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La grande illusion Durante a Primeira Guerra Mundia, o Capitão francês de Boeldieu (Pierre Fresnay) e o seu companheiro Tenente Maréchal (Jean Gabin), são abatidos sobre as linhas alemãs, num voo de reconhecimento. O seu captor é o muito nobre Capitão Rittmeister von Rauffenstein (Erich von Stroheim), que reconhece a nobreza de de Boeldieu, como ele também um aristocrata, e os convida para jantarem consigo, até serem transferidos. Chegados ao primeiro campo de prisioneiros, os dois homens confraternizam com os novos companheiros, com quem dividem tristezas e esperanças, e procuram escavar um túnel que dali os tire.

Análise:

Em 1909, Norman Angell publicou o livro “Europe’s Optical Illusion”, reeditado no ano seguinte, de forma alargada, sob o título “The Great Illusion”, defendendo que uma guerra na Europa seria absurda, quando os interesses são maioritariamente comuns. Tendo essa guerra total acontecido em 1914, a sua teoria viria a ser deitada por terra. Obsoleto de facto, o livro de Angell não o era de todo academicamente, pois a ideia de uma guerra na Europa como solução para algo continuava questionável principalmente depois do desfecho da Primeira Guerra Mundial. Foi isso que motivou Jean Renoir e Charles Spaak a pensar a ideia que resultaria no filme “A Grande Ilusão”, um manifesto pacifista, que tenta mostrar como a guerra é um absurdo, numa Europa com tanto em comum, onde aquilo que une as diversas pessoas ultrapassa em muito as diferenças políticas.

Tendo essa premissa como base, “A Grande Ilusão” é um filme pacifista, que tem as relações humanas como o seu cerne, mesmo (e principalmente) quando estas envolvem pessoas de diferentes nacionalidades, inimigos em teoria. Tal nota-se logo no início, quando os oficiais franceses, o aristocrata Capitão de Boeldieu (Pierre Fresnay) e o plebeu Tenente Maréchal (Jean Gabin), num voo de reconhecimento, são abatidos pelo Capitão Rittmeister von Rauffenstein (Erich von Stroheim), também ele um aristocrata, que os convida para almoçar à sua mesa, numa prova de que o cavalheirismo está acima de tudo. Depois de de Boeldieu e von Rauffenstein travarem amizade, os franceses são transferidos para um campo de prisioneiros, onde se adaptam à vida do campo, assistindo tanto ao entretenimento, com encenação de espectáculos de vaudeville, para entreter as tropas, como participando na escavação de um túnel para uma fuga. Isto, enquanto vão chegando as notícias das batalhas, tomadas e perdas, alternando-se as vitórias francesas e alemãs, com Maréchal a ir parar à solitária por incitar o canto da Marselhesa aquando de uma notícia de vitória francesa. Mas de Boeldieu e Maréchal acabam por ser levados de campo em campo, acabando em Wintersborn, dirigido por von Rauffenstein, e onde reencontram Rosenthal (Marcel Dalio), conhecido do primeiro campo. Aí de Boeldieu engendra um plano, avisando Maréchal e Rosenthal que tem como os ajudar a fugir. De Boeldieu organiza uma rebelião, e quando esta é controlada e feita a contagem ele está em falta, em fuga, levando atrás de si a guarda, possibilitando que, por outra zona, os seus dois amigos fujam sem serem vistos. Quando os guardas se preparam para disparar von Rauffenstein impede-os, e em nome da sua amizade pede a de Boeldieu que volte. Este recusa e é ferido mortalmente. Quanto a Maréchal e Rosenthal, discutem e chegam a separar-se, quando Rosenthal se magoa num pé. Mas voltam a reunir-se e vão pedir abrigo na casa da alemã Elsa (Dita Parlo), que perdeu o marido e os irmãos na guerra. Esta trata-os bem, e Maréchal e ela apaixonam-se, ficando a promessa do regresso dele, quando Rosenthal fica em condições de caminhar e eles decidem partir.

Um dos mais consagrados autores franceses de sempre, Jean Renoir, filho do pintor Pierre-Auguste Renoir, criava já obras importantes na cinematografia francesa, desde a era muda, quando em 1934 encontrou dificuldades em distribuir o seu novo filme “A Grande Ilusão”, no qual a Primeira Guerra Mundial era vista, não por si mesma, mas como uma reflexão sobre o estado da Europa nos anos 30.

Passando-se quase completamente entre campos de prisioneiros, “A Grande Ilusão” tem como temas principais as relações inter-classes, e o papel das antigas classes sociais na sociedade do pós-guerra. No centro encontramos dois oficiais de classes aristocratas, que por isso se reconhecem como pares, discutem amizades comuns, lugares onde já jantaram, e falam por vezes em inglês para que a ralé de um outro ou outro país não os compreenda. De Boeldieu e von Rauffenstein (com Stroheim a desenvolver uma relação próxima com Renoir e a contribuir para muitas coisas na definição do seu personagem) sabem pertencer a uma classe em vias de extinção, dedicando-se às suas causas por um antiquado sentido de dever, e sabendo que serão substituídos por pessoas que não têm os mesmos valores. É aquilo a que von Rauffenstein chama «a encantadora herança da Revolução Francesa». No pólo oposto temos Maréchal, um mecânico, e Rosenthal, um judeu de uma família de Leste, que vai fazendo fortuna em França. São os representantes na nova ordem, menos preocupados com ideais, e que percebem que a guerra não passa dessa nominal «Grande Ilusão». Neste caso, Maréchal e Rosenthal têm menos de factual em comum que von Rauffenstein e de Boeldieu, embora os una a experiência e dificuldades de vidas esforçadas e difíceis, mesmo que por realidades diferentes. Por isso os vemos discutirem frequentemente, sabendo que tornarão sempre a reconciliar-se e a estar presentes um para o outro.

Através de um carácter episódico, e até anedótico por vezes, assistimos a inúmeros momentos, que nos dão a conhecer homens e personalidades, e que acabam sempre numa ideia fundamental: não existem diferenças nem separações que não sejam causadas por interesses políticos. Por isso vemos como todas as nacionalidades confraternizam e se respeitam, e as diferentes classes sociais interagem com nobreza, mesmo que se refiram a soldados inimigos. Essa ideia de uma pan-Europa que se devia erguer contra guerras está expressa na relação entre Maréchal e Elsa, casal que a guerra une e a que deixa a esperança (porventura nunca concretizada) de um encontro para restaurar uma Europa melhor – o tal sonho que o advento dos fascismos e a Segunda Guerra Mundial vieram destruir.

Nesta realidade emergente, não se deve esquecer o crescente anti-semitismo, que Renoir rebate com o personagem de Rosenthal, de uma família novo-rica, é certo, mas de traços humanitários, como se vê no modo como partilha sempre a sua comida com todos. Através da amizade dos vários personagens com o simpático Rosenthal, Renoir quebrava o estereotipo, como que dizendo que também os judeus são parte da sociedade que se quer.

Através de uma história longa, de muitos momentos distintos, Renoir mostra porque sempre foi prezado pelo lado humanista dos seus filmes. Os seus personagens são pessoas palpáveis que nos inspiram simpatia, e que, por isso, nos puxam para respeitarmos os seus pontos de vista e olhares sobre o mundo. Há como que um olhar sereno, que aponta causas, erros e transformações, sem dramatismo ou sentido de tragédia. E há a ideia de que são as convenções de classe os maiores campos de prisioneiros.

Notável é ainda o facto de Renoir ter filmado em paisagens naturais (na Alsácia – a mais germânica região francesa de então –, uma vez que filmar na Alemanha nazi seria impensável), sem nunca mostrar uma cena de combate, reforçando assim a vertente pacifista do seu filme.

Com um prémio em Veneza (Prémio Volpi, criado propositadamente, por não parecer bem oferecer o Prémio Mussolini), “A Grande Ilusão” foi decretada «inimigo público cinemático número um», por Goebbels e e proibido na Alemanha Nazi. Foi um enorme sucesso em França, e viria ainda a receber vários prémios da crítica nos Estados Unidos, quando ali chegou, apenas em 1938, sendo o primeiro filme estrangeiro nomeado para o Oscar de Melhor Filme. Considerado hoje, unanimemente, uma obra-prima, o filme de Renoir é apontado como um dos melhores exemplos do grande cinema do início da era sonora. De Orson Welles a Woody Allen, muitas têm sido as figuras de proa do cinema mundial que elegeram “A Grande Ilusão” como um dos melhores filmes de sempre.

Pierre Fresnay e Erich von Stroheim em "A Grande Ilusão" (La grande illusion, 1937), de Jean Renoir

Produção:

Título original: La grande illusion; Produção: Réalisations d’art cinématographique (RAC); Produtores Executivos: ; País: França; Ano: 1937; Duração: 113 minutos; Distribuição: Réalisation d’art cinématographique (RAC) (França); Estreia: 4 de Junho de 1937 (França), 1 de Novembro de 1937 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean Renoir; Produção: Albert Pinkovitch [não creditado], Frank Rollmer [não creditado]; Argumento: Charles Spaak, Jean Renoir; Música: Joseph Kosma; Fotografia: Christian Matras [preto e branco]; Montagem: Marguerite Renoir, Marthe Huguet; Design de Produção: Eugène Lourié; Cenários: Eugène Lourié; Figurinos: René Decrais; Caracterização: Raffels; Direcção de Produção: Raymond Blondy.

Elenco:

Jean Gabin (Tenente Maréchal), Dita Parlo (Elsa), Pierre Fresnay (Capitão Boeldieu), Erich von Stroheim (Capitão von Rauffenstein), Julien Carette (Cartier, o Actor), Georges Péclet (Oficial), Werner Florian (Sargento Arthur), Jean Dasté (Professor), Sylvain Itkine (Tenente Demolder), Gaston Modot (O Engenheiro), Marcel Dalio (Rosenthal).

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