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A Nightmare on Elm Street Em Elm Street, Nova Iorque, vários adolescents começam a ter sonhos horríficos acerca de um homem desfigurado que os persegue com uma luva onde os dedos são acrescentados de lâminas. A primeira a notar algo estranho é Tina (Amanda Wyss), cuja camisa de dormir surge cortada como no seu sonho. O medo leva-a a chamar a amiga Nancy (Heather Langenkamp) e o namorado desta, Glen (Johnny Depp), para dormirem em sua casa, numa noite em que os pais se ausentam. Quem se lhes junta também é Rod (Jsu Garcia), namorado de Tina, e quando nessa noite, ela é morta e completamente esquartejada, Rod é culpado pela polícia, mas os jovens culpam a estranha figura dos seus sonhos, e temem ser eles as próximas vítimas.

Análise:

Se é verdade que Alfred Hitchcock, com a sua obra “Psico” (Psycho, 1960) levou o slasher para o cinema mainstream norte-americano, dando-lhe estatuto artístico, todos concordarão que foi o filme “O Regresso do Mal” (Halloween, 1978) de John Carpenter, que definiu o modo como o género se tornaria fundamental no cinema de terror das décadas seguintes. Entre os filmes que se seguiram, o mais original e mais popular de todos terá sido mais uma das obras saídas da imaginação de Wes Craven, que em 1984 dava a conhecer o surpreendente “Pesadelo em Elm Street”.

Em 1984 o cinema de terror era já refém do slasher, um sub-género que atraiu imediatamente a atenção do público mais jovem. Graças à popularidade de “O Regresso do Mal”, filme que teria uma enormidade de sequelas, foram sendo criadas novas séries, como por exemplo a prolífica “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th). O padrão definia-se com uma mitologia própria que passava por: um elenco maioritariamente juvenil, um assassino em série sem motivação racional, aparentemente humano, mas de resiliência sobrenatural, uma arma branca arrepiante (faca, cutelo, machado, gancho, etc.), crimes incrivelmente sangrentos, uma certa associação entre vítimas e comportamentos sexuais promíscuos, e a existência de uma heroína inusitada (a chamada final girl), que através do testemunho da morte dos amigos vai ganhando coragem para sobreviver, tornando-se o rosto da série para os filmes seguintes.

Wes Craven, um original criador de histórias e universos terríficos, resolveu usar tudo isto, com um ponto extra: passar o terror para o mundo dos sonhos. Se é verdade que o terror (nomeadamente o gótico) sempre teve um lado visivelmente onírico, buscando inspiração nalguma filmografia de série B, e séries televisivas de décadas anteriores, Craven construiu um imaginário que remete para um certo passado, arcaico, de claro clima de pesadelo. É o mundo de Freddy Krueger, uma espécie de papão de contos infantis, que não é mais que um assassino de adolescentes, que persegue na noite, para os matar com uma garra metálica com lâminas como extensão dos dedos.

Tudo começou três anos antes, com Craven a ter dificuldades em vender a sua ideia a uma produtora, dada a violência gráfica que pretendia filmar. Acabou por ser a New Line Cinema a aceitar o repto, ela já à beira da falência. Craven filmaria em apenas 30 dias, com um orçamento baixo que recuperou logo na primeira semana de exibições. O lucro do filme (apenas o segundo da produtora) seria tal que a New Line ficou conhecida com o cognome de «The House that Freddy Built».

Interpretado por Robert Englund, deformado, de rosto queimado, e movimentos desengonçados, como um boneco, Freddy (que neste filme é creditado como Fred, mas se chamará daí em diante Freddy) surge aos protagonistas nos seus sonhos. Estes são quatro amigos, Nancy (Heather Langenkamp), o namorado Glen (Johnny Depp) e o casal Tina (Amanda Wyss) e Rod (Jsu Garcia). Sem repararem, os quatro andam a ter sonhos terríveis sobre um monstro que os persegue, e Tina, a primeira a queixar-se, pede a Nancy que durma em sua casa, numa noite em que os pais se ausentam. A chegada do espalhafatoso Rod, que quer fazer as pazes com Tina, leva a que também Glen fique em casa. Nessa noite Rod acorda para ver Tina ser retalhada mortalmente à sua frente, por alguém que ele não consegue ver. Toda a gente pensa que Rod foi o assassino, e ele acaba preso, para, também enquanto dorme, ser morto. Nancy começa a perceber o padrão, e identifica o monstro dos seus sonhos quando a mãe (Ronee Blakley) lhe conta como ajudou a matar assassino de crianças, anos antes de Nancy nascer. Nancy decide, então, com a ajuda de Glen, trazer Fred Krueger para o mundo dos vivos, acordando no momento em que o agarra. Só que o próprio Glen adormece acabando ele por morrer. Por fim, com a ajuda involuntária do pai, o tenente da polícia Donald Thompson (John Saxon), Nancy consegue encurralar Krueger, não evitando que ele lhe mate a mãe, mas derrotando-o quando o enfrenta sem medo, assim retirando-lhe todo o poder. O resultado é um acordar para um dia onde nada aconteceu, e todos os seus amigos e mãe estão vivos.

Com o lado de acção sangrenta e visceral do slasher, e o universo dos sonhos, Wes Craven criou um filme com tanto de horror como de mistério e apelo à imaginação. Há obviamente muito de freudiano a atravessar toda a história, onde as conotações sexuais atrás mencionadas são claras. Como se não bastasse, a interpretação de Robert Englund, como o horrífico e patético Freddy Krueger, parte monstro, parte palhaço, desconcerta tornando o seu personagem uma das figuras mais emblemáticas da história do cinema de terror (e cuja caracterização levava três horas), o que já não é dizer pouco.

Centrando-se no personagem de Nancy como a tal final girl que depois surgiria nalgumas sequelas, “Pesadelo em Elm Street” é uma viagem pelo que de mais horrível pode haver nos pesadelos, levando à insónia e à paranóia, num cenário bastante evocativo (uma fornalha, de ruídos metálicos, jactos de vapor, ferros em brasa e muito de labiríntico, húmido e desconfortante), onde o tema é, claro, o modo como se lida com os monstros internos, sobretudo durante o crescimento e descoberta do próprio corpo e da sexualidade. Não é à toa que Freddy se apresenta provocadoramente como o novo namorado de Nancy, vemos a sua língua ao telefone e a sua garra surgir entre as pernas de Nancy quando esta cochila na banheira (num dos planos mais famosos de todo o cinema de terror).

A reforçar a componente gótica temos a ideia de que os crimes ocorrem como uma vingança por erros passados, isto é, a vingança da geração anterior sobre o verdadeiro Fred, queimado vivo. Por isso a mãe de Nancy ainda se refugia na bebida e o pai se tornou polícia. Por isso os vizinhos mal se falam. E por isso os jovens arcam com o peso sozinhos e desprotegidos, quase como num conto moral, onde o mal advém da falta de comunicação e solidariedade no bairro.

De todo o literal pesadelo emerge Nancy, a mais sóbria do grupo, com inteligência suficiente para fazer a ponte entre os vários mundos (é ela a cola do grupo de amigos, é a ligação de dois pais divorciados, e é ela que liga passado presente, e é ela quem compreende como se viaja entre sonhos e vigília).

Mas acima de interpretações mais ou menos metafísicas, o que fica de “Pesadelo em Elm Street” é o horror do sempre presente Freddy, que não pode ser mais ameaçador, já que se esconde nos nossos sonhos, e sabemos que todos, mais cedo ou mais tarde, temos de fechar os olhos para dormir. Todos os episódios se tornam de perseguição e fuga, por entre cenários que nem sabemos se fazem ou não parte do mundo dos sonhos, que como sonhos nunca percebemos bem onde começam, até ser demasiado tarde. É nessa ambiguidade que Craven triunfa, criando um filme provocativo, eficaz, com gore e terror psicológico em equilíbrio, e sempre fascinante, por mais vezes que se veja.

Num elenco jovem e hoje quase esquecido, destaca-se um muito jovem Johnny Depp (que ganhou o lugar a pelo menos Charlie Sheen, John Cusack, Brad Pitt, Kiefer Sutherland e Nicolas Cage), aqui na sua estreia, antes de se adivinhar o grau de fama a que chegaria anos mais tarde. Em sentido contrário, aqui em grande destaque, mas sem que isso lhe valesse uma carreira mais importante, estava Heather Langenkamp, que terá sido escolhida de entre mais de duzentas actrizes, entre as quais se contavam Jennifer Grey, Demi Moore e Courtney Cox.

O sucesso do filme levaria, como habitual neste género, à produção de várias sequelas. Até 1994 surgiram mais seis filmes, todos com Robert Englund, no papel de Freddy Krueger, dois deles com Heather Langenkamp, e o último deles (um filme sobre o filme, e não necessariamente uma sequela) de novo com realização de Wes Craven. Mais tarde surgiram ainda o crossover com a série “Friday the 13th”, em “Freddy Contra Jason” (Freddy vs. Jason, 2003), realizado por Ronny Yu, e o remake “Pesadelo em Elm Street” (A Nightmare on Elm Street, 2010) de Samuel Beyer. Este último filme, produzido por Michael Bay, foi o primeiro sem Englund como Freddy Krueger, agora interpretado por Jackie Earle Haley, pretendendo-se como um reboot para mais filmes, o que não chegou a acontecer, dados os maus resultados financeiros do projecto. O filme original de Craven chegou ainda à televisão com a produção da série de antologia de terror “Freddy’s Nightmares: A Nightmare on Elm Street: The Series” (1988-1989), com duas temporadas de 44 episódios, apresentados por Robert Englund.

E se Craven, em 1984 salvou o slasher, quando este parecia perdido em clichés sem originalidade, quando a sua própria série se banalizou foi de novo ele a insuflar novo fôlego ao sub-género, em 1996, com a igualmente bem sucedida série “Scream”.

Nota final para o facto de, no filme, quando Nancy está a ver televisão para não adormecer, o filme que está a passar é “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Evil Dead, 1981) de Sam Raimi. Em troca, em “A Morte Chega de Madrugada (Evil Dead II, 1987) de Raimi, pode ver-se a luva de Freddy Krueger, numa bem-disposta troca de «galhardetes» entre os dois realizadores que continuaria noutros filmes.

Heather Langenkamp em "Pesadelo em Elm Street" (A Nightmare on Elm Street, 1984) de Wes Craven

Produção:

Título original:A Nightmare in Elm Street; Produção: New Line Cinema / Media Home Entertainment / Smart Egg Pictures; Produtores Executivos: Stanley Dudelson, Joseph Wolf; País: EUA; Ano: 1984; Duração: 91 minutos; Distribuição: New Line Cinema; Estreia: Outubro de 1984 (Hofer Filmtage, RFA), 9 de Novembro de 1984 (EUA), 10 de Novembro de 1985 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Wes Craven; Produção: Robert Shaye; Co-Produção: Sara Risher; Produtor Associado: John H. Burrows; Argumento: Wes Craven; Música: Charles Bernstein; Orquestração: ; Fotografia: Jacques Haitkin; Montagem: Rick Shaine, Patrick McMahon; Design de Produção: Gregg Fonseca; Direcção Artística: ; Cenários: Anne H. Ahrens; Figurinos: Dana Lyman; Caracterização: Kathryn Fenton; Efeitos Especiais: Jim Doyle; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: John H. Burrows.

Elenco:

John Saxon (Tenente Donald Thompson), Ronee Blakley (Marge Thompson), Heather Langenkamp (Nancy Thompson), Amanda Wyss (Christina ‘Tina’ Gray), Jsu Garcia [como Nick Corri] (Rod Lane), Johnny Depp (Glen Lantz), Charles Fleischer (Dr. King), Joseph Whipp (Sargento Parker), Robert Englund (Fred Krueger), Lin Shaye (Professora), Joe Unger (Sargento Garcia), Mimi Craven (Enfermeira), Jack Shea (Padre), Ed Call (Mr. Lantz), Sandy Lipton (Mrs. Lantz), David Andrews (Encarregado), Jeff Levine (Médico Legista), Donna Woodrum (Mãe de Tina).