John A. Russo, George A Romero dava-nos o terceiro tomo da sua visão dos zombies, com “O Dia dos Mortos”, escrito por si mesmo. Mas enquanto a série inspirada por Russo optava por um tom cómico de exploração e subversão de convenções do género, o filme de Romero continuava a sua busca de ideias inovadoras em torno do mito dos zombies, e se no filme anterior – “Zombie: A Maldição dos Mortos-Vivos” (Dawn of the Dead, 1978) – a ênfase fora a da sobrevivência numa sociedade de consumo, onde um centro comercial se tornava o fulcro de todas as acções, agora era a componente científica que seria trazida para primeiro plano e, em simultâneo, posta em causa.

Novamente construindo uma história sem ligações com as anteriores – a não ser claro, na premissa comum de que o perigo zombie está a alastrar –, o filme mostra-nos uma estação científica onde alguns cientistas fazem experiências com zombies, para desagrado dos militares que os guardam. Temos por um lado a equipa da Dra. Sarah Bowman (Lori Cardille), com o seu namorado, o soldado Miguel Salazar (Anthony Dileo Jr.), o operador de rádio, Bill McDermott (Jarlath Conroy), e o piloto de helicóptero, John (Terry Alexander), que percorrem os arredores, procurando, em vão, sinais de vida humana. Por outro temos o Dr. Logan (Richard Liberty), apelidado de Dr. Frankenstein, que lidera experiências pouco convencionais. Por fim temos os militares, liderados pelo colérico capitão Rhodes (Joseph Pilato), que ameaça parar com tudo, por sentir os seus homens em perigo. A tensão sobe depois de Miguel, em nítida exaustão por stress, falhar nas suas missões pondo todos os outros em perigo. A descoberta de que o Dr. Logan está a treinar um zombie – Bub (Sherman Howard) –, leva a mais desconfianças no grupo, e quando Miguel provoca a morte de dois soldados, sendo mordido por um zombie, a revolta estala. O Dr. Morgan acaba morto, enquanto Sarah e Bill são atirados aos zombies. Mas a confusão criada por Miguel, que em desespero decide abrir as portas ao zombies que se acumulam no exterior, leva a que John possa salvar os dois amigos, e o trio foge no helicóptero, enquanto Rhodes e os outros soldados são apanhados pelos zombies.

Se por um lado, “O Dia dos Mortos” parece fugir à atmosfera de paranóia, trazendo mesmo um elemento científico que se sobrepõe ao simples mistério que costuma ser a origem e contornos do fenómeno – e nesse aspecto o filme de Romero é dos poucos filmes de zombies que poderemos chamar de ficção científica –, por outro lado, Romero mostra uma grande vitalidade ao trazer perguntas que revitalizam a franchise. As perguntas do Dr. Logan são aquelas que gostaríamos de fazer: o que é afinal um zombie? Porque tem de comer carne se fisiologicamente não depende disso para sobreviver? O que o move? Porque continua funcional sem membros ou órgãos vitais num ser humano? Numa espécie de câmara de horrores, o Dr. Morgan experimenta e testa sem escrúpulos, sem compaixão nem contemplações, quer para com as suas cobaias, quer para com o perigo a que expõe os humanos. Ter usado o antigo comandante como um corpo acabado de transformar, só para bem das suas experiências, ou usar o corpo de um soldado acabado de morrer, para alimentar a sua criatura com carne fresca, recompensando-a pelos seus progressos de aprendizagem, são dois exemplos de como a prática científica do Dr. Logan pode ser cega a sentimentos.

Do outro lado está a completa cegueira militar, que dispara sem pensar, antagoniza quem poderia ajudar, cria condições de irritabilidade em todos, e toma decisões ridículas que acabarão por ditar a ruína do grupo. No meio estão os outsiders (Sarah, Bill e John), que muito moralmente serão aqueles que escapam com vida. É, acima de tudo, as relações entre diferentes personalidades, princípios e motivações que move o enredo, cria tensões e provoca desfechos.

Filmado quase inteiramente em interiores (o interior da estação subterrânea onde o grupo experimenta em segredo – tanto em estúdio como usando minas abandonadas), “O Dia dos Mortos” faz uso de cenários eficazes para criar ambientes diversificados, desde as temíveis cavernas onde se escondem os mortos-vivos aos cruéis laboratórios onde os cientistas se movem. Estrela da companhia é Bub, o zombie «domesticado», que dá provas de aprendizagem, inteligência – que o leva a saber distinguir oponentes e amigos –, e destreza suficiente para saber disparar uma arma. Os exercícios da sua educação são suficientemente bem filmados para nos fazer temer que uma nova espécie concorrente com a nossa possa mesmo estar a nascer.

Mas aquilo que mais facilmente fica na memória de quem espreita o filme acaba por ser, necessariamente, as sequências com os zombies. Ao contrário do que fizera nos dois filmes anteriores, Romero não se limitava agora a mostrar figuras de pele acinzentada que davam uma ou outra dentada. Em “O Dia dos Mortos” – produto do colorido da década de 80 – temos caracterizações grotescas, com rostos disformes, mutilações de toda a espécie, e corpos onde as vísceras se vêem, por vezes a cair de dentro de esqueletos rotos. As próprias cenas de ataque e devorar de vítimas são agora muito mais chocantes, com corpos a serem rasgados em vários pedaços, a serem devorados víscera a víscera, as quais por vezes passam de mão em mão, tudo com muito sangue, gritos e horror.

Romero terá tido que escrever pelo menos cinco guiões, consecutivamente rejeitados pela UFDC por apontarem para filmes bem mais caros que o parco orçamento da produtora permitia. Apesar desse medo, que levou a um lançamento muito limitado, o filme foi um tremendo sucesso, tanto nas receitas directas de bilheteira, como, logo de seguida, no mercado de aluguer.

Para além do estatuto da franchise, continuada com mais alguns filmes realizados pelo próprio Romero, o sucesso do filme de 1985 levaria à produção da sequela directa “O Dia dos Mortos 2 – Contágio” (Day of the Dead 2: Contagium, 2005), realizada por Ana Clavell e James Glenn Dudelson e ao remake “O Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 2008), de Steve Miner. Mais recentemente ainda, com o acréscimo de interesse na temática zombie trazido pela popular série de televisão criada em 2010 “The Walking Dead”, surgiria ainda o filme que funciona como um re-imaginar da história de 1985, intitulado “Day of the Dead: Bloodline” (2018), de Hèctor Hernández Vicens e Pearry Reginald Teo.

Sherman Howard em "O Dia dos Mortos" (Day of the Dead, 1985), de George A. Romero

Produção:

Título original: Day of the Dead; Produção: United Film Distribution Company (UFDC) / Laurel Entertainment Inc. / Dead Films Inc.; Produtores Executivos: Salah M. Hassanein; País: EUA; Ano: 1985; Duração: 101 minutos; Distribuição: United Film Distribution Company (UFDC) (EUA); Estreia: 18 de Julho de 1985 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: George A. Romero; Produção: Richard P. Rubinstein; Co-Produção: David Ball; Produtor Associado: Ed Lammi; Argumento: George A. Romero; Música: John Harrison; Fotografia: Michael Gornick [cor por Technicolor]; Montagem: Pasquale Buba; Design de Produção: Cletus Anderson; Direcção Artística: Bruce Alan Miller; Cenários: Jan Pascale; Figurinos: Barbara Anderson; Caracterização: Jeannee Josefczyk, Bonnie Priore, Natalka Voslakov; Efeitos Especiais: Howard Jones, Steven Kirshoff, Mark Mann; Efeitos Especiais de Caracterização: Tom Savini; Efeitos Visuais: Harvey Plastrik; Direcção de Produção: Zilla Clinton.

Elenco:

Lori Cardille (Sarah), Terry Alexander (John), Joseph Pilato (Rhodes), Jarlath Conroy (McDermott), Anthony Dileo Jr. (Miguel), Richard Liberty (Logan), Sherman Howard (Bub), Gary Howard Klar (Steel), Ralph Marrero (Rickles), John Amplas (Fisher), Phillip G. Kellams (Miller), Taso N. Stavrakis (Torrez), Greg Nicotero (Johnson), Don Brockett (Zombie), William Cameron (Zombie), Deborah Carter (Zombie), Winnie Flynn (Zombie), Debra Gordon (Zombie), Jeff Hogan (Zombie), Barbara Holmes (Zombie), David Kindlon (Zombie), Bruce Kirkpatrick (Zombie), ‘Wild Bill’ Laczko [como William Andrew Laczko] (Zombie), Susan Martinelli (Zombie), Kim Maxwell (Zombie), Barbara Russell (Zombie), Gene A. Saraceni (Zombie), John D. Schwartz (Zombie), Mark Tierno (Zombie), Mike Trcic (Zombie), John Vulich (Zombie).

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