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Halloween Na noite de Halloween, em 1963, na pacata cidade de Haddonfield, Illinois, Michael Myers (Will Sandin), um miúdo de 6 anos, assassina a irmã mais velha (Sandy Johnson) à facada. Passados 15 anos, no mesmo dia de Halloween, Michael (Nick Castle), agora com 21 anos, foge do sanatório onde tem estado encarcerado, e regressa a Haddonfield. Aí, Michael interessa-se pela jovem Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) e pelo seu grupo de amigos, preparando mais uma matança para a noite de Halloween, onde a única pessoa que sabe ao que ele vai, o persegue e tenta parar é o seu psiquiatra, Dr. Sam Loomis (Donald Pleasance).

Análise:

Em 1978, John Carpenter era um nome que desbravava caminho no cinema alternativo dos Estados Unidos, depois de começar a filmar na adolescência, e lançar uma série de curtas-metragens rodadas na universidade, entre as quais “The Resurrection of Broncho Billy” (1970), com o qual ganhou o Oscar de melhor Curta-metragem desse ano. Nele, Carpenter mostrava já a sua inclinação para homenagear o cinema com que crescera, geralmente filmes de acção, ficção científica, terror ou western, em particular de série B. Depois do spoof de ficção científica “Estrela Negra” (Dark Star, 1974) e do thriller violento “Assalto à 13.ª Esquadra” (Assault on Precinct 13, 1976), filmes nos quais Carpenter escreveria o argumento, montaria e comporia a banda sonora, o realizador chegaria à sua primeira longa-metragem de terror, e ainda hoje, filme que é o ponto mais alto da sua carreira.

Produto da colaboração com Debra Hill, com quem Carpenter escreveria vários outros filmes, e inspirado por uma ideia do produtor Irwin Yablans, intitulada “The Babysitter Murders”, “O Regresso do Mal” foi, segundo o autor, o filme que ele gostaria de ter visto em adolescente, um thriller violento, num clima quase surreal ou onírico, em torno de jovens de uma cidade pacata, que passam a ser perseguidos e mortos por um assassino sem rosto. Tal é a história de Michael Myers, uma criança que, na noite de Halloween, sem razão aparente esfaqueou a irmã mais velha. Agora, vinte anos depois, descobre-se que Myers fugiu do sanatório onde estava encarcerado, e regressou à cidade de onde é natural. Isto apesar dos esforços vãos do seu psiquiatra, Dr. Loomis (Donald Pleasance) que vê nele uma encarnação do mal, que devia ser encarcerado para sempre. Em Haddonfield, acompanhamos Laurie (Jamie Le Curtis), e o seu grupo de amigos, os quais caem debaixo do olhar de Myers, agora munido de uma máscara, e habitando às escondidas na sua antiga casa. Quando o Dr. Loomis chega a Haddonfield, os crimes já começaram, com Myers ao abrigo da noite, a espreitar oportunidades de surpreender os jovens, até ser detectado por Laurie, a única que lhe consegue fazer frente e, com a intervenção oportuna do Dr. Loomis, sobreviver.

Quando estreou “O Regresso do Mal”, John Carpenter não fazia ideia do que tinha entre mãos. Concebendo-o apenas como um devaneio de adolescente, o realizador conseguia logo, numa produção independente, filmada com um orçamento de 300 000 dólares, em apenas vinte dias, um sucesso incrível que terá chegado aos 70 milhões de dólares, internacionalmente. Teve o reconhecimento do público e da crítica e, talvez mais importante que tudo isso, conseguiu criar um subgénero, e nele uma linguagem própria, que seria para sempre imitada. Aquilo que ficaria conhecido como o género slasher (um subgénero do terror que gira à volta da presença de um assassínio em série, que mata indiscriminadamente, com arma branca, de forma muito violenta, perseguindo habitualmente grupos de jovens) deve muito a “O Regresso do Mal”, mesmo que a sua génese possa ser encontrada em “Psico” (Psycho, 1960) de Alfred Hitchcock, e popularizado em Itália no género giallo nos anos 60, 70 e 80 do século passado.

Mas foi, sem dúvida, John Carpenter e o seu “O Regresso do Mal” a popularizarem a tendência, que tantos filmes originou nos anos 80, repletos de sequelas e mitologias próprias. No centro há sempre um assassino de intenções indecifráfeis, um passado aterrorizador, e um contexto ligado à perda da inocência dos jovens, com os comportamentos sexuais a serem motivo de julgamento. Carpenter terá dito que isso foi apenas uma coincidência, mas, verdade ou não, são as amigas promíscuas da personagem de Jamie Lee Curtis a morrer, e a mais recatada e púdica Laurie, por ela interpretada, a salvar-se, criando a primeira de uma longa linhagem de final girls que sobrevivem de sequela em sequela, para criar uma espécie de heroína trágica muito peculiar. E se a personagem de Jamie Lee Curtis é central no desenvolvimento da mitologia, é ainda mais admirável que este é o filme de estreia da actriz, que tinha já pedigree, sendo filha de dois mitos da sétima arte: Tony Curtis e Janet Leigh (por sinal a estrela de “Psico”).

Mas voltando ao filme, o que surpreende é a forma como Carpenter fez tanto com tão pouco. Filmando em cenários naturais num bairro residencial como tantos outros, Carpenter aproveitou a falta de equipamento luminoso para usar a penumbra a seu favor, a falta de estrutura para usar câmaras fixas para criar uma nova linguagem do que convenientemente se chama «câmara subjectiva» (a câmara que se move como se fossem os olhos de um personagem que percorre o cenário, como por exemplo na longa sequência inicial) – não criada por si, mas nunca usada com tal eficácia –, e a própria banda sonora, de sua autoria (composta em apenas quatro dias e inspirada em “O Exorcista” (The Exorcist, 1973), de William Friedkin, e em “Suspiria” (1977) de Dario Argento), como um meio de enervar e preocupar o espectador, sem o uso do banal jump scare (ruídos súbitos para assustar o espectador, e sem qualquer correspondência na acção).

Com um perfeito domínio da matéria em mãos, Carpenter não se limita pela obrigação de criar momentos de gore ou sustos de cinco em cinco minutos, preferindo conquistar o público na eminência de uma ameaça que nunca se compreende totalmente, num assassino cuja motivação é inescrutável, e cujo comportamento (com uma máscara do capitão Kirk da série “Star Trek”), é peculiar, aparecendo e desaparecendo sem que o consigamos prever, e por isso tornando a sua ameaça progressivamente mais assustadora, ao mesmo tempo que o dia se vai tornando noite.

Dizendo pouco (isto é, o seu assassino não profere uma palavra), mostrando pouco, Carpenter consegue criar o ambiente de uma ameaça invencível, muito graças ao medo mostrado por Jamie Lee Curtis, e às descrições feitas pelo arauto da desgraça, o personagem de Donald Pleasance que, sem sabermos porquê, já nos convenceu estarmos na presença de uma espécie de anticristo. Esse clima de ameaça, reforçado pelas perseguições silenciosas e discretas, pelas aparições e desaparecimentos, pelas sombras e indícios de presenças misteriosas, constituem o cerne de uma ameaça, sempre presente, e que sabermos será violenta e impiedosa.

São estes os ingredientes, tantas vezes imitados, e que aqui funcionam na perfeição, como um modelo ímpar, que perturba, assusta e enerva o espectador, e por isso criaram um clássico, o qual se tornaria uma imagem de marca para o próprio John Carpenter.

Como resultado foram produzidas sete sequelas, entre 1981 e 2002, a segunda das quais também escrita por Carpenter e Debra Hill. A estas acresce o remake de 2007 e respectiva sequela de 2009, ambas realizadas por Rob Zombie. Mais relevante será ainda a enorme série de filmes que seguem a mesma temática, e que marcaram cinema de terror dos anos 80 e 90, onde, ironicamente se contam as próprias sequelas de “Psico” de Hitchcock, o filme que inspirou John Carpenter.

Jamie Lee Curtis em "O Regresso do Mal" (Halloween, 1978), de John Carpenter

Produção:

Título original: ; Produção: Compass International Pictures, Falcon International Productions; Produtores Executivos: Irwin Yablans, Moustapha Akkad [não creditado]; País: ; Ano: 1978; Duração: 89 minutos; Distribuição: Compass International Pictures; Estreia: 25 de Outubro de 1978 (EUA), 16 de Novembro de 1979 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Carpenter; Produção: Debra Hill, John Carpenter [não creditado]; Produtor Associado: Kool Marder [como Kool Lusby]; Argumento: John Carpenter, Debra Hill; Música: John Carpenter; Orquestração: Dan Wyman; Fotografia: Dean Cundey [filmado em Panavision, cor por Metrocolor]; Montagem: Tommy Lee Wallace, Charles Bornstein; Design de Produção: Tommy Lee Wallace; Cenários: Craig Stearns; Caracterização: Erica Ueland; Efeitos Especiais: Conrad Rothmann [não creditado]; Direcção de Produção: Don Behrns.

Elenco:

Donald Pleasence (Dr. Sam Loomis), Jamie Lee Curtis (Laurie Strode), Nancy Kyes [como Nancy Loomis] (Annie), P. J. Soles (Lynda Van Der Klok), Charles Cyphers (Xerife Leigh Brackett), Kyle Richards (Lindsey Wallace), Brian Andrews (Tommy Doyle), John Michael Graham (Bob Simms), Nancy Stephens (Marion Chambers), Arthur Malet (Guarda do Cemitério), Mickey Yablans (Richie), Brent Le Page (Lonnie), Adam Hollander (Keith), Robert Phalen (Dr. Wynn), Tony Moran (Michael Myers sem Máscara), Will Sandin (Michael Myers com 6 Anos), Sandy Johnson (Judith Myers), David Kyle (Namorado de Judith), Peter Griffith (Pai de Laurie), Nick Castle (The Shape, Michael Myers com Máscara).