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Universos Paralelos #04: O apocalipse de John Carpenter

Segunda-feira, dia 23 de Abril, teremos, no podcast Segundo Take, o quarto episódio de Universos Paralelos da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta).

Desta vez o tema sugerido é o apocalipse, visto por John Carpenter, naquilo que foi considerado uma trilogia de filmes temática, e que poderá ser encontrado aqui:
podcast

 

O apocalipse de John Carpenter

As trilogias temáticas, ao contrário daquelas ligadas por continuidade narrativa, podem conter no ADN que as liga uma variedade de diferentes características, sejam elas um local comum, um actor recorrente ou um tema consistente entre todas as obras que constituem o triunvirato. Alguns exemplos destas trilogias são: a Trilogia do Corneto, de Edgar Wright e Simmon Pegg — “Shaun of the Dead” (2004), “Hot Fuzz” – Esquadrão de Província (Hot Fuzz, 2007) e “The World’s End” (2013); a Trilogia da Solidão, de Frederico Fellini — “A Estrada” (La Strada, 1954), “O Conto do Vigário” (Il Bidone, 1955) e “As Noites de Cabíria” (Le notti di Cabiria, 1957); ou a Trilogia do Apartamento, de Roman Polanski — “Repulsa” (Repulsion, 1965), “A Semente do Diabo” (Rosemary’s Baby, 1968) e “O Inquilino” (The Tenant, 1976).

John Carpenter

John Carpenter, cuja paixão maior eram os filmes do faroeste americano, viria a ser reconhecido, algo acidentalmente, como um dos mestres do género de terror. Quis o destino que “Halloween – O Regresso do Mal” (1978) fosse uma obra-prima e o percursor de todo o subgénero de slashers que povoaram os anos oitenta, encerrando o realizador na categoria de filmes de género. O autor, pouco apreciado no seu país de origem — nas palavras do próprio: «em França sou um autor; na Alemanha, um cineasta; no Reino-Unido um realizador de filmes de género; nos EUA um vadio» — construiu uma filmografia recheada de filmes de culto, venerados por minorias ao longo dos anos que, recentemente, começaram a ganhar algum estatuto. Três desses filmes — muito diferentes entre si, e representantes de fases distintas da sua carreira — constituem uma trilogia temática, a Trilogia do Apocalipse: “Veio do Outro Mundo” (The Thing, 1982), “O Príncipe das Trevas” (Prince of Darkness, 1987) e “A Bíblia de Satanás” (In The Mouth of Madness, 1994). Produto da década de cinquenta, crescendo a temer a bomba atómica e a ler o Livro das Revelações na escola primária, Carpenter acabou por realizar uma série de filmes focados no fim — seja o fim dos tempos, das pessoas, da ordem ou da civilização. Isto pela mão da própria humanidade, como não poderia deixar de ser.

“Veio do Outro Mundo”, protagonizado por Kurt Russel e estreado em 1982, é baseado na novela “Who Goes There?” de John W. Campbell, Jr., adaptada previamente ao cinema por Howard Hawks e Christian Nyby no filme de 1951 “A Ameaça” (The Thing from Another World). Com o passar dos anos, tornou-se um filme de culto e tem sido largamente reconhecido como um dos melhores filmes da sua carreira, mas o fracasso de crítica e público à data de estreia devastou John Carpenter e deu o primeiro golpe na sua relação com as grandes produtoras de Hollywood. O filme conta a história de uma forma de vida extraterrestre e parasítica que assimila outros organismos, imitando-os. Esta infiltra uma estação de investigação na Antártida, tomando a aparência dos investigadores que absorve e gerando desconfiança e paranóia entre eles. Um grupo encurralado em situações extremas é um mote recorrente nos filmes de Carpenter, que aqui subverte o template clássico do filme de cowboys encurralados, transpondo uma ameaça inicialmente externa para o seio do grupo onde qualquer um pode ser o inimigo mortífero disfarçado.

Carpenter tira proveito do ecrã panorâmico em cenas de interior com uma composição deliberada e cuidada no sentido de dar a conhecer ao espectador pormenores e detalhes vitais ao desenrolar da acção que as próprias personagens envolvidas na cena não aprendem. O realizador consegue também um feito raro: o equilíbrio perfeito entre a tensão, a desconfiança e o terror sugerido com o horror gráfico absolutamente grotesco. Os efeitos especiais práticos são de outra era, mas mantêm a vitalidade e eficácia. A cada minuto que passa, corremos o risco de assistir a transformações cada vez mais inesperadas e violentas. No final, a incerteza deixa em aberto a possibilidade de o fim do mundo não ter sido totalmente evitado, mas apenas adiado.

Em 1987, depois de abandonar o studio system na sequência do fracasso comercial de “As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim” (Big Trouble in Little China, 1986), Carpenter voltou aos filmes de baixo orçamento com “O Príncipe das Trevas”, regressando também ao cenário em que isola um grupo de pessoas num local físico em luta contra forças desconhecidas. Desta vez, um padre (o colaborador habitual Donald Pleasence) convida um especialista de física quântica, o Professor Howard Birack (Victor Wong, outro repetente), e os seus alunos para o ajudarem na investigação de um cilindro que contém um misterioso líquido verde em permanente rotação na cave de uma igreja abandonada de Los Angeles. Ciência e religião confluem em mais uma variação do Homem contra forças sobrenaturais mal-intencionadas, neste caso possivelmente o filho do Anti-Deus, divindade do domínio da anti-matéria, pronto a ser libertado para trazer o fim da humanidade como a conhecemos. Carpenter assinou com o pseudónimo Martin Quatermass — uma homenagem à personagem principal de “O Monstro do Espaço” (The Quatermass Xperiment, Val Guest, 1955) — um argumento ágil inspirado num pesadelo da produtora e amiga Debra Hill, integrado na narrativa como o sonho colectivo que poderá ser uma mensagem admonitória do futuro. “O Príncipe das Trevas” é normalmente considerado um filme menor do seu autor, mais recordado pela participação de Alice Cooper e por alguns eficientes efeitos práticos do que pelo seu valor narrativo ou estético.

Depois de duas experiências independentes, Carpenter voltou a dar-se mal com um filme para uma major de Hollywood, “Memórias de um Homem Invisível” (Memoirs of an Invisible Man, 1992) — neste caso para a Warner Bros. —, uma nova tentativa de expandir os horizontes do nicho de terror em que se sentia constrangido. Na ressaca deste novo falhanço, realizou um argumento de Michael De Luca — o jovem prodígio da New Line Cinema — que coloca no centro da trama Sutter Cane, um escritor inspirado no cruzamento da popularidade de Stephen King com o universo e escritos de H. P. Lovecraft. Em “A Bíblia de Satanás”, o fim do mundo é preconizado pela palavra, ou seja, pelos populares romances do autor de obras de terror que, depois de fidelizar uma legião de fãs, os leva à loucura com a sua última obra, instrumento que serve literalmente como um portal para os monstros de outrora, referências aos Grandes Antigos dos Mitos de Lovecraft. Este é um filme algo atípico na carreira de Carpenter, mas que veio demonstrar a vitalidade e versatilidade do realizador ao criar um filme de ritmo frenético em que as fronteiras da realidade e da ficção se esbatem, dando origem a uma atmosfera onírica e sinistra que se instala numa lógica de pesadelo de onde parece impossível escapar. A descolagem do seu estilo habitual tem reflexo inclusivamente na banda sonora, onde minimiza os elementos electrónicos em favor de uma sonoridade à base de guitarras e riffs de heavy-metal. “A Bíblia de Satanás” não só encerra a Trilogia do Apocalipse de John Carpenter, como é, provavelmente, o seu último grande filme.

António Araújo, Dezembro de 2017

 

Fontes primárias

Filmografia

  • Veio do Outro Mundo (The Thing, 1982)
  • O Príncipe das Trevas (Prince of Darkness, 1987)
  • A Bíblia de Satanás (In The Mouth of Madness, 1994)

Fontes secundárias

Bibliografia

  • Harrison, M. (2016) ‘John Carpenter’s Apocalypse trilogy: a look back’. In Den of Geek [consult. Dezembro de 2017]. Disponível em
  • Muir, J. K. (2000) The Films of John Carpenter. Jefferson, NC: McFarland & Co.

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