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Berge in flammen Quando rebenta a Primeira Guerra Mundial, Florian Dimai (Luis Trenker) e os seus concidadãos, vêem a vida mudar, tendo que deixar a sua pacífica aldeia no Tirol austríaco, para lutar nas montanhas na frente italiana. Se antes, Florian vivia em comunhão com a natureza, e a montanha era pretexto para escaladas com o seu amigo italiano Arthur Franchini (Luigi Serventi), a guerra tornou-os inimigos, com a montanha como campo de batalha, que os austríacos defendem, e os italianos tentam conquistar, nem que, para isso, tenham que a perfurar para a fazer explodir por dentro.

Análise:

Filmado nos Dolomitas italianos e no Tirol austríaco, “Mountains on Fire” foi uma co-produção germano-francesa, do período entre guerras, olhar crítico para a Primeira Guerra Mundial, vista do lado austríaco, na frente italiana. Com realização dos austríacos Karl Hartl e Luis Trenker, dois realizadores, de resto, pouco conhecidos internacionalmente, o filme baseou-se num livro do próprio Trenker (experimentado alpinista e escrevendo a partir da sua própria experiência na guerra), tendo sido filmado em alemão, francês e inglês, para melhor penetração noutros mercados.

Com uma narrativa muito simples e directa, “Mountains on Fire” inicia-se com o anúncio do início da guerra e consequente mobilização austríaca, vista pelo tirolês Florian Dimai (o próprio Trenker), que logo nas primeiras imagens vemos conduzir um conde italiano seu amigo, Arthur Franchini (Luigi Serventi), numa excursão alpinista, onde, no prazer da comunhão com a montanha e natureza, se esbatem barreiras sociais. A guerra prolonga-se, e os austríacos vêem-se presos numa parte dos Dolomitas, como barreira contra o avanço italiano. As várias escaramuças, e uma tentativa frustrada de assalto por parte dos italianos não levam a mais que algumas pequenas baixas. É então que Florian e um amigo detectam movimentos no sopé da montanha, e contando ao tenente (Claus Clausen), percebem que os italianos estão a furar a montanha para dinamitarem a posição austríaca por baixo. Mas com o passar do tempo, a saudade da falta de notícias aumenta, e Florian foge para visitar a esposa, pois a sua aldeia está tão perto, ao alcance dos binóculos. Embora a esposa (Lissy Arna) já não queira que ele parta, Florian ouve os soldados italianos comentarem que irão rebentar a montanha no dia seguinte, e tem de partir para avisar os camaradas e salvá-los da morte certa. Finda a guerra, vemos Florian e o conde Franchini a viverem mais uma expedição pela montanha, agora cenário idílico, onde a amizade dos dois (inimigos em tempo de guerra) se mantém.

Embora muito mais leve que o filme “Quatro de Infantaria” (Westfront 1918 – Vier von der Infanterie, 1930), do também austríaco G. W. Pabst, “Mountains on Fire” é mais um filme de guerra de cariz pacifista, como os muitos que surgiram no período entre guerras, quase como que um recordar dos males já vividos e que não se queria ver repetidos. Visto do lado austríaco, mas sem que isso tenha uma grande importância, o filme de Karl Hartl e Luis Trenker centra-se no bonacheirão e pacato personagem de Florian (Trenker), arrastado para uma guerra que nada lhe diz. Como vemos amiúde, tanto por ele, como pelos companheiros, o seu interesse é ter notícias de casa, saber que os seus estão bem, e tentar mitigar saudades, por vezes com a aldeia que tanto desejam ao alcance do olhar.

Sem muitas cenas de acção, a não ser algumas muito bem conseguidas sequências de explosões e assaltos de artilharia, “Mountains on Fire”, filmado em cenários naturais, prima pelo uso da paisagem, as sequências na neve, todo o inóspito da situação (vemos mesmo alguém morrer congelado), numa natureza que tem tanto de belo como de mortífero. É essa natureza e a ligação do homem à terra que ditam tanto o pensamento dos autores, como o dos personagens. Na montanha, como de resto em todo o lado, as fronteiras são algo artificial, sem qualquer correspondência à realidade mais prosaica.

Por isso começamos por ver como Florian e Franchini, mesmo de condições sociais diferentes, são amigos por partilharem a mesma paixão pela liberdade dada pela escalada aos cumes da montanha. Nesse início, no seu diário, Franchini assina «Viena» como pátria a que pertence. Já no final, na repetição da mesma cena, agora já finda a guerra onde os dois combateram por lados opostos, e conduzido por um Florian a quem já falta um braço, vemos Franchini assinar «Roma». Assim, desse modo, sem palavras, ficamos com a sensação que apenas no papel algo mudou (a região passou de austríaca a italiana), quando no fundamental tudo ficou igual (as relações humanas, actividades paixões, amizades). Pelo meio perderam-se vidas, causou-se sofrimento e destruição (aqui simbolizados pelo braço perdido de Florian).

Filme hoje praticamente esquecido, “Mountains on Fire” vale pelo arrojo de filmar na montanha nevada, e pela mensagem de simplicidade nos valores da amizade que transcende fronteiras e na comunhão entre homem, natureza e as suas raízes.

Produção:

Título original: Berge in Flammen; Produção: Les Films Marcel Vandal et Charles Delac; País: Alemanha / França; Ano: 1931; Duração: 94 minutos; Estreia: 28 de Setembro de 1931 (Alemanha).

Equipa técnica:

Realização: Karl Hartl, Luis Trenker; Produção: Charles Delac, Marcel Vandal; Produtor Associado: ; Argumento: Karl Hartl, Luis Trenker [a partir do livro de “Berge in Flammen. Ein Roman aus den Schicksalstagen Südtirols” de Luis Trenker e Walter Schmidkunz]; Música: Giuseppe Becce; Orquestração: ; Fotografia: Sepp Allgeier, Albert Benitz, Giovanni Vitrotti [preto e branco]; Montagem: Ernst Fellner [não creditado], Karl Hartl [não creditado], Marc Sorkin [não creditado]; Direcção Artística: Leopold Blonder; Caracterização: Charlotte Kaps [não creditada], Max Patyna [não creditado]; Efeitos Especiais de Pirotecnia: Emil Schmidt [não creditado]; Direcção de Produção: Pierre O’Connell, Rudolf Strobl.

Elenco:

Luis Trenker (Florian Dimai), Lissy Arna (Pia, A Sua Esposa), Claus Clausen (Tenente Kall), Luigi Serventi (Arthur Franchini), Paul Graetz, Erika Dannhoff [não creditada], Michael von Newlinsky [não creditado]