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In the Mouth of Madness Narrando a história em flashback, agora que está internado por loucura, John Trent (Sam Neill), um investigador de seguros, conta-nos como foi contratado por uma editora de livros, para procurar o autor Sutter Cane (Jürgen Prochnow), um famoso escritor de livros de terror, desaparecido antes que o seu novo livro fosse publicado. Perturbado pelos sonhos que vai tendo ao ler a obra de Cane, e convencido de muitos dos seus leitores as tomam como reais, Trent vai procurar a fictícia povoação de Hobb’s End, acreditando que ela existe para lá dos livros de Cane, e que este se esconde nela, criando a trama do seu novo livro, que nesse lugar ganha vida própria.

Análise:

Escrito alguns anos antes por Michael De Luca, um argumentista já antes envolvido em vários números da série “Pesadelo em Elm Street”, criada por Wes Craven, “A Bíblia de Satanás” é um exemplo da capacidade de John Carpenter em surpreender o seu público com originalidade, e fugindo a estereótipos fáceis. O filme é o terceiro volume daquilo que o próprio Carpenter chamaria a sua «Trilogia do Apocalipse», que começou com “Veio do Outro Mundo” (The Thing, 1982) e continuou com “O Príncipe das Trevas (Prince of Darkness, 1987). É também uma espécie de homenagem velada à obra de H. P. Lovecraft (o seu imaginário está presente no hospício, nas criaturas, no mundo com portais para infernos, e nas citações dos livros que constituem a história), onde o título parece uma referência ao livro de Lovecraft “At the Mountains of Madness”. Também a obra de Stephen King (com o seu gosto pelas paisagens rurais de New England) parece ser uma referência, com o próprio King a ser citado no filme.

Com tais referências, Carpenter não segue lugares comuns do terror, preferindo construir uma história complexa que começa logo com a loucura do seu protagonista, John Trent (Sam Neill), internado e isolado pelo seu comportamento perturbado, que conta ao médico Dr. Wrenn (David Warner) como ali foi parar. Trent era um investigador de seguros, que um dia foi chamado para resolver o caso de um escritor desaparecido. Sutter Cane (Jürgen Prochnow), um famoso escritor de livros de terror, tinha já um culto de leitores fanáticos, que crêem que as suas histórias são reais, o que começa a perturbar Trent, quando as começa a ler para perceber quem é Cane. Acreditando que este se refugiou na aldeia abandonada de Hobb’s End, que nem está nos mapas, Trent viaja para lá com a editora Linda Styles (Julie Carmen). Não só o par encontra Cane, como estranhas ocorrências começam a colocá-los em perigo, aos poucos convencendo Trent de que tudo o que acontece naquela aldeia não é mais que tudo o que Cane vai escrevendo no seu novo livro. Recusando-se a não ser mais que uma figura da ficção de Cane, e após lutar pela própria vida, escapando a Cane e Styles, Trent tenta fugir, e avisar o editor (Charlton Heston), a não publicar o livro. Ao perceber tudo o que aconteceu em Hobb’s End é já passado, que o livro já foi publicado e que está um filme a caminho, Trent deixa-se cair na loucura.

Após vermos Trent numa cela, completamente transtornado, é legítimo perguntarmo-nos se aquilo que nos vai ser narrado é real ou produto de uma mente perturbada. E esse nível de dúvida entre realidade e loucura manter-se-á durante toda a história. Contado em flashback, “A Bíblia de Satanás” fala-nos de um investigador de seguros e possíveis fraudes, como homem cínico, numa espécie de detective noir, onde a moral pouco importa (como ele confessa, já denunciou amigos). A sua investigação leva-o a uma aldeia pouco mais que fantasma, brilhantemente filmada. Nela todos os elementos de pacatez rural se parecem revoltar, sejam as crianças, o bonito hotel de província, a sua simpática gerente, ou o próprio quadro na parede da recepção. Ali a noite oprime, as pessoas são surreais, e até a igreja ortodoxa é negra e ameaçadora.

Cedo (mesmo antes de chegar a Hobb’s End), Trent tem pesadelos que o colocam dentro do livro, e em breve percebe que a aldeia é um ciclo vicioso de onde não pode sair, pois aquilo que pensava ser o seu livre-arbítrio poderá ser apenas a vontade do autor. É quase uma perversão sobre criador e obra, onde afinal todos os personagens são criaturas do seu autor. Não espanta por isso que, no final, escapado da cela onde estava internado, Trent veja que nada é o que imaginava, e tal como a loucura terá afectado todos os que leram o livro, também ele está tão afectado que nem se lembra que foi o actor do filme que do livro resultou. Fecha-se o ciclo de filme dentro do filme, obra dentro da obra, actor dentro da sua própria história.

É toda esta lógica circular e surreal, de mistura de realidade com ficção, e jogos de gato e do rato entre personagens, autores e a percepção de quem é quem, que torna “A Bíblia de Satanás” um filme tão complexo como excitante. A isso junta-se a atmosfera infernal, da cinematografia, da noite de Hobb’s End às estradas labirínticas que a circundam, do aspecto tenebroso da igreja ao azul em que Trent vê a sua fuga, da noite urbana, húmida e ameaçadora, ao interior do hotel vivo e horrífico. É toda uma atmosfera de pesadelo, baseada em repetições (o ciclista assustador, o polícia que espanca a sua vítima, a estrada que leva sempre ao mesmo lugar), e incertezas entre sonho e vigília, que levam a uma paranóia de horror exacerbada no aparecimento das criaturas tão reminiscentes da obra de Carpenter (um misto de máscaras e animatronics) de verdadeiro pesadelo.

A somar a tudo isto, temos a interpretação de Sam Neill, repleta de paranóia e loucura doentia. É ele o nosso portal para um pesadelo enigmático, do qual parece não haver fuga, nem que seja pela lógica de percebermos o que de facto aconteceu, num contexto que, apesar do título em português, nada tem a ver com a iconografia satânica, mas se relaciona fortemente com o imaginário de H. P. Lovecraft.

Sam Neill em "A Bíblia de Satanás" (In the Mouth of Madness, 1994), de John Carpenter

Produção:

Título original: In the Mouth of Madness; Produção: New Line Cinema; Produtor Executivo: Michael De Luca; País: EUA; Ano: 1994; Duração: 95 minutos; Distribuição: New Line Cinema; Estreia: 10 de Dezembro de 1994 (Noir in Festival, Itália), 3 de Fevereiro de 1995 (Canadá), Fevereiro de 1995 (Fantasporto, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Carpenter; Produção: Sandy King; Produtor Associado: Artist W. Robinson; Argumento: Michael De Luca; Música: John Carpenter, Jim Lang; Fotografia: Gary B. Kibbe [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Montagem: Edward A. Warschilka; Design de Produção: Jeff Ginn; Direcção Artística: Peter Grundy; Cenários: Elinor Rose Galbraith; Figurinos: Robin Michel Bush; Caracterização: Donald Mowat; Efeitos Especiais: Erin Haggerty, Susan Mallon; Efeitos Visuais: Bruce Nicholson; Direcção de Produção: Adrianna A.J. Cohen.

Elenco:

Sam Neill (John Trent), Julie Carmen (Linda Styles), Jürgen Prochnow (Sutter Cane), David Warner (Dr. Wrenn), John Glover (Saperstein), Bernie Casey (Robinson), Peter Jason (Mr. Paul), Charlton Heston (Jackson Harglow), Frances Bay (Mrs. Pickman), Wilhelm von Homburg (Simon), Kevin Rushton (Guarda #1), Gene Mack (Guarda #2), Conrad Bergschneider (Maníaco de Machado), Marvin Scott (Repórter), Katherine Ashby (Receptionista), Ben Gilbert (Jovem Adolescente), Dennis O’Connor (Polícia), Paul Brogren (Rapaz Magro), Sharon Dyer (Mulher Sem Abrigo), Sean Ryan (Rapaz de Bicicleta).

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