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A Farewell to ArmsO tenente Frederic Henry (Gary Cooper), é um motorista da Cruz-Vermelha, na frente italiana da Primeira Guerra Mundial. Numa visita de licença ao amigo e cirurgião italiano Rinaldi (Adolphe Menjou), Frederic conhece a enfermeira Catherine Barkley (Helen Hayes). Os dois apaixonam-se, mesmo sabendo que os regulamentos proíbem tais relações. Um acidente que provoca ferimentos em Frederic coloca-o aos cuidados de Helen, e precipita a relação, que decorre em segredo. Mas quando Frederic, restabelecido, é chamado de volta à frente de batalha, Catherine percebe que está grávida e tem de actuar à escondida de todos, em defesa do seu grande amor.

Análise:

O então já experiente Frank Borzage, expoente da fase inicial do studio system, e responsável por algumas das mais belas obras do cinema mudo de Hollywood, como “A Hora Suprema” (7th Heaven, 1927) e “O Anjo da Rua” (Street Angel, 1928), seria o primeiro realizador a adaptar ao cinema uma obra de Ernest Hemingway, o que aconteceu em 1932, com o livro “O Adeus às Armas”, publicado em 1929.

Como frequentemente acontecia com Hemingway, “O Adeus às Armas” é uma obra semi-autobiográfica, na qual o autor fala da sua experiência como motorista de ambulâncias para a Cruz-Vermelha, durante a Primeira Guerra Mundial, estacionado no norte de Itália. O seu alter-ego é o tenente Frederic Henry (Gary Cooper), que numa visita de licença ao amigo cirurgião italiano Rinaldi (Adolphe Menjou), conhece e se apaixona pela enfermeira Catherine Barkley (Helen Hayes), a qual lhe corresponde imediatamente. Com as licenças de Frederic a serem sempre cortadas por momentos de perigosa exposição à frente de batalha, e um ferimento grave numa perna que assusta o casal, estes vivem cada momento intensamente, conseguindo mesmo refugiar-se numa casa, ao abrigo de olhares indiscretos de soldados e enfermeiras. Quando Catherine engravida, decide deixar tudo e refugiar-se na Suíça, onde terá o seu bebé em segredo. Só que a partir de então a correspondência entre o par é cortada, com as cartas de Catherine a serem censuradas e devolvidas, impedindo Frederic de conhecer o novo endereço da sua amada. Desesperado, Frederic deserta e vai procurar Catherine entre as suas amigas, descobrindo finalmente o segredo e viajando para a Suíça, após Rinaldi, arrependido, lhe confessar que foi ele quem censurou toda a correspondência. Aí, Frederic chega apenas a tempo de descobrir que Catherine jaz num hospital, por complicações do parto, vendo-a morrer nos seus braços, enquanto, lá fora, a guerra termina.

Como seria de esperar num filme saído de um grande estúdio de Hollywood, não é tanto a agrura da guerra, ou o clima de medo, desespero e destruição (de vidas e países), que interessava mostrar, mas uma aventura romântica. Por esse tom, o próprio Hemingway desprezou o filme que, segundo ele, não fazia juz à sua obra, mesmo que, no processo, se viesse a tornar amigo de Gary Cooper. De facto, não reside nos actores a culpa do resultado final desagradar ao escritor. Se estes conferem ao filme um grau demasiadamente romântico e pouco realista para a história (e contexto) que se pretende mostrar, tal é culpa da direcção do argumento, e não das interpretações, que em face do material à sua disposição, são sóbrias, subtis e carismáticas.

Mas, ao contrário do que vinha acontecendo nos filmes recentes sobre a Primeira Guerra Mundial, “O Adeus às Armas” está pouco preocupado com o realismo das condições de guerra, o sofrimento de soldados e populações, ou as realidades militares. O fulcro da história são as proibições que envolvem o romance entre o soldado e a enfermeira, descretadas pelos regulamentos das suas corporações. Tal transforma a história numa espécie de Romeu e Julieta, de tragédia anunciada logo desde o início – na sequência em que vemos uma enfermeira ser julgada, recriminada e por fim expulsa, por ter engravidado numa relação ilícita com um soldado.

Embora o filme se passe num momento pré-Código Hays, com a censura de Hollywood ainda pouco activa, nota-se no entanto um cuidado com os bons costumes. Assim, Frederic é mostrado como um soldado de coração puro, que não é um conquistador inveterado como o seu amigo Rinaldi. Do mesmo modo, Catherine – a boa alma que se apieda da amiga enfermeira caída em desgraça na cena inicial – dá-se, por saber que o amor de ambos é maior que a vida, e nem a guerra (que por palavras eles desafiam várias vezes) os tolherá. A presença de um padre do exército (Jack La Rue), que abençoa o casamento, torna-o menos pecaminoso aos olhos do público, mesmo que se perceba que o casal pecou, e gerou um filho, no que a enfermeira Ferguson (Mary Philips), amiga de Catherine, vai apelidando de «arranjar trabalhos», e o amigo de Frederic, Rinaldi vê como desviar o soldado do seu verdadeiro foco. Por essas razões, acabam por ser os amigos os verdadeiros opositores da relação, num enredo novelesco, onde por portas transvessas, Catherine e Frederic perdem o contacto, embora mantenham a fidelidade de actos e intenções a todo o custo.

Filmado quase integralmente em estúdio, com recurso a maquetas, miniaturas e cenários pintados nas cenas de paisagens, “O Adeus às Armas” é eficaz, sabe fazer uso dos seus recursos – sejam os actores, o drama da guerra, ou as situações de ambiente intenso, como uma explosão, o ruído de sirenes ou o poder devastador da chuva. Neles reina a presença de Gary Cooper, e a talvez deslocada Helen Hayes, até aí uma rainha do teatro, e ainda hoje com a reputação de ser uma das raras pessoas a ter a distinção EGOT (vencedora de um Emmy, um Grammy, um Oscar e um Tony).

Verdadeiro sucesso aquando da sua estreia, com uma mensagem romântica onde nem a guerra ou a morte impedem um amor verdadeiro, “O Adeus às Armas” venceu os Oscars de Melhor Fotografia e Melhor Som, tendo ainda sido nomeado para Melhor Filme e Melhor Direcção Artística.

O sucesso do filme valeu-lhe um remake com o mesmo título em 1957, realizado por Charles Vidor e com interpretações de Rock Hudson e Jennifer Jones, bem como a adaptação a mini-série em 1996, interpretada por George Hamilton e Vanessa Redgrave.

Helen Hayes e Gary Cooper em "O Adeus às Armas" (A Farewell to Arms, 1932), de Frank Borzage

Produção:

Título original: A Farewell to Arms; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1932; Duração: 89 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 8 de Dezembro de 1932 (EUA), 16 de Outubro de 1933 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Frank Borzage; Produção: Frank Borzage; Produtores Associados: Edward A. Blatt [não creditado], Benjamin Glazer [não creditado]; Argumento: Benjamin Glazer , Oliver H.P. Garrett [a partir do romance homónimo de Ernest Hemingway]; Música: Herman Hand [não creditado], W. Franke Harling [não creditado], Bernhard Kaun [não creditado], John Leipold [não creditado], Paul Marquardt [não creditado], Ralph Rainger [não creditado], Milan Roder [não creditado]; Fotografia: Charles Lang [preto e branco]; Montagem: Otho Lovering [não creditado], George Nichols Jr. [não creditado]; Direcção Artística: Roland Anderson [não creditado], Hans Dreier [não creditado]; Figurinos: Travis Banton [não creditado]; Efeitos Especiais: Loyal Griggs [não creditado]; Efeitos Visuais: Farciot Edouart [não creditado].

Elenco:

Helen Hayes (Catherine Barkley), Gary Cooper (Tenente Frederic Henry), Adolphe Menjou (Rinaldi), Mary Philips (Helen Ferguson), Jack La Rue (The Priest), Blanche Friderici (Enfermeira-Chefe), Mary Forbes (Miss Van Campen), Gilbert Emery (Major Inglês).