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Götter der Pest Franz Walsch (Harry Baer) é libertado da prisão, e vai começar a sua nova vida procurando as velhas amizades, começando pela namorada, Johanna (Hanna Schygulla), a sua mãe (Lilo Pempeit) e irmão Marian (Marian Seidowsky). A descoberta de que a namorada o traiu, leva-o a esfriar o interesse nela, dispersando-se por outras mulheres, até encontrar Margarethe (Margarethe von Trotta), que desde o início, o procurava. Em conjunto vão viver uma relação a três com Günther (Günther Kaufmann), com quem vão preparar alguns assaltos. Mas a morte de Marian às mãos de Günther põe a polícia no encalço deles, depois de traídos po Johanna.

Análise:

Ainda no domínio dos filmes de gangsters, desconstruídos de um modo cru e quase desligado, que nos recorda o seminal “O Acossado” (À bout de souffle, 1960), de Jean-Luc Godard, Rainer Fassbinder continuava uma espécie de trilogia, na qual voltava a repetir nomes como o protagonista Franz Walsch ou a secundária Magdalena Fuller. Mesmo que a história não tenha necessariamente continuidade em “O Amor é Mais Frio do Que a Morte” (Liebe ist kälter als der Tod, 1969), ou “O Soldado Americano” (Der amerikanische Soldat, 1970), há algo que as une, na frieza dos detalhes e comportamentos, e modo distante e desligado de a contar, naquilo que era já a transição de um vanguardismo do primeiro filme para um modo narrativo já um pouco mais convencional.

Iniciando-se com a saída da prisão de Franz Walsch (Harry Baer), vemos como esse pequeno criminoso vai tentar reatar laços do passado, como a sua antiga namorada, Johanna (Hanna Schygulla), que embora lhe seja dedicada, lhe confessa tê-lo traído, à sua mãe (Lilo Pempeit) e irmão Marian (Marian Seidowsky), passando pelo antigo amigo Günther (Günther Kaufmann), conhecido como Gorila. Aborrecendo-se com Johanna, Franz troca-a por Margarethe (Margarethe von Trotta), e conjuntamente com Günther, vivem uma vida a três. Mas a morte de Marian leva a polícia ao encalço de Franz, o qual acaba traído por Johanna e Ingrid (Magdalena Fuller), outra mulher das suas relações. Quando o trio planeia um assalto a um supermercado, a polícia já está à sua espera e o assalto acaba em tragédia.

Um pouco como nos vinha habituando, Fassbinder contava uma história de gangsters, mas num ritmo e forma diferentes dos convencionais. O seu protagonista, Franz Walsch é uma pessoa reservada, de poucas palavras, que conhecemos principalmente pelas decisões tomadas, num enredo que o coloca a procurar reatar laços, passando de mulher em mulher, enquanto parece encontrar um rumo, com aquela que desde o primeiro momento teve olhos para ele, interpretada pela também realizadora Margarethe von Trotta. Voltamos a uma história meio policial, de polícias secundários, de métodos e motivações dúbias, traições amorosas, relações familiares ambíguas (novamente com um irmão e mãe difíceis de catalogar). A história chega-nos através de encontros fortuitos, momentos de pausa (em cabarés, casas de jogo, antros de pornografia), e nas relações amorosas de Franz onde, apesar do mudo despudorado como a nudez frontal de homens e mulheres nos é mostrada, todos os gestos transparecem frieza e insensibilidade.

Apesar de seguir as regras do raccord e desenvolvendo as suas sequências em planos de campo/contra-campo, Fassbinder continua a desafiar visualmente o espectador, seja com planos fechados onde o ambiente circundante nos seja velado por grandes planos em torno do seu objecto, seja em cenários minimalistas, especialmente em interiores. A isto juntam-se alguma experiências de planos que se movem com os olhos dos interlocutores, como se acompanhassem o seu movimento quando falam com alguém. No fundo é ainda a lógica teatral – como que numa presença invisível de um palco – a ditar regras ao modo de filmar de Fassbinder. O ritmo é sempre pausado, e há uma nítida intenção de nos fazer perder a referência temporal, com sequências a sucederem-se de modo quase abstracto, sem que haja necessariamente uma ligação visível entre elas.

A própria fotografia, num saturado preto e branco, ajuda a conferir ao filme aquilo que lhe dá a imagem que perdura, que é a de uma aridez emocional, frieza de comportamentos, num quase nihilismo que transparece em acções e decisões sem uma motivação ulterior que não seja um existencialismo que aceita a futilidade e ausência de esperança como regras do quotidiano.

Elogiado pela crítica, e merecedor de alguns prémios menos conhecidos, “Os Deuses da Peste” permanece, ainda hoje, em grande parte, uma obra por descobrir e interpretar.

Margarethe von Trotta e Harry Baer em "Os Deuses da Peste" (Götter der Pest, 1970), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Götter der Pest; Produção: Antiteater-X-Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 87 minutos; Distribuição: Filmverlag der Autoren (RFA); Estreia: 4 de Abril de 1970 (Áustria).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Rainer Werner Fassbinder, Michael Fengler; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Música: Peer Raben; Fotografia: Dietrich Lohmann [preto e branco]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch; Design de Produção: Kurt Raab; Direcção de Produção: Christian Hohoff, Peer Raben [Wilhelm Rabenbauer].

Elenco:

Hanna Schygulla (Johanna Reiher), Margarethe von Trotta (Margarethe), Harry Baer (Franz Walsch), Günther Kaufmann (Günther), Carla Egerer (Carla Aulaulu), Ingrid Caven (Magdalena Fuller), Jan George (Polícia), Lilo Pempeit (Mãe), Marian Seidowsky (Marian Walsch), Micha Cochina (Joe), Yaak Karsunke (Comissário), Hannes Gromball (Gerente do Supermercado), Rainer Werner Fassbinder (Cliente de Pornografia).

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