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Katzelmacher Franz (Harry Baer), Marie (Hanna Schygulla), Paul (Rudolf Waldemar Brem), Helga (Lilith Ungerer), Erich (Hans Hirschmüller), Rosy (Elga Sorbas), Gunda (Doris Mattes), Elizabeth (Irm Hermann) e Peter (Peter Moland) são um grupo de alemães, vizinhos e conhecidos, que costumam passar tempo juntos, numa vida sem interesses, perdidos a fumar, jogar às cartas, a comentar as vidas uns dos outros, ou a envolverem-se em relações sexuais entre eles, sem qualquer paixão, e por vezes pagas. A chegada de Jorgos (Rainer Werner Fassbinder), um imigrante grego, será visto com interesse pelas mulheres, em especial Marie, que começa uma relação com ele, e com suspeição pelos homens, que se sentem ameaçados pelo elemento estranho que perturba o equilíbrio estagnado do grupo.

Análise:

Como sua segunda longa-metragem, Rainer Werner Fassbinder voltou a filmar mais uma história escrita por si, novamente filmando a preto e branco, numa fotografia saturada, e num modo estilizado de cenografia e interpretações. O título, é tirado de uma palavra em calão alemão, utilizada para descrever depreciativamente trabalhadores meridionais que vinham para a Alemanha nos anos 60 e 70. O filme foi baseado numa peça do próprio Fassbinder, usando o próprio elenco, que actuou de graça num filme filmado em poucos dias, com baixo orçamento e sem licenças.

Mostrando-nos um grupo ocioso de jovens homens e mulheres alemães, Vemos os casais Franz (Harry Baer) e Marie (Hanna Schygulla), Paul (Rudolf Waldemar Brem) e Helga (Lilith Ungerer), cujas preocupações são apenas em como ganhar mais dinheiro. Temos Erich (Hans Hirschmüller), feliz de conseguir os favores sexuais de Rosy (Elga Sorbas), a qual se dá por dinheiro, e sonha ser actriz. Temos ainda Gunda (Doris Mattes), furiosa com a prostituição de Rosy, e temos Elizabeth (Irm Hermann), que aluga quartos no seu apartamento, e tem uma relação prepotente com o inquilino Peter (Peter Moland). As conversas do grupo são fúteis, com os homens a falar de dinheiro, as mulheres a falar das relações umas das outras, e o tempo ocupado em jogos de cartas, ou simples ócio a ver quem passa. Pelo meio vemos que Elizabeth e Peter discutem constantemente, Paul vai-se prostituir com Klaus (Hannes Gromball), e Helga vai engravidar de Paul, para perder o filho por maus tratos. Mas o factor mais divisivo é a chegada do grego Jorgos (Rainer Werner Fassbinder), que se vai instalar na casa de Elizabeth. Visto com curiosidade pelas mulheres, embora mal fale a alemão, e seja muito ensimesmado, vai correr o boato da sua relação com Elizabeth, e Gunda espalha boatos sobre uma tentativa de violação. Tal vai fazer interessar ainda mais Marie, que inicia uma relação com ele. Esta mudança no grupo vai enfurecer os homens, que inventam que ele é comunista, e um dia se juntam para espancar Jorgos, o qual passa a querer apenas voltar à Grécia, levando Marie consigo.

Tal como acontecera na sua estreia “O Amor é Mais Frio do Que a Morte” (Liebe ist kälter als der Tod, 1969), Fassbinder escrevia, realizava e interpretava um filme bastante preso a um formalismo próprio do autor, que se podia relacionar com a sua experiência teatral, de planos fixos e encenações que passavam por cenários quase nus e actores em posições rígidas, quase sem contacto visual entre si ou expressão física.

Desta vez o tema era o ócio de um grupo de alemães que passa o tempo sem nada mais fazer que desperdiçar o tempo, comentar vidas alheias, entregar-se a relações sexuais sem emoção, e por vezes pagas, com os homens a falarem de dinheiro e as mulheres do sexo das outras. O equilíbrio rompe-se com a chegada e de um elemento forasteiro (para mais, um estrangeiro), que vai pôr em causa a virilidade dos locais, causando o interesse das mulheres.

Como vinha acontecendo nos filmes deste período de Fassbinder, os planos são fixos, os cenários quase estilizados (um ou dois apartamentos onde vemos sempre as pessoas no mesmo plano à mesma mesa), um gradeamento onde todos se encostam a fumar e falar de frente para a câmara – sem se olharem –, um um passeio em que vemos, por diversas vezes, um par de personagens (percorrendo quase todas as combinações possíveis de actores) caminhar de braço dado, num travelling de marcha-atrás sempre igual. Tudo nas interpretações confere distanciamento e uma frieza desinteressada, como que a mostrar uma geração sem emoções, motivações ou interesses.

Mais preocupado com o estabelecer da sua linguagem formal, que em emocionar o seu espectador, Fassbinder usa uma fotografia extremamente saturada, uma quase ausência de música, e uma montagem crua, com elipses inexplicáveis, sem relação evidente entre sequências, ou ligação entre momentos, numa abstracção de tempo e espaço, sem que percebamos quanto tempo ou que acontecimentos se passaram entre dois momentos do filme.

Visto também como uma alegoria contra as ideias por detrás do fascismo, preconceito e formatações de pensamento, presentes na base das sociedades, e prontas a tomar a dianteira quando propriamente estimuladas, mesmo numa sociedade dada à banalidade e desinteresse geral, “O Machão” foi apresentado no Festival Internacional de Cinema de Mannheim-Heidelberg onde recebeu o prémio Interfilm da crítica.

O elenco de "O Machão" (Katzelmacher, 1969), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Katzelmacher; Produção: Antiteater-X-Film; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 89 minutos; Estreia: 22 de Novembro de 1969 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Peer Raben [como Wilhelm Rabenbauer]; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir da sua própria peça de teatro homónima]; Música: Peer Raben; Fotografia: Dietrich Lohmann [preto e branco]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch].

Elenco:

Hanna Schygulla (Marie), Lilith Ungerer (Helga), Rudolf Waldemar Brem (Paul), Elga Sorbas (Rosy), Doris Mattes (Gunda), Irm Hermann (Elisabeth), Peter Moland (Peter), Hans Hirschmüller (Erich), Harry Baer (Franz), Hannes Gromball (Klaus), Katrin Schaake (Mulher no Restaurante), Rainer Fassbinder (Jorgos) [não creditado].