Etiquetas

, , , , , , ,

Liebe ist kälter als der Tod Conhecido no mundo do crime, Franz (Rainer Werner Fassbinder) é trazido perante o sindicato que o quer a seu soldo. Mesmo torturado e espancado, Franz recusa. Mais tarde, vivendo com a sua amante, a prostituta Johanna (Hanna Schygulla), Franz recebe a visita de Bruno (Ulli Lommel), o amigo que fez nesses dias de cativeiro. O trio passa a viver uma relação próxima, de triângulo amoroso consentido, ao número de pequenos crimes, que levam à morte de um outro bandido que acossava Franz. É então que a polícia começa a apertar o cerco, enquanto o trio continua a pensar em novos crimes.

Análise:

Com apenas 23 anos, e já com algumas curtas-metragens realizadas, Rainer Werner Fassbinder estreava a sua primeira longa-metragem, enquanto dividia a sua carreira entre as câmaras e os palcos, onde era dramaturgo encenador de teatro. Dedicada a Claude Chabrol, Éric Rohmer e Jean-Marie Straub, entre a Nouvelle Vague francesa e um decidido não naturalismo alienante, “O Amor é Mais Frio do Que a Morte” usava o seu baixo orçamento como uma arma para descontruir o rotineiro mundo dos filmes de gangsters.

Franz (Rainer Werner Fassbinder) é um pequeno criminoso, que vemos inicialmente sequestrado de um sindicado do crime que o quer recrutar. Apesar das pressões e maus tratos, Franz recusa, pois quer continuar senhor de si próprio. Durante esse tempo conhece outro acossado, Bruno (Ulli Lommel) a quem dá o seu endereço em Munique. Algum tempo depois, Bruno – que veste como o personagem de Alain Delon em “O Ofício de Matar” (Le Samouraï, 1967), de Jean-Pierre Mellvile –, enviado pelo sindicato, surge no apartamento onde Franz vive, com a namorada e prostituta Johanna (Hanna Schygulla). O trio torna-se inseparável, e Bruno decide mesmo resolver alguns problemas de Franz, matando outro gangster, conhecido como Turco (Anastassios Karalas), que ameaçava Franz. Com a polícia no seu encalço, Franz é interrogado, enquanto Bruno e Johanna começam uma relação. Quando Franz é libertado, o trio prepara um assalto a um banco, mas este corre mal, e Bruno é morto, enquanto Franz e Johanna fogem num carro, com ela a confessar que avisou a polícia do assalto.

A primeira coisa que salta à vista em “O Amor é Mais Frio do Que a Morte” é o modo intencionalmente pouco cuidado com que a dramatização e cenografia acontecem. Talvez em jeito de homenagem aos autores que Fassbinder cita nos crédito iniciais, o raccord não é feito de maneira clássica (note-se os cortes nos movimentos dos personagens, ou algo tão simples como as reacções desajustadas aos tiros, que nunca deixam um buraco na roupa ou um vestígio de sangue), poucos são os movimentos de câmara (e quando acontecem são mecanizados e rítmicos), os espaços não são sempre respeitados (nomeadamente na sequência inicial, onde um fundo quase branco nos retira qualquer referência espacial, e nos coloca como que num abstracto palco de teatro), os gestos são simplistas e estilizados (com o acto de acender e passar cigarros a resultar quase como que um recurso narrativo, substituindo palavras e expressões faciais), os diálogos são esparsos, e a fotografia é bastante saturada (e esbranquiçada), num minimalismo permanente, onde o cenário é por vezes um simples chão onde os personagens se sentam ou deitam.

Nesse universo cénico e dramático movem-se personagens de comportamentos quase unidimensionais. Com uma história de gangsterspelo meio, temos Franz, Bruno e Johanna como um trio que se torna cúmplice no crime e no amor, com Johanna como o vértice de um triângulo que se submete ao bruto Franz, para procurar a novidade no mais requintado Bruno, e o trair voltando à segurança do que é conhecido, isto é, de Franz. O resto é quase que uma espécie de “Jules e Jim” (Jules et Jim, 1962) de François Truffaut, num contexto de crime, morte e prostituição. Desse modo, Fassbinder desconstrói e desmistifica o mundo do cinema de gangsters, tornando-o cru, feio, e desprovido de qualquer romantismo ou sentimento. Há um transversal desdém quer entre os protagonistas, quer destes para com o mundo em geral, como se os pequenos crimes nada significassem, e a moralidade nem sequer existisse. Por isso, num sempre presente cinismo, roubar óculos, matar uma empregada, ou planear um assalto parece tão simples e fútil como o constante acender dos cigarros, que acontece friamente, sem qualquer paixão.

Por todo o filme (mais nos interiores, mas também nos exteriores), nos chega a ideia de que estamos perante um palco e é a lógica teatral, de posições rígidas, espaços indefinidos e gestos exagerados que conta para Fassbinder, para nos retirar da lógica de cinema, e nos fazer centrar nas ideias base, que são de solidão, frieza, traição, cinismo, abuso e amoralidade. Afinal, o universo que Fassbinder se estava a preparar para nos dar a conhecer.

Devido ao modo pouco convencional de filmar e contar a sua história, e aos temas tão elusivos quanto distantes, Fassbinder não viu o seu filme ser bem acolhido pela crítica, sendo mal recebido logo na estreia no Festival de Berlim. Só anos mais tarde, após o sucesso do autor, é que “O Amor é Mais Frio do Que a Morte” começou a ser olhado com um readquirido interesse.

Rainer Werner Fassbinder e Hanna Schygulla em "O Amor é Mais Frio do Que a Morte" (Liebe ist kälter als der Tod, 1969), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Liebe ist kälter als der Tod; Produção: Antiteater-X-Film [como Eine X Film GmbH & Co Produktion des Antiteater München]; Produtores Executivos: ; País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1969; Duração: 85 minutos; Distribuição: ; Estreia: 26 de Junho dee 1969 (Festival Internacional de Berlim, RFA, 16 de Janeiro de 1970 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Produção: Christian Hohoff, Peer Raben [como Wilhelm Rabenbauer]; Argumento: Rainer Werner Fassbinder; Música: Holger Münzer, Peer Raben; Fotografia: Dietrich Lohmann [preto e branco]; Montagem: Rainer Werner Fassbinder [como Franz Walsch].

Elenco:

Rainer Werner Fassbinder (Franz Walsch) [não creditado], Ulli Lommel (Bruno), Hanna Schygulla (Johanna), Katrin Schaake (Mulher no Comboio), Liz Söllner (Vendedora de Jornais), Gisela Otto (Prostituta), Ursula Strätz (Prostituta), Monika Nüchtern (Empregada no Café do Turco) (as Monika Stadler), Hans Hirschmüller (Peter), Les Olvides (Georges), Peer Raben (Jürgen / Voz do Vendedor de Armas) [como Wil Rabenbauer], Howard Gaines (Raoul), Peter Moland (Líder do Sindicato), Kurt Raab (Segurança do Centro Comercial), Peter Berling (Vendedor de Armas Ilegais), Anastassios Karalas (Turco), Rudolf Waldemar Brem (Polícia Motorizado), Yaak Karsunke (Comissário), Hannes Gromball (Cliente de Johanna), Ingrid Caven (Prostituta) [não creditada], Irm Hermann (Vendedora de Óculos de Sol) [não creditada], Gottfried Hüngsberg (Polícia) [não creditado], Franz Maron (Polícia) [não creditado].