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CreepshowFilme de antologia, escrito por Stephen King, mostra-nos cinco contos macabros. Eles são o regresso da cova de um velho que vem matar todos os familiares em busca do seu bolo de dia do pai; as consequências sofridas por um pacóvio não muito inteligente, depois de ter descoberto um meteorito; um plano de um marido traído para matar por afogamento a esposa e o amante desta; a descoberta de uma criatura monstruosa que está guardada há mais de cem anos num caixote numa universidade; e o drama de um homem de negócios que vive hermeticamente fechado, mas será atacado por milhares de baratas. Tudo histórias da revista “Creepshow”, que o pequeno Billy é proibido de ler pelo seu pai, que por isso sofrerá um destino atroz

Análise:

Baseado naquilo que eram as grandes colecções de banda desenhada (BD) de terror, em voga nos anos 50, de editoras como a EC Comics e a DC Comics – House of Mystery, House of Secrets, Tales from the Crypt, The Vault of Horror, The Haunt of Fear –, George A. Romero associou-se ao famoso escritor Stephen King para criarem um filme de antologia com cinco histórias separadas e uma atmosfera de BD onde um humor mórbido se liga a histórias de terror macabro. Para tal, King escreveu o argumento, adaptando dois dos seus contos, e criando novas histórias, sendo ele próprio o protagonista de uma, o que constituiu a sua estreia em tela.

O filme começa e termina com a história de um pai (Tom Atkins) que castiga o filho Billy (Joe Hill – filho de Stephen King) por este ler a revista “Creepshow”, a qual veremos esvoaçar e abrir nas várias histórias que iremos conhecer de seguida. No epílogo vemos que dois homens do lixo encontram a revista, e quando a folheiam vêem que falta o cupão do boneco de voodoo. Em casa o pai começa a ter fortes dores no pescoço, enquanto vemos que Billy espeta o boneco com alfinetes para se vingar.

A primeira história chama-se “Father’s Day” (Dia do Pai), e conta da reunião familiar que anualmente celebra a morte do velho Nathan Grantham (Jon Lormer), um tirânico patriarca que mantinha a filha Bedelia (Viveca Lindfors) como quase escrava, até esta o matar, num Dia do Pai, quando ele gritava obsessivamente pelo seu bolo. Todos os anos, neste dia, Bedelia regressa a casa, sendo esperada por Sylvia (Carrie Nye), neta do velho Nathan, os filhos desta, Richard (Warner Shook) e Cass (Elizabeth Regan), e o marido desta, Hank Blaine (Ed Harris). Quando Bedelia cumpre o ritual de visitar a campa do pai, este, num aspecto de corpo meio decomposto (John Amplas), ataca-a, matando-o, o mesmo acontecendo a Hank quando a vai procurar. Após isso o fantasma entra na casa e mata, para atacar os restantes membros da família, fazendo um bolo com a cabeça de Sylvia.

O segundo episódio chama-se “The Lonesome Death of Jordy Verrill” (A Morte Solitária de Jordy Verrill), e conta a história do nominal Jordy Verrill (Stephen King), um pacóvio que vive na sua casa no campo, e um dia vê cair um asteróide à sua frente. Jordy decide imediatamente que o venderá à universidade, mas ao tocá-lo sente um ardor nos dedos, que se transformará em borbulhas, e para o arrefecer atira-lhe um balde de água, que o quebra levando a sair um viscoso líquido fluorescente. A partir daí, tanto em Jordy, como em tudo à volta, uma vegetação densa vai crescendo vertiginosamente, até Jordy, que se tenta aliviar da comichão na banheira, perceber que a água fez vegetação cobrir-lhe todo o corpo. Jordy decide então matar-se com um tiro na cabeça, enquanto na rádio se ouve que se esperam fortes chuvas.

O terceiro episódio intitula-se “Something to Tide You Over” (Algo com que Te Cobrir), e mostra-nos Richard Vickers (Leslie Nielsen), um homem cruel que se decide vingar da infidelidade da esposa Becky (Gaylen Ross) com o seu amante Harry (Ted Danson). Para tal atrai-os, sem que saibam um do outro, à sua casa de praia, onde os domina e enterra na areia até ao pescoço para morrerem afogados. Só que depois disto, os dois corpos afogados de Harry e Becky, em início de decomposição e cobertos em algas, regressam, e dão a Richard o mesmo fim.

O quarto episódio intitula-se “The Crate” (O Caixote), e leva-nos até uma Universidade, onde o contínuo Mike (Don Keefer), ao perder uma moeda para o vão de escada, descobre um caixote datado do século XIX. Mike chama o professor Dexter Stanley (Fritz Weaver), o qual está numa festa com o casal Henry (Hal Holbrook) – um pacato colega de Dexter – e Wilma Northrup (Adrienne Barbeau) – uma odiosa mulher que todos exaspera. Quando Mike e Dexter abrem o caixote, sai de lá uma criatura monstruosa que devora Mike. Este procura ajuda, e encontra Charlie Gereson (Robert Harper), um dos seus estudantes. Mas Charlie, céptico, não toma precauções, e ao rastejar para debaixo das escadas é também apanhado e desfeito pelo monstro. Em estado de choque, Dexter corre a casa de Henry, e conta-lhe tudo. Henry congemina então um plano, chama Wilma à universidade, e quando esta chega, empurra-a para debaixo das escadas, onde o monstro a devora. De seguida Henry fecha o caixote e atira-o ao fundo de um lago. Mas na sequência final descobrimos que o monstro escapou com vida.

O quinto e último episódio chama-se “They’re Creeping Up on You” (Eles Rastejam Sorrateiramente para Te Apanhar), e mostra-nos o misantropo misófobo Upson Pratt (E.G. Marshall), um homem de negócios cruel e avarento, que do seu apartamento hermeticamente fechado e controlado vai gerindo operações financeiras para aumentar o seu império destruindo quem esteja no caminho. Tudo vai bem até Pratt ver uma barata. A partir daí, e por mais que pareça ter conseguido matá-la, esta vai sempre reaparecer. Em breve já não é só uma, mas várias, e com um apagão que atinge toda a cidade, Pratt perde o controlo do apartamento, e as baratas surgem aos milhares, vindas de todos os orifícios possíveis. Em desespero, Pratt fecha-se no seu quarto também selado, mas descobre que lá dentro estão milhares de baratas. Em choque, Pratt morre de ataque cardíaco. Quando a electricidade regressa, revela um apartamento limpíssimo, sem qualquer insecto. Só que o corpo de Pratt está em convulsão, e dele vão-se abrindo crateras de onde as baratas saem aos milhares.

Primeiro argumento de cinema escrito pelo próprio Stephen King, “Creepshow: Contos de Terror” é uma mudança de estilo em relação aos filmes de George A. Romero, destacando-se desde logo por várias características que o unem. Elas são a temática da vingança, mesmo além-morte (desde a história de Billy e do seu livro, ao corpo decrépito de Nathan, passando pela vingança passional do personagem de Leslie Nielsen à forma como o personagem de Hal Holbrook se livra da esposa); o anedótico da caracterização de personagens, que parecem dever pouco à inteligência (o pacóvio de Stephen King, a irritante esposa de Adrienne Barbeau, ou o misófobo de E.G. Marshall). Há depois a atmosfera de banda desenhada, com personagens e histórias trágico-cómicas, com episódios plenos de grotesco (sangue a rodos, cabeças decepadas, erupções de insectos, mutilações e aparições de corpos em decomposição), e enquadramentos (com planos oblíquos e grandes planos) a lembrar os quadradinhos da BD, com as transições entre histórias a serem feitos com o congelamento de imagens que passam a desenhos, depois de um enquadramento de um rosto em grande plano contra um fundo pintado.

Essa mistura de terror e comédia, evocativa da atmosfera dos livros citados, na busca de um público juvenil à procura de uma gargalhada subversiva no macabro, e capaz de chocar faixas etárias mais elevadas (como no prólogo), é bem conseguida, e contrasta com o terror que Romero nos vinha dando, embora encaixe naquilo que seria o terror juvenil da década de 80, virada para um público (e temas) juvenil, sempre com essa gargalhada pronta, mesmo que arrancada pelo exagero visual do terror apresentado.

Com um design de produção excelente – mostrando um cuidado e consequente orçamento, acima do que lhe era habitual –, Romero, assente nas caracterizações e gore do habitual Tom Savini, consegue um exercício de estilo eficaz na colagem entre elementos visuais do seu filme e estética BD, mercê tanto dos personagens, como da fotografia garrida, e da escolha de enquadramentos. Embora com um tom leve, o macabro de inspiração de Edgar Allan Poe é a nota dominante, capaz de fazer virar muitos rostos entre os espectadores, com o apelo a um terror visceral, desde o corpo que se torna pasto para crescimento de vegetação, ou a presença das baratas. Por todos esses elementos, não só os filmes de antologia como um revivalismo do terror dos anos 50 passaram ao léxico comum dos amantes do cinema de terror, como a aposta na atmosfera leve e humor macabro se tornariam lugares comuns no cinema desta década.

Lançado pela Warner, que o promoveu em larga escala, “Creepshow: Contos de Terror” foi um enorme sucesso de bilheteira. Sucesso esse que se repetiria depois no mercado de aluguer. O filme seria posteriormente adaptado a banda desenhada, com ilustrações de Bernie Wrightson, (da revista “Heavy Metal”). A sequela “Creepshow 2”, dirigida pelo habitual director de fotografia de Romero, Michael Gornick, viu a luz do dia em 1987, sendo novamente escrita por Romero e King. Já em 2006 era a vez de “Creepshow 3” – realizada por Ana Clavell e James Glenn Dudelson, mas sem qualquer envolvimento de Romero ou King –, ter sido lançada directamente para vídeo. Finalmente, em 2008, a Taurus Entertainment licenciava a produção da série para web “Creepshow: RAW”. O episódio piloto foi realizado por Wilmer Valderrama, mas a série não teve continuidade.

Stephen King em "Creepshow: Contos de Terror" (Creepshow, 1982), de George A. Romero

Produção:

Título original: Creepshow; Produção: Creepshow Films Inc. / Laurel Entertainment Inc. / Laurel-Show Inc. / Warner Bros.; Produtor Executivo: Salah M. Hassanein; País: ; Ano: 1982; Duração: 120 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: Maio de 1982 (Festival de Cannes, França), 10 de Novembro de 1982 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: George A. Romero; Produção: Richard P. Rubinstein; Produtor Associado: David E. Vogel; Argumento: Stephen King; Música: John Harrison; Música Adicional:Michelle DiBucci [não creditada]; Orquestração: ; Fotografia: Michael Gornick [cor por Technicolor]; Montagem: Pasquale Buba (segmento “The Lonesome Death of Jordy Verrill”), Paul Hirsch (segmento “The Crate”), George A. Romero (segmento “Something To Tide You Over”), Michael Spolan (segmentos “Father’s Day” e “They’re Creeping Up On You”); Design de Produção: Cletus Anderson; Direcção Artística: Larry Fulton; Cenários: ; Figurinos: Barbara Anderson; Caracterização: Bonnie Priore; Efeitos Especiais: Cletus Anderson, Ed Fountain; Efeitos Especiais de Caracterização: Tom Savini; Efeitos Visuais: Harvey Plastrik, David M. Garber, David Stipes; Direcção de Produção: Charles Layton.

Elenco:

Prólogo e Epílogo:
Joe Hill [como Joe King] (Billy), Iva Jean Saraceni (Mãe de Billy), Tom Atkins (Stan, Pai de Billy) [não creditado], Marty Schiff (Homem do Lixo), Tom Savini (Homem do Lixo).
Segmento “Father’s Day”:
Carrie Nye (Sylvia Grantham), Viveca Lindfors (Aunt Bedelia), Ed Harris (Hank Blaine), Warner Shook (Richard Grantham), Elizabeth Regan (Cass Blaine), Jon Lormer (Nathan Grantham), John Amplas (Cadáver de Nathan), Nann Mogg (Mrs. Danvers), Peter Messer (Yarbro).
Segmento “The Lonesome Death of Jordy Verrill”:
Stephen King (Jordy Verrill), Bingo O’Malley (Pai de Jordy).
Segmento “Something To Tide You Over”:
Leslie Nielsen (Richard Vickers), Ted Danson (Harry Wentworth), Gaylen Ross (Becky Vickers).
Segmento “The Crate”:
Hal Holbrook (Henry Northrup ), Adrienne Barbeau (Wilma Northrup), Fritz Weaver (Dexter Stanley), Don Keefer (Mike, o Contínuo), Robert Harper (Charlie Gereson), Christine Forrest (Tabitha Raymond), Chuck Aber (Richard Raymond), Cletus Anderson (Anfitrião), Katie Karlovitz (Empregada).
Segmento “They’re Creeping Up On You”:
E.G. Marshall (Upson Pratt), David Early (White), Ann Muffly (Voz de Lenora Castonmeyer) [não creditada], Mark Tierno (Voz de Carl Reynolds) [não creditado].

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