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MartinMartin (John Amplas) é um jovem rapaz que crê ser um vampiro de 84 anos. Por essa razão, desenvolveu um processo que implica estudar a vítima, procurá-la quando está só em casa, sedá-la, e depois de ela adormecer, violá-la e beber o seu sangue. Ao mover-se para a Pennsylvania, Martin vai passar a estar sob a vigilância do velho tio Cuda (Lincoln Maazel), que acredita nos métodos antigos para neutralizar aquele a quem chama «nosferatu». Mas Martin é imune a tudo isso, e continua o seu percurso, sem maldade, apenas por necessidade, enquanto tenta compreender-se, muitas vezes confessando-se num programa nocturno de rádio.

Análise:

Sem desconfiar ainda que ficaria para a história do cinema como o pai dos zombies modernos, George A. Romero era, no final dos anos 70, um realizador ainda à procura de um espaço, lutando contra dificuldades económicas e tentando desenvolver o seu estilo de cinema, sempre no campo do terror, e em produções independentes, onde fazia uso da sua imaginação para, com pouco, criar obras que fizessem a diferença. É nesse sentido que Romero, depois de abordar o mundo das bruxas, e tentar um terror baseado em ficção científica, decide reinventar o mito dos vampiros, no seu filme “Martin”, a sua quinta longa-metragem.

Escrevendo o argumento, e sendo responsável pela montagem, George A. Romero usava os seus poucos recursos, a partir da recém-criada Laurel Entertainment, que Romero fundou com Richard Rubinstein, o produtor do filme. É por isso que se podem ver em papéis secundários (por vezes quase figurantes) vários elementos da equipa técnica, começando pelos próprios Romero e Rubinstein, e passando pelo director de fotografia Michael Gornick e pelo especialista de efeitos especiais e caracterização Tom Savini, este na primeira de várias colaborações com Romero.

E o que Romero se propôs fazer foi uma espécie de coming of age na história do crescimento e descoberta sexual de Martin (John Amplas), um jovem que tem comportamento vampiresco, procurando mulheres que droga, para depois ter sexo com elas e lhes beber o sangue. Depois da morte dos familiares, Martin vai para Braddock, Pennsylvania, para viver com o velho tio Cuda (Lincoln Maazel) e a neta deste, Christina (Christine Forrest). Cuda é um velho supersticioso, que acredita que Martin é um «nosferatu», e o adverte que está de olho nele. Ignorando-o, Martin vai vivendo a sua vida, de isolamento e desconforto geral, procurando de vez em quando uma vítima fora da cidade. Pelo meio, Martin confessa-se telefonando para a rádio, onde conta as suas histórias num programa nocturno, onde é conhecido como «O Conde». Embora o tio tente tudo, desde receitas tradicionais a um exorcismo religioso, nada parece afectar Martin, que não acredita em magia. Mas um dia, quando a casada Mrs. Santini (Elyane Nadeau), uma mulher que seduzira Martin a ter sexo com ela, se suicida, Cuba culpa Martin pela morte, e trespassa-lhe o coração com uma estaca de madeira.

Talvez o facto mais identificativo de “Martin” é nunca termos a certeza se estamos a lidar com o mito do vampirismo, ou apenas com uma obsessão com um comportamento criminoso que leva um jovem a matar e beber sangue. Focando-nos no crescimento de um adolescente, temos todas as suas inibições e dificuldades em lidar com terceiros, numa completa inadequação social que o torna fechado, calado e mesmo arisco. Vemo-lo confessar-se na rádio, onde explica que para si o sexo (o «sexy stuff» como o nomeia) é algo estranho, que prefere fazer quando a sua parceira está drogada a dormir. O seu lado fantasioso leva-o a ver constantemente cenas (a preto e branco, e que nunca descobrimos se são fantasias ou memórias), onde as suas acções são romantizadas, o seu aspecto é mais galanteador e uma mulher o procura intimamente. Por outro lado, Martin ri-se da superstição, é imune às tentativas do tio (alhos, crucifixos, idas à igreja e mesmo um exorcismo), diz não acreditar em magia, e renega a visão cinematográfica do mito do vampiro, nos quais os vampiros têm sempre mulheres, precisam de sangue todas as noites, e são alvo de magia.

O que sabemos é que, periodicamente, Martin precisa de sangue, pelo que se insinua na casa das vítimas, para as drogar e violar, antes de lhes beber o sangue. O padrão modifica-se quando Martin conhece Mrs. Santini, para quem faz alguns trabalhos. Esta tenta seduzi-lo, e Martin aceita os avanços, pois quer experimentar o «sexy stuff» com uma mulher acordada. Irónico é que Martin seja morto pelo tio pelo único crime que não cometeu, já que Mrs. Santini se suicidou. Isso leva a uma morte pela via tradicional – estaca no peito – e a um enterro com um crucifixo em cima, não chegando nós a saber se tudo não passava de uma crendice familiar, ou se Martin era um verdadeiro vampiro.

Com parcos meios, uma câmara muitas vezes ao ombro, uma fotografia a lembrar quase o VHS dos anos seguintes, uma montagem muito despida de elegância, e actores cujo modo brusco de estar fazem o filme parecer uma produção série Z, “Martin” era o filme preferido do próprio Romero, de entre aqueles que realizou. Teve um início atribulado, censurado em vários mercados, e criticado pelo sexo, e muito sangue que exibia, tornando-se aos poucos um filme de culto. Consta que a duração original do filme era de 165 minutos, mas já não existem cópias dessa versão. Hoje, “Martin” revela um olhar fresco, onde não falta alguma crítica social, e simbologia de crescimento e inadequação juvenil, que em conjunto com o o modo cru como está filmado, e a amoralidade quase inocente com que Martin nos chega, fazem dele um clássico esquecido.

John Amplas em "Martin" (1978), de George A. Romero

Produção:

Título original: Martin; Produção: Laurel Entertainment Inc.; País: EUA; Ano: 1978; Duração: 95 minutos; Distribuição: Libra Films International (EUA), Les Grands Films Classiques (GFC) (França); Estreia: 12 de Maio de 1978 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: George A. Romero; Produção: Richard Rubinstein; Produtores Associados: Patricia Bernesser, Ray Schmaus; Argumento: George A. Romero; Música: Donald Rubinstein; Fotografia: Michael Gornick [cor & preto e branco]; Montagem: George A. Romero; Caracterização: Tom Savini; Efeitos Especiais: Tom Savini; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Joyce Weber.

Elenco:

John Amplas (Martin), Lincoln Maazel (Cuda), Christine Forrest (Christina), Elyane Nadeau (Mrs. Santini), Tom Savini (Arthur), Sara Venable (Vítima em Casa), Francine Middleton (Vítima no Comboio), Roger Caine [como Al Levitsky] (Lewis), George A. Romero (Padre Howard), James Roy (Reitor), J. Clifford Forrest Jr. (Padre Zulemas), Robert Ogden (Negociante), Donaldo Soviero (Padre no Flashback), Donna Siegel (Mulher no Flashback), Michael Gornick (Barry, Locutor de Rádio) [não creditado], Richard P. Rubinstein (Richard, Marido da Vítima em Casa) [não creditado].

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