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Les croix de bois Com a Primeira Guerra Mundial a grassar o solo francês, os homens são chamados a alistar-se, o que fazem alegremente, na convicção de que estão a salvar a nação numa guerra que será certamente curta. É o que acontece com o jovem Gilbert Demachy (Pierre Blanchar), que ao entrar na guerra, já com esta a meio, é recebido com o cinismo daqueles que já sofreram demasiadas agruras para a encararem com romantismo. É esse grupo de soldados que vemos suportar dias sem fio de bombardeamentos, o cansaço e terror psicológico de poderem ser minados por baixo, numa vida de trincheiras e privações, cuja única quebra de rotina é o ordenar de ataques praticamente suicidas, nos quais Demarchy vai vendo os seus amigos serem mortos um por um.

Análise:

Construído a partir do romance homónimo de Roland Dorgelès, o qual era um testemunho em primeira pessoa da experiência do autor na Primeira Guerra Mundial, “Les croix de bois” (em português “As cruzes de madeira” – significando as cruzes funerárias, por oposição às cruzes metálicas das condecorações militares), foi uma espécie de resposta francesa ao então muito popular “A Oeste Nada de Novo” (All Quiet on the Western Front, 1930) de Lewis Milestone, e ao alemão “Quatro de Infantaria” (Westfront 1918 – Vier von der Infanterie, 1930), de Georg Wilhelm Pabst, dois filmes com forte mensagem anti-guerra, focando-se na quebra de expectativas quando o patriotismo romântico dos primeiros dias dá lugar aos horrores do medo, morte e destruição.

Com Raymond Bernard na cadeira da realização, filmando em grande parte em estúdio, mas com alguns cenários de trincheiras construídos em cenários naturais na zona de Champagne, onde a acção decorre, e usando actores e figurantes com experiência da guerra que encenavam, “Les croix de bois” centra-se na evolução de um soldado do decurso da guerra. Ele é Gilbert Demachy (Pierre Blanchar), um estudante de direito, que se alista para cumprir o seu dever, já com a guerra a meio, no que é gozado pelos seus novos companheiros, por verem nele a ingenuidade que já não têm. Acompanhamos depois esse grupo de soldados no seu dia-a-dia de guerra nas trincheiras, sob o fogo da artilharia inimiga, e frequentes tentativas de assalto onde se morre muito, para nunca se ganhar um palmo de terreno. Um por um, os companheiros de Demachy vão morrendo, quer em tentativas desesperadas de salvar alguma coisa, quer em mortes fúteis quase sem explicação.

Pelo meio, nota-se a necessidade do aliviar da tensão, nas brincadeiras entre soldados, ou nas paradas forçadas com que os comandantes querem aparentar o que não existe, mas são estes momentos de contraste que dão maior peso aos dramáticos. E estes ocorrem quase em jeito de documentário, levemente a início, num crescendo de tragédia, em que vemos os protagonistas serem submetidos a diferentes ordálios, desde o sucumbir sob fogo cerrado, até à impotência com que são flagelados por disparos de artilharia, da ordem para avançar de peito feito às balas, às escaramuças que os deixam isolados quando tentam conquistar uma aldeia, da privação de descanso, comida ou água, à tensão que é sentirem que o inimigo escava por baixo da sua posição para os minar.

Sem um enredo que não seja o continuar dessa guerra, aparentemente sem fim, “Les croix de bois” centra-se mais nas ideias que nos personagens, sendo um forte testemunho anti-guerra, com um olhar realista para o clima de tensão, o terror e desespero sentidos nas trincheiras, onde nada é lógico, e nenhuma esperança parece existir. Tal é filmado sempre com um distanciamento cauteloso, onde o dramatismo não vem das interpretações ou modo como as situações nos surgem, mas sim do modo como estas se vão sobrepondo, uma a uma, sem tréguas. Quando chegamos ao momento central, com a grande batalha de luta por uma aldeia, que não é mais que um monte de pedras, já o realismo se apoderou de tal modo do espectador, que tudo parece um documentário, pesado e pungente, do qual os protagonistas não nos parecem poder escapar.

Famoso por esse realismo, e proeza técnica, “Les croix de bois” teve várias sequências usadas em filmes posteriores, nomeadamente por John Ford em “O Mundo em Marcha” (The World Moves On, 1934), e por Howard Hawks no filme “A Grande Ofensiva” (The Road to Glory, 1936). Mais ambígua é a reputação do filme por ter levado ao suicídio um veterano da guerra quando este o viu pela primeira vez nos anos 70.

Imagem de "Les croix de bois" (1932), de Raymond Bernard

Produção:

Título original: Les croix de bois; Produção: Pathé-Natan; País: França; Ano: 1932; Duração: 113 minutos; Distribuição: Pathé-Natan; Estreia: 17 de Março de 1932 (França).

Equipa técnica:

Realização: Raymond Bernard; Argumento: Raymond Bernard, André Lang [a partir do livro de Roland Dorgelès]; Fotografia: Jules Kruger, René Ribault [preto e branco]; Montagem: Lucienne Grumberg; Direcção Artística: Jean Perrier.

Elenco:

Pierre Blanchar (Ajudante Gilbert Demachy), Gabriel Gabrio (Sulphart), Charles Vanel (Cabo Breval), Raymond Aimos (Soldado Fouillard), Antonin Artaud (Soldado Vieublé), Paul Azaïs (Soldado Broucke), René Bergeron (Soldado Hamel), Raymond Cordy (Soldado Vairon), Marcel Delaître (Sargento Berthier), Jean Galland (Capitão Cruchet), Pierre Labry (Soldado Bouffioux), Geo Laby (Soldado Belin), René Montis (Tenente Morache), Jean-François Martial (Soldado Lemoine), Marc Valbel (Maroux).