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The BroodO Dr. Raglan (Oliver Reed) é um excêntrico psicólogo que no seu retiro Summerfree Institute, trata os pacientes em sessões psicoplasmáticas, nas quais a raiva interior se liberta com alterações no corpo humano. A sua paciente preferida é Nola (Samantha Eggar), uma mulher à beira da demência, cujo ex-marido Frank (Art Hindle) desconfia que só piora nas mãos de um charlatão, sobretudo quando vê a filha voltar de uma visita à mãe com marcas no corpo. Quando estranhos assassinatos começam a vitimar aqueles que rodeiam a vida de Nola, Frank teme pela filha e decide confrontar Raglan pessoalmente.

Análise:

Lançado pela New World Pictures, o novo filme de David Cronenberg – a sua sexta longa-metragem – era um novo passo no caminho do realizador canadiano, numa abordagem alternativa – quer no que diz respeito aos meios usados, quer nos temas explorados – que o levava por um cinema de ficção científica de terror, como o demonstrado no seu anterior “Os Parasitas da Morte” (Shivers, 1975). Era um cinema feito sem espectacularidade de efeitos especiais, baseando-se na caracterização de ambientes em espaços aparentemente inócuos, numa construção de mistério onde o horror corporal e a transformação do corpo humano eram sempre os temas principais.

Escrito pelo próprio Cronenberg, “A Ninhada” conta-nos a história de uma quase seita que gira em volta do parapsicólogo Dr. Raglan (Oliver Reed), no eu retiro Summerfree Institute, onde trata os pacientes em sessões catárticas, no que ele chama psicoplasmáticas, nas quais incita à libertação da sua raiva, a qual se expressa pelo aparecimento de marcas no corpo. Uma das suas pacientes é Nola (Samantha Eggar), uma mulher em aparentemente alienação da realidade e com traumas de infância de que não se liberta. Quando, após a visita da pequena Candice (Cindy Hinds), a filha de Nola, o pai, Frank (Art Hindle), a vê com marcas no corpo, este confronta o Dr. Raglan, ameaçando deixar de trazer a filha a ver a mãe. Enquanto as sessões continuam, várias mortes estranhas vão acontecendo, como a da mãe de Nola (Nuala Fitzgerald), a do seu pai (Henry Beckman), e a da tutora de Candice (Susan Hogan), que passara um serão em casa de Frank. Os indícios apontam para pequenos seres, como crianças, e quando um deles é apanhado, morre subitamente, descobrindo-se que é uma criança envelhecida, com uma estranha morfologia interna, e que aparentemente não nasceu de parto, pois não tem umbigo. Quando Candice é raptada por algumas destas criaturas, Frank descobre, através de outro paciente a casa de campo do Dr. Raglan, e volta a confrontá-lo. Este confessa-lhe as criaturas são produto da raiva de Nola, obedecendo às suas mudanças de humor sem que a própria se aperceba. Para salvar Candice, Raglan convence Frank a conversar com Nola, para a acalmar, enquanto ele tenta resgatar a menina. Mas quando Frank se enoja ao ver o corpo de Nola, que gera casulos de onde nascem pequenos seres, as criaturas reagem matando Raglan e tentando matar Candice. Quando Frank mata Nola, as criaturas caem inertes, e ele pode assim salvar a filha, a qual ostenta algumas marcas no braço, talvez por efeito psicoplasmático.

Inspirando-se nas ideias da terapia Gestalt, Cronenberg complementa os intensos efeitos psicológicos da auto-confrontação do paciente com efeitos físicos como são o aparecimento de pústulas, vesículas ou eczemas no corpo. Tal é claro quando um paciente conta a Frank como o ataque do seu corpo se materializou num cancro. É mais uma vez a ideia da transformação do corpo humano, em consequência de qualquer ameaça externa, que leva ao cinema de horror corporal de Cronenberg. Mais uma vez parece haver uma espécie de crítica (ou desconfiança) em relação a comunidades fechadas/seitas/instituições paranormais – Starliner Towers (Shivers), Keloid Clinic (Rabid), Summerfree Institute agora em “A Ninhada” –, numa altura em que o realizador vivia o trauma de um divórcio complicado, e que terá exorcizado no grotesco personagem de Samantha Eggar.

Com uma história que começa de um modo banal, tornando-se aos poucos um mistério criminal, para terminar em toda a força numa explosão de horror, visceral e sangrenta, Cronenberg continuava a mostrar que com poucos efeitos e orçamento conseguia as doses certas de atmosfera, suspense e eficácia no que o tal horror nojento a que se votava dizia respeito. Ao mesmo tempo Cronenberg aborda temas como o trauma do divórcio, abusos sobre crianças, o peso do passado, numa metáfora sobre a materialização da negatividade humana de um modo físico.

O sucesso imediato do filme (rodado na região de Toronto, Ontário), levou a uma estreita colaboração entre Cronenberg e os produtores, que garantiria a sua voz autoral independente nos filmes seguintes, que seriam uma continuação de uma faceta em parte autobiográfica (de fobias, obsessões e realidades prementes – como neste caso o divórcio e a custódia da filha). Foi ainda o primeiro filme com banda sonora do – hoje muito premiado – Howard Shore. Tal sucesso não obstou a que o filme fosse censurado nalguns mercados, como nos Estados Unidos, onde a cena em que Nola lambe o feto acabado de gerar foi muito mal recebida.

Samantha Eggar em "A Ninhada" (The Brood, 1979), de David Cronenberg

Produção:

Título original: The Brood; Produção: Canadian Film Development Corporation (CFDC) / Elgin International Films Ltd. / Mutual Productions Ltd. / Victor Solnicki Productions; Produtores Executivos: Pierre David, Victor Solnicki; País: Canadá; Ano: 1979; Duração: 92 minutos; Distribuição: New World Pictures; Estreia: 25 de Maio de 1979 (EUA), 30 de Maio de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: David Cronenberg; Produção: Claude Héroux; Argumento: David Cronenberg; Música: Howard Shore; Fotografia: Mark Irwin [filmado em Panavision]; Montagem: Alan Collins; Direcção Artística: Carol Spier; Caracterização: Shonagh Jabour; Efeitos Especiais: Allan Cotter; Direcção de Produção: Gwen Iveson.

Elenco:

Oliver Reed (Dr. Hal Raglan), Samantha Eggar (Nola Carveth), Art Hindle (Frank Carveth), Henry Beckman (Barton Kelly), Gary McKeehan (Mike Trellan), Nuala Fitzgerald (Juliana Kelly), Susan Hogan (Ruth Mayer), Cindy Hinds (Candice Carveth), Michael Magee (Inspector), Robert A. Silverman (Jan Hartog), Joseph Shaw (Médico Legista), Larry Solway (Advogado), Reiner Schwarz (Dr. Birkin), Felix Silla (Criatura), John Ferguson (Criatura), Nicholas Campbell (Chris), Mary Swinton (Wendy), Jerry Kostur (Trabalhador de Construção), Chris Britton (Homem no Auditório).

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