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Videodrome Max Renn (James Woods) é o director de um canal de televisão obscuro que aposta em sofcore e violência, para explorar um nicho do mercado. Insatisfeito com a produção, Max descobre o programa “Videodrome”, uma espécie de filme snuff de tortura real, captado por satélite de algures em Pittsburgh. Depois de ver Nicky (Debbie Harry), a locutora de rádio com quem tem uma relação sado-masoquista, desaparecer na busca do tal programa, Max vai tentar descobrir quem o produz, mesmo que perceba que quanto mais o vê, mas as suas alucinações o dominam.

Análise:

Continuando com apoios públicos, e uma equipa muito próxima da do seu filme anterior (dos produtores Pierre David, Victor Solnicki e Claude Héroux, a toda a equipa técnica – compositor, director de fotografia, montador, directora artística, etc.), David Cronenberg apresentava em 1983 o seu mais ambicioso filme até então, com uma história que toca o surrealismo, interpretada pelo famoso actor norte-americano James Woods, e com a cantora Debbie Harry (vocalista dos Blondie, que aqui tingiu o cabelo de louro para ruivo) num dos principais papéis.

Mais uma vez escrito pelo próprio realizador, o argumento de “Experiência Alucinante” apresenta-nos Max Renn (James Woods), o director de um canal de televisão quase desconhecido, que aposta em material radical de sexo e violência o mais explícitos e realistas possíveis, como forma de se destacar no mercado. Sempre interessado em dar mais passos em frente, Max descobre, através de Harlan (Peter Dvorsky), um dos seus técnicos, que procura programas que possa piratear por satélite, algo chamado “Videodrome”, e que parece apresentar tortura real. Fascinado com o conceito, Max deixa escapar o segredo quando a sua conquista Nicki Brand (Debbie Harry), uma locutora de rádio que procura uma relação sado-masoquista, o vê, e resolve viajar para Pittsburgh (onde alegadamente o programa é produzido), para participar nele. Max vai puxando os cordelinhos, até descobrir que o responsável pela produção será o elusivo Brian O’Blivion (Jack Creley), uma espécie de filósofo e guru dos media, que ninguém vê ao vivo há muito tempo. Nos estúdios de O’Blivion, Max é recebido por Bianca (Sonja Smits), a filha daquele, que parece ter sempre cassetes prontas para Max, explicando-lhe que o sinal de “Videodrome” provoca cancro, e que quando o pai tentou lutar contra a sua transmissão foi morto. Só que, quanto mais Max se embrenha no mundo de “Videodrome”, mais começa a ficar alucinado, começando a ver as cassetes como seres vivos que introduz no próprio corpo, e a sua mão um objecto mecânico que se funde com uma pistola, no sentido de matar aqueles que têm ligação com o projecto. Descobrindo que foi induzido nesse caminho há muito tempo, com Harlan como o incitador, que trabalhava para a Spectacular Optical (uma empresa fictícia que lida com armas pouco convencionais) de Barry Convex (Leslie Carlson), Max é programado para matar os seus sócios, para que a sua estação de televisão passe a transmitir os sinais malignos de “Videodrome”. Graças a Bianca, que lhe mostra como Nicky também já foi morta, Max é reprogramado para matar Harlan e Convex, terminando por se suicidar, para passar ao nível seguinte, o não carnal.

Não é necessário muito para percebermos que “Experiência Alucinante” é um filme completamente alegórico, com fortes doses de surrealismo, onde o poder da televisão, e todos os medos de controlo de pensamento e personalidade daí advindos formam o cerne do argumento. Mais uma vez falando de instituições subversivas, que se imiscuem numa espécie de lutas secretas pelo controlo de opinião/pensamento (como o são a CIVIC-TV e a Spectacular Optical), Cronenberg descreve a televisão como uma forma de jogar com a alienação dos mais fracos (os sem-abrigo e pedintes, os viciados em pornografia, as pessoas mais violentas), para os utilizar numa guerra secreta, que leva ao seu controlo e eliminação.

Desse modo, política e media estão interligados, como várias vezes referido, e onde a tortura que vemos parece ser um aspecto de um programa político de entidades obscuras. Como se precisasse ser mais explícito, Cronenberg dá-nos os discursos do intrigante pseudo-filósofo O’Blivion (nome que aponta para «esquecimento», ou mais concretamente, alienação), que defende que a televisão em breve será mais real que a realidade. A sua missão chama-se Cathode Ray Mission («Missão dos Raios Catódicos»), e doutrina os sem-abrigo, servindo-lhes horas consecutivas de televisão, numa espécie de sopa dos pobres de sessões de visionamento, onde corpo humano, tecnologia, insanidade e crítica social se misturam.

A ideia de que a televisão substituirá todos os aspectos da vida real, e o perigo da alienação de quem deixa que a televisão condicione os seus comportamentos e formas de ser e estar, reflecte-se na acção do protagonista, que cedo passa de fascínio à completa dependência, e por fim ao comportamento alucinado que o leva inclusivamente ao assassínio em série. Pelo meio temos as experiências dessa alucinação – a inserção de cassetes (que parecem seres vivos) numa ranhura (de alusão vaginal) no seu estômago; a fusão entre mão e pistola como um ser independente; o receptor de TV que reage ao toque como um ser sexual, e de deixa penetrar pela cabeça de Max; e tantas outras, onde não falta a relação sado-masoquista entre Max e Nicky, com cortes, punções e sangue.

Com uma narrativa na qual alucinação e realidade deixam de ter barreiras definidas (quem consegue dizer o que de facto aconteceu, e o que foi simples alucinação?), o que fica é todo o aspecto surreal, a ideia do poder subversivo das ondas televisivas, e claro, a imagética de Cronenberg, chocante (sempre com o horror corporal no centro), surpreendente e de uma concepção simples, mas extremamente eficaz, graças a efeitos especiais muito bem conseguidos.

Com um filme que tem grande parte das suas cenas como imagens transmitidas por uma televisão (e onde se conta um dos primeiros exemplos de um debate ao vivo na televisão com alguém que surge num monitor), “Experiência Alucinante” pareceu ao seu tempo demasiado críptico, exigente e avançado. O filme viria no entanto a ser muito procurado no mercado de vídeo (o que é quase uma justiça poética dado o uso das cassetes no filme), e tornar-se-ia um dos mais celebrados filmes da carreira de Cronenberg, num caminho mais experimental, que o autor prosseguiria com o seu parente próximo e também aclamado “O Festim Nu” (Naked Lunch, 1991).

James Woods em "Experiência Alucinante" (Videodrome, 1983), de David Cronenberg

Produção:

Título original: Videodrome; Produção: Filmplan International / Guardian Trust Company / Canadian Film Development Corporation (CFDC) / Famous Players Limited; Produtores Executivos: Pierre David, Victor Solnicki; País: Canadá; Ano: 1983; Duração: 89 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 4 de Fevereiro de 1983 (EUA), 9 de Novembro de 2014 (Lisbon & Estoril Film Festival, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: David Cronenberg; Produção: Claude Héroux; Produtor Associado: Larry Nesis; Argumento: David Cronenberg; Música: Howard Shore; Fotografia: Mark Irwin [filmado em Panavision]; Montagem: Ronald Sanders; Direcção Artística: Carol Spier; Cenários: Angelo Stea; Figurinos: Delphine White; Caracterização: Shonagh Jabour; Efeitos Especiais: Frank C. Carere, Steve Johnson (efeitos de caracterização), Bill Sturgeon (efeitos de caracterização); Efeitos Visuais: Michael Lennick; Direcção de Produção: Gwen Iveson.

Elenco:

James Woods (Max Renn), Sonja Smits (Bianca O’Blivion), Debbie Harry (Nicki Brand), Peter Dvorsky (Harlan), Leslie Carlson (Barry Convex), Jack Creley (Brian O’Blivion), Lynne Gorman (Masha), Julie Khaner (Bridey), Reiner Schwarz (Moses), David Bolt (Raphael), Lally Cadeau (Rena King), Henry Gomez (Brolley), Harvey Chao (Vendedor Japonês), David Tsubouchi (Vendedor Japonês), Kay Hawtrey (Matrona), Sam Malkin (Adandonado no Passeio), Bob Church (Apresentador de Televisão), Jayne Eastwood (Mulher ao Telefone), Franciszka Hedland (Dançarina).