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Die Niklashauser Fart Como começar uma revolução? É possível fazer a revolução com poucas pessoas? A quem serve a revolução? Essas parecem ser as perguntas iniciais de um grupo de revolucionários, que vão seguir o movimento criado por Hans Boehm (Michael König), um pastor do século XV, que se diz inspirado pela Virgem Maria para conduzir os camponeses contra aqueles que os exploram, os senhores feudais e a Igreja. Anacrónico, usando linguagem marxista e personagens contemporâneas em conjunto com personagens e realidades medievais, o filme mostra-nos o percurso dos revolucionários, no seu desenvolvimento e debate de conceitos, e confrontos com quem se lhes depara.

Análise:

Continuando a filmar com o suporte (financeiro, artístico e pessoal) da sua companhia Antiteater, Fassbinder voltava a produzir uma obra para televisão (que chegou pontualmente a algumas salas de cinema europeias), naquilo que foi um dos filmes mais abertamente políticos de Rainer Werner Fassbinder, aqui com um orçamento acima do habitual e a presença de Michael Fenger como co-realizador.

Filmando a cores, fazendo uso extensivo de exteriores e usando sempre cenários naturais (mesmo filmando em interiores), Fassbinder começava por mostrar um lado visualmente mais próximo do cinema comercial. Só que essa impressão termina assim que o filme começa, e voltamos aos diálogos e monólogos quase interiores, o modo estilizado e teatral de representar habitual no autor, e os movimentos de câmara pendulares que acompanham movimentos como se fossem os olhos de uma pessoa que caminha ao lado dos actores. Não fica por aí a «estranheza» que traz ao filme de Fassbinder o seu carácter experimental. Temos personagens que trajam e se comportam como medievais (um pastor, um padre), nobres da era barroca, e pessoas nossas contemporâneas trajando com roupas dos anos 70. Todas interagem num constante anacronismo de ideias e linguagem, onde as preocupações políticas e sociais de cada época são tratadas por igual, como que a mostrar a universalidade das mensagens e realidades.

Começamos por ver o conjunto de personagens que debate entre si o que é uma revolução, como se motiva o povo a fazê-la e para que serve. Eles são Hans Boehm (Michael König), um pastor que diz interpretar as mensagens da Virgem Maria, Johanna (Hanna Schygulla), a sua companheira, o Monge Negro (Fassbinder), espécie de mentor filosófico, e ainda Antonio (Michael Gordon), e o líder dos agricultores (Günther Kaufmann). De sequência em sequência vamos vê-los interagir com aqueles em seu torno – a mulher rica (Margit Carstensen) enamorada de Hans e disposta a largar o marido doente; o bispo (Kurt Raab) que vive em luxúria, e com medo de ser morto pela turba; o padre (Peer Raben) que tenta demover Hans – e ir corrigindo a mensagem e a forma de a expor de modo a chegar a mais gente. A dada altura é sugerido que Johanna discurse como sendo a Virgem Maria, para assim dar mais força às palavras de Hans.

Tendo como inspiração o lado mais experimental da Nouvelle Vague francesa, Fassbinder e Fengler colocam conteúdo acima da narrativa, espantando o seu público com as transições entre episódios, centrando-se nos discursos, e nas fortes imagens (filmam numa pedreira para aproveitar o eco; filmam numa sucata para fazer uso de cor e forma; usam a nudez no cimo de um monte para ferir num dos discursos, etc.), naquilo que fica quase entre a exuberância visual de Pasolini e o experimentalismo de Godard.

Fazendo uso das palavras de Marx, no que parece ser uma série de sequências de endoutrinamento político, com as teses sobre os meios de produção, a unidade dos trabalhadores e a exploração pelos proprietários como cerne, Fassbinder mescla a teoria com ideias contrastantes. Há um por um lado algo anedótico sobre o modo como os «revolucionários» planeiam, por outro lado a constante ligação entre revolução e iconografia religiosa (o líder diz-se inspirado pela Virgem Maria) é uma enorme subversão de conceitos, com a religião a ser comparada ideais revolucionários. Mais mal na figura ficam as classes dominantes: os senhores feudais e a igreja. Estes são apresentados como prepotentes e corruptos, destacando-se as sequências em torno do bispo, sempre ostentando opulência, arrogância e condescendência, envolvido em festas orgiásticas, de claro pendor homossexual. Mas essa condescendência parte também dos revolucionários, envolvidos em debates por conceitos que nem sempre dominam, usando propositadamente a imagem religiosa a seu favor, e confessando que não acreditam que o povo alguma vez seja autónomo e possa pensar pela sua cabeça, num pessimismo que nos lembra que mesmo depois de uma vitória triunfal a realidade que se segue raramente corresponde às expectativas. Há ainda um constante debate sobre o papel da violência e a pergunta sobre se os meios justificam os fins, o que resulta num banho de sangue, no violento tiroteio com que o filme termina.

Ao seu jeito descomprometido, Fassbinder, aqui com Michael Fengler ao seu lado na realização, vai questionando conceitos, expondo ideias, e deixando perguntas, sobre aquilo que ele vê como uma luta história e constante, numa colagem aos ideais marxistas, inspirado na personagem real Hans Boehm, que seria executado em 1476 pelas suas ideias radicais. O resultado seria um dos filmes mais inspirados da fase inicial da carreira de Fassbinder, e um percursor das suas mais consagradas obras.

Produção:

Título original: Die Niklashauser Fart; Produção: Antiteater / Janus Film und Fernsehen / Westdeutscher Rundfunk (WDR); País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1970; Duração: 90 minutos; Distribuição: Westdeutscher Rundfunk (WDR); Estreia: 26 de Outubro de 1970 (RFA – TV) 19 de Setembro de 1975 (Dinamarca – Cinema).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler; Argumento: Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler; Música: Peer Raben, Amon Düül II; Fotografia: Dietrich Lohmann; Montagem: Thea Eymèsz, Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch]; Design de Produção: Kurt Raab; Caracterização: Sybille Danzer; Efeitos Especiais: Karl Baumgartner [como Charly Baumgartner].

Elenco:

Michael König (Hans Boehm), Hanna Schygulla (Johanna), Margit Carstensen (Magarethe), Michael Gordon (Antonio), Günther Kaufmann (Líder dos Agricultores), Kurt Raab (Bispo), Franz Maron (Marido de Margarethe), Walter Sedlmayr (Pastor), Karl Scheydt (Cidadão de Niklashausen), Guenther Rupp (Conselheiro do Bispo), Ingrid Caven (Rapariga aos Gritos), Elga Sorbas (Rapariga em Dificuldades), Carla Egerer [como Carla Aulaulu] (Rapariga Epiléptica), Magdalena Montezuma (Penthesilea), Sigi Graue (Agricultor), Peer Raben (Monsenhor), Peter Berling (Carrasco), Hanna Köhler (Cantora), Rainer Werner Fassbinder (Monge Negro) [não creditado].

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