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The Dawn Patrol Remake do filme de Howard Haws com o mesmo título, de 1930, “A Patrulha da Alvorada” leva-nos a França, em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, onde a força aérea britânica Royal Flying Corps (RFC) luta acima das suas possibilidades, com o major Brand (Basil Rathbone) a ser forçado a dar aos seus pilotos missões demasiado arriscadas. Tal coloca-o em litígio com o o líder de esquadrão, Courtney (Errol Flynn), que contesta o facto de terem pilotos cada vez mais novos e inexperientes. Mas as missões não param, nem as mortes dos pilotos, e quando Brand é chamado a assumir funções no quartel-general, é Courtney quem o substitui, percebendo então o quão ingrata é a tarefa.

Análise:

Em 1938, a Warner Bros. decidiu levar ao ecrã o remake do filme “A Patrulha da Alvorada” (The Dawn Patrol, 1930), anteriormente realizado por Howard Hawks, para a First National Pictures. A ideia era simples, recuperar um filme de sucesso, mantendo a sua mensagem, actualizando a cinematografia e, principalmente, dando-o como veículo para algumas das estrelas do momento, como o celebérrimo Errol Flynn, o seu arqui-inimigo na tela, Basil Rathbone (aqui no seu terceiro filme conjunto), e um dos mais famosos actores ingleses da sua geração, David Niven.

E como em receita de sucesso não se devem mudar os ingredientes, a Warner e o realizador escolhido, Edmund Goulding, decidiram manter o argumento quase na íntegra, com pouquíssimas mudanças, as quais passaram sobretudo pelo maior uso de transparências para simular as batalhas aéreas, e um maior dramatismo na interpretação dos protagonistas, que aqui nos declamam a mensagem do filme bem mais ostensivamente. De resto a história mantêm-se quase igual, passando em todas as etapas do filme de Hawks. Assim, voltamos a acompanhar o dia-a-dia da companhia da força aérea britânica estacionada em França na Primeira Guerra Mundial – Royal Flying Corps (RFC) –, em especial a unidade comandada pelo major Brand (Basil Rathbone), que é obrigado, apesar dos seus protestos, a confiar missões cada vez mais arriscadas aos seus pilotos, os quais têm cada vez menos horas de descanso, e vêem os mortos em combate ser substituídos por recrutas sem qualquer experiência. Entre eles, é o comandante do esquadrão A, Courtney (Richard Barthelmess), quem verbaliza o desânimo dos pilotos, provocando a ira de Brand. Quando o famoso alemão Von Richter lança um desafio à base da RFC, os pilotos são proibidos de responder, mas Courtney e o seu braço direito Scott (David Niven) desobedecem e atacam com sucesso o campo alemão. Na sequência, Brand é promovido a novas funções no quartel-general, deixando no seu lugar o próprio Courtney, que começa a perceber como a tarefa de Brand era ingrata. Quando o irmão de Scott, Donnie (Morton Lowry), chega como um dos novos imberbes recrutas, e morre na sua primeira missão, tal vale a Courtney a raiva do seu amigo Scott. É ainda em dor que Scott se oferece para a missão seguinte, que tudo indica ser quase suicida, mas Courtney embebeda-o nessa noite, e voa no seu lugar. Courtney completa a missão com sucesso, mas morre durante a mesma. No final vemos a vida da base aérea a continuar, com novos recrutas mal preparados a ser enviados para missões perigosas, com as ordens dadas pelo novo comandante, que é agora Scott.

Tal como o seu antecessor do mesmo nome, “A Patrulha da Alvorada” é um filme onde o drama humano se sobrepõe às aventuras de guerra, e as sequências aéreas são escassas, apenas presentes para marcar dois ou três pontos de viragem no enredo como o são as mortes de Donnie e Courney, ou o raid proibido de Courtney e Scott. De resto, o filme (que faz extenso uso de transparências para simular sequências aéreas) decorre quase todo em terra, nos diálogos entre pilotos, e na forma de estes lidarem com a notícia de novas missões, cada vez mais mal preparadas, onde pilotos sem descanso e cada vez mais jovens são enviados para uma morte quase certa.

As maiores diferenças em termos de dinâmica de personagens talvez sejam a relação entre as personagens de Flynn e Rathbone (que mesmo aliados por uma vez na tela, precisavam de um conflito que estimulasse o espectador), com o major Brand de Rathbone a rejubilar quando finalmente passa a «batata quente» a Courtney, perfidamente contente porque agora, aquele que funcionava como a voz da sua consciência, vai saber na pela o que é ter a responsabilidade de mandar homens para a morte. É como se Brand estivesse mais interessado com o que Courtney pensava dele que com o resultado dos seus actos, o que nos relembra que, sendo Flynn e Rathbone estrelas maiores dos filmes de aventura da Warner (num filme que contava ainda com os secundários Donald Crisp e Melville Cooper – presenças habituais nos filmes daquele par), havia que capitalizar essa dinâmica junto do público.

Voltamos a ter os pontos chave da captura do piloto alemão (Carl Esmond), que passa a parceiro das noites de bebida na messe – aqui para desconforto do nervoso Hollister (Peter Willes), que concentra a desconfiança em relação ao inimigo, que mais ninguém ali parece ter. Voltamos a ter o raid proibido de Scott e Courtney, e por fim a chegada e morte do irmão mais novo de Scott. A diferença é que desta vez o Scott de David Niven é mais bonacheirão que o do filme anterior, e a zanga com Courtney não dura muito. Afinal havia que mostrar todos os aliados do mesmo lado, quando a verdadeira inimiga era a própria guerra.

Apesar de ter um tom um pouco mais ligeiro que o do filme de Hawks, o filme de Edmund Goulding continua o mesmo tom de tragédia anunciada, com o final irónico da continuidade da máquina de trituração de vidas, acima de qualquer bom senso, mesmo que desta vez, na necessidade de compor determinados momentos, o filme se arraste para cenas menos determinantes, como o são as brincadeiras na messe, ou os longos discursos que o pontuam. Não deixamos, ainda assim, de ter um filme anti-guerra, que respeita a mensagem original, e onde a grande mais valia são as interpretações, Errol Flyn, pese a sua aura de herói romântico, a construir um personagem mais sóbrio e subtil que o habitual nos seus filmes de aventuras. Embora seja uma cópia muito fiel ao original, o filme não deixa de ter inovações em alguns pontos, onde o contar dos sobreviventes pelo som dos aviões que chegam é um dos mais bem conseguidos.

Dado o avanço técnico que se registara entre 1930 e 1938, o novo “A Patrulha da Alvorada” foi um enorme sucesso, que logo fez esquecer o filme de Hawks. A história seria ainda adaptada à televisão como “Flight Commander” (o título do livro em que se baseia), para evitar confusões com o filme de 1938.

David Niven e Errol Flynn em "A Patrulha da Alvorada" (The Dawn Patrol, 1938), de Edmund Goulding

Produção:

Título original: The Dawn Patrol; Produção: Warner Bros.; Produtores Executivos: Jack L. Warner [não creditado], Hal B. Wallis [não creditado]; País: EUA; Ano: 1938; Duração: 102 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 23 de Dezembro de 1938 (EUA), 18 de Dezembro de 1941 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Edmund Goulding; Produtor Associado: Robert Lord; Argumento: Seton I. Miller, Dan Totheroh [a partir do livro de John Monk Saunders]; Música: Max Steiner; Direcção Musical: Leo F. Forbstein; Fotografia: Tony Gaudio [preto e branco]; Montagem: Ralph Dawson; Direcção Artística: John Hughes; Guarda-roupa: Rene Wilson; Caracterização: Bill Phillips [não creditado]; Efeitos Especiais: Edwin A. DuPar; Direcção de Produção: Robert Ross [não creditado].

Elenco:

Errol Flynn (Courtney), Basil Rathbone (Major Brand), David Niven (Scott), Donald Crisp (Phipps), Melville Cooper (Sargento Watkins), Barry Fitzgerald (Bott), Carl Esmond (Hauptmann Von Mueller), Peter Willes (Hollister), Morton Lowry (Donnie Scott), Michael Brooke (Capitão Squires), James Burke (Flaherty), Stuart Hall (Bentham), Herbert Evans (Mecânico), Sidney Bracey (Ordenança do Major Brand), Leo Nomis (Supervisor de Aeronáutica).