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Scanners Cameron Vale (Stephen Lack) é pouco mais que um vagabundo, um homem que vagueia sem rumo, e sem perceber os seus problemas mentais, quando num acesso de fúria interna se vê num Centro Comercial a manipular, sem perceber como, as pessoas que nele reparam. Cameron é logo encarcerado na instituição do Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) que lhe ensina o que são «scanners», pessoas que, como ele, têm capacidades de ligações mentais a outros seres. É que o Dr. Ruth precisa de Cameron para lutar contra Darryl Revok (Michael Ironside), um «scanner» renegado, agora numa senda de destruição e vingança.

Análise:

Desta vez discorrendo sobre poderes extra-sensoriais, como a telepatia ou outras formas de ligação à distância entre sistemas nervosos, David Cronenberg escrevia mais um capítulo do seu caminho por obsessões entre transformações, tecnologia e evoluções do corpo humano. Novamente com dinheiros públicos, numa produção de não muito alto custo, “Scanners” alia mistério, terror e ficção científica, para mais uma história estranha de leituras variadas.

No seu habitual jeito de não perder tempo para introduzir os temas, David Cronenberg inicia o filme com uma primeira demonstração dos poderes mentais em jogo, quando um deslocado da sociedade, de nome Cameron Vale (Stephen Lack), provoca, telepaticamente, comoção numa mulher que o observa. Tal leva-o a ser perseguido e apanhado, pela empresa CONSEC, onde fica sob inspecção do Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan), que lhe explica o que é um «scanner» e como o pode ajudar a ter uma vida normal, se colaborar e se sujeitar a tomar a droga Ephemerol, que inibe os seus poderes. Ao mesmo tempo, o Dr. Ruth explica que a comunidade de «scanners» está sob ataque por parte do mais poderoso de entre eles, Darryl Revok (Michael Ironside), que escapou ao programa da CONSEC, e mata quem não se lhe junte, como vemos numa demonstração em que Revok faz explodir a cabeça do empregado da CONSEC que tentava explicar em que consiste o programa. Cameron concorda em ajudar, e é colocado na pista de Benjamin Pierce (Robert Silverman), um artista, que pela sua arte suprimiu os seus poderes de «scanner». Mas ao chegar a ele, Cameron é confrontado com um grupo de assassinos que matam Pierce. Cameron procura então as pessoas que conheciam Pierce, entre eles a também «scanner» Kim Obrist (Jennifer O’Neill), para mais uma vez ver o grupo dizimado, por assassinos desconhecidos. Fugindo com Kim, Cameron procura a ajuda da CONSEC, para descobrir que esta foi infiltrada por Braedon Keller (Lawrence Dane), chefe de segurança, mas a soldo de Revok, que mata inclusivamente o Dr. Ruth. Mais uma vez Cameron e Kim escapam, e ele consegue ligação telepática com os computadores da CONSEC, descobrindo onde Revok actua, administrando Ephemerol a mulheres grávidas, para criar «scanners» logo de nascença. É então que Revok captura Cameron e Kim, confrontando aquele para o persuadir a juntar-se à sua causa, revelando que são irmãos, filhos das experiências de Dr. Ruth. Perante a recusa de Cameron, ambos iniciam um mortal duelo de mentes. Quando Kim desperta e os procura, encontra o corpo de Cameron desfeito em cinza, enquanto que, do corpo de Revok, responde a voz de Cameron, dizendo que passou a estar dentro dele.

Novamente centrado no tema da transformação do corpo humano induzida pela ciência – neste caso resultando em poderes mentais –, David Cronenberg traz-nos mais uma história estranha, construída como um mistério criminal, durante a qual vamos descobrir quem são os «scanners», como foram criados, e que forças lutam agora para o domínio desta estranha força. Como sempre, tudo parte de uma poderosa instituição (CONSEC), com toques de jogos de manipulação secreta, onde experiências químicas e o poder da informática são como armas, onde o homem não passa de um fantoche em jogos que não compreende.

E o homem que aqui nos interessa é Cameron Vale, que conhecemos na primeira sequência, como alguém que vagueia perdido, sem noção de quem é ou que poderes tem, até ser institucionalizado, e depois instruído sobre aquilo que o torna diferente. A partir de então dir-se-ia estarmos no campo do noir com um protagonista de motivações dúbias, a seguir de morte em morte, na busca das respostas misteriosas daquilo que o move pessoalmente. A sua némesis é Darryl Revok, um génio do mal, que se emancipou do mestre (Dr. Ruth), e usa os seus poderes para eliminar quem se lhe oponha. Claro que fica sempre a pergunta sobre quem é pior, os «scanners» descontrolados como Revok, ou aqueles que, sem escrúpulos, os criaram, como Ruth. Por isso todos eles vão encontrar a morte, e por isso mesmo, a sobrevivente vai ser Kim, a representante de um grupo de «scanners» pacifistas, que tentam usar o seu dom para o bem.

Metáforas de manipulação política e dos perigos de seitas radicais e instituições científicas à parte “Scanners”, apesar do seu orçamento modesto – como sempre disfarçado pelas inspiradas opções de cenografia e de enquadramentos de Cronenberg –, fica na memória por algumas das suas cenas mais terríficas, como o gore do explodir de uma cabeça, ou o duelo final de convulsões e transformações faciais, que foi ao seu tempo um prodígio de caracterização e efeitos especiais.

Mesmo que, para muitos críticos, “Scanners” peque por um argumento pouco esclarecido e um ritmo lento e repetitivo, o filme veio a tornar-se um fenómeno de culto, conseguindo alguns prémios em festivais da especialidade, como foi o caso do Fantasporto em 1983. O filme originou ainda duas sequelas realizadas por Christian Duguay, e sem a participação de Cronenberg: “Scanners II: The New Order” (1991) e “Scanners III: The Takeover” (1992), este com lançamento directo para vídeo. Também para vídeo saíram ainda as spin-ofs “Scanner Cop” (1994), de Pierre David e “Scanner Cop 2: The Showdown” (1995), de Steve Barnett.

Stephen Lack em "Scanners" (1981), de David Cronenberg

Produção:

Título original: Scanners; Produção: Canadian Film Development Corporation (CFDC) / Filmplan International; Produtores Executivos: Victor Solnicki, Pierre David; País: Canadá; Ano: 1981; Duração: 89 minutos; Distribuição: New World-Mutual (Canadá), Embassy Pictures (EUA); Estreia: 14 de Janeiro de 1981 (EUA), 6 de Maio de 1983 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: David Cronenberg; Produção: Claude Héroux; Argumento: David Cronenberg; Música: Howard Shore; Fotografia: Mark Irwin [filmado em Panavision, cor por Eastmancolor]; Montagem: Ronald Sanders; Direcção Artística: Carol Spier; Cenários: Alfred; Figurinos: Delphine White; Caracterização: Brigitte McCaughry; Efeitos Especiais: Gary Zeller, Dennis Pike, Dick Smith (Consultor de Caracterização); Direcção de Produção: Don Buchsbaum.

Elenco:

Jennifer O’Neill (Kim Obrist), Stephen Lack (Cameron Vale), Patrick McGoohan (Dr. Paul Ruth), Lawrence Dane (Braedon Keller), Michael Ironside (Darryl Revok), Robert Silverman (Benjamin Pierce), Larry Perkins [como Lee Broker] (Segurança), Mavor Moore (Trevellyan), Adam Ludwig (Arno Crostic), Murray Cruchley (Programador), Fred Doederlein (Dieter Tautz), Géza Kovács (Assassino na Loja de Música), Sonny Forbes (Assassino no Sótão), Jérôme Tiberghien (Assassino no Sótão), Denis Lacroix (Assassino no Celeiro), Elizabeth Mudry (Assassino no Celeiro), Victor Désy (Dr. Gatineau (as Victor Desy), Louis Del Grande (Primeiro Scanner), Anthony Sherwood (Scanner in Attic (as Tony Sherwood), Ken Umland (Scanner no Sótão), Anne Anglin (Scanner no Sótão), Jock Brandis (Scanner no Sótão), Jack Messinger (Scanner à Porta), Victor Knight (Dr. Frane), Karen Fullerton (Rapariga Grávida), Margaret Gadbois (Mulher no Centro Comercial), Terrance P. Coady (Segurança no Carro), Steve Michaels (Segurança Motorista), Malcolm Nelthorpe (Ray, Segurança Motorista), Nicholas Kilbertus (Segurança no Carro), Don Buchsbaum (Homem Grande no Centro Comercial), Roland Nincheri (Homem Grande no Centro Comercial), Kimberly McKeever (Guarda em Alucinação), Robert Boyd (Guarda em Alucinação), Graham Batchelor (Instrutor de Yoga), Dean Hagopian (Programador da CONSEC), Alex Stevens (Programador da CONSEC), Neil Affleck (Estudante de Medicina no Centro Comercial).

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