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The Texas Chainsaw Massacre Numa viagem pelo campo para visitar a campa do seu avô, os irmãos Sally (Marilyn Burns) e Franklin (Paul A. Partain) viajam com os amigos Jerry (Allen Danziger), Pam (Teri McMinn) e Kirk (William Vail), quando ouvem estranhas notícias de que os cemitérios estão a ser profanados, e os cadáveres roubados. A tensão aumenta quando o grupo dá boleia a um aparente psicopata (Edwin Neal) e depois se apercebe que a estação de serviço mais próxima não tem combustível. Recolhendo-se na casa da família, agora em ruínas, o quinteto começa a ser brutalmente morto por um assassino mascarado, armado com um pesado martelo e uma moto-serra.

Análise:

Como sua segunda longa-metragem, o então desconhecido realizador Tobe Hooper, anteriormente professor de universitário e operador de câmara, tomou uma decisão que lhe viria a dar uma nova carreira: dedicar-se ao terror. Com a colaboração de Kim Henkel, com quem escreveu o argumento, e o produziu para a independente Vortex, por ambos criada, Hooper engendrou um filme rodado em poucos dias, num orçamento de 300 000 dólares, integrando um elenco de actores desconhecidos, e sem preocupações com convenções narrativas ou dramáticas, muito menos com padrões de bom gosto ou de politicamente correcto. O resultado foi “Massacre no Texas”, história que se inspira vagamente nos crimes do infame serial killer Ed Gein, que já sido inspiração para o personagem Norman Bates de “Psico” (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock.

O filme inicia-se com a viagem de cinco jovens amigos, que vão visitar a campa do avô de dois deles, os irmãos Sally (Marilyn Burns) e Franklin (Paul A. Partain). Pela rádio, ouvem que têm estado a acontecer profanações de campas, com partes dos corpos a serem roubados. Para piorar, quando, depois de se verem quase sem combustível, pois na única bomba da região, este está indisponível, dão boleia a um caminhante (Edwin Neal), que mostra um comportamento psicopático que os leva a expulsá-lo da carrinha em que viajam. Chegados à antiga casa de família de Sally e Franklin, agora em completa ruína, Pam (Teri McMinn) e Kirk (William Vail) vão explorar os arredores, chegando a uma casa aparentemente abandonada, de onde sai um homem com a cara coberta com uma máscara feita de pele humana (Gunnar Hansen) e que mata ambos com um martelo, para os mutilar depois com uma serra eléctrica. Perante a ausência dos amigos, Jerry (Allen Danziger) vai procurá-los e sofre o mesmo destino. Por fim, já noite, os irmãos decidem também ir procurar os amigos, e os seus gritos de chamamento atraem o assassino que os persegue com a moto-serra, e mata Franklin, mas deixa escapar Sally. Esta consegue chegar à estação de serviço, para descobrir que o proprietário (Jim Siedow) é cúmplice do assassino, e recebendo a ajuda do homem a quem os jovens haviam dado boleia, prende Sally e leva-a para a velha casa. Aí percebe-se que o proprietário é pai dos outros dois, e todos, juntamente com um avô extremamente idoso, vivem do canibalismo. Sally consegue mais uma vez fugir, e entrar uma furgoneta que vai a passar e a tira dali.

A primeira coisa a salientar em “Massacre no Texas” é o quão cru tudo nos parece. Desde a violência ao próprio argumento, passando, claro, pelas interpretações e qualidade dos valores de produção, dir-se-ia estarmos perante um filme semi-amador. É óbvio que as interpretações deixam algo a desejar, os personagens principais – nomeadamente o de Paul A. Partain – passam o tempo a falar e gritar como crianças mimadas, sem grande presença de ecrã, denunciando a sua gritante falta de experiência, que chega a tornar o filme algo maçador. Quanto à violência, é verdadeiramente gratuita, surgindo sem explicação ou preparação, iniciando-se logo no zénite, que são os ataques daquele que seria chamado Leatherface, com martelo ou serra eléctrica, numa estética que passa pela exibição de cadáveres mutilados e de mobiliário feito de ossadas humanas.

Fruto do seu tempo, com um público ávido de emoções fortes e de quebrar barreiras estagnadas que há muito não deixavam o cinema americano avançar, “Massacre no Texas” impõe-se por essa irreverência de conceitos e linguagem visual que nos transporta de imediato para o interior de um pesadelo, como o parece ser a paisagem rural norte-americana onde, de repente, nos sentimos longe de qualquer forma de civilização. Com um motivo que apenas no último acto é revelado – o canibalismo – vamos assistindo aos ataques de uma família sobre um grupo de amigos, que, quase sem acreditar que tal seja possível, se vê violentado, morto e desmembrado em poucos minutos. Note-se, no entanto, que a maioria destes actos acontecem fora de campo (apenas se vê um corte com a serra eléctrica, e acidental, de Leatherface em si próprio, no final, e de facto apenas uma morte é causada pela nominal serra), numa nítida tentativa de Tobe Hooper de não ferir a censura. Famoso pelo sadismo associado ao seu conceito, a verdade é que a violência do filme está mais no seu poder de sugestão que nas imagens explícitas.

Sem querer, naquilo que para si era apenas um exercício de violência exercida nas margens da civilização, e querendo fazer um simples filme de exploitation, Tobe Hooper acabaria por estipular algumas das regras do que anos mais tarde viria a ser o género slasher. Estas são: o assassino de porte assustador, sem um motivo aparente, e sem rosto visível, a arma branca, portentosa, e capaz de crimes de um macabro extremo e, claro, a final girl, a sobrevivente do ordálio, capaz de carregar a história numa sequela.

Toda a falta de condições e orçamento de Hooper funcionou a seu favor, com o resultado final, cru e imperfeito, a conferir uma estética diferente e um sentido de crueldade sem reservas que tornou o filme um ícone. Cedo tornado um filme de culto, “Massacre no Texas” tem dado origem a toda uma série de interpretações que fazem dele uma poderosa metáfora, seja sobre a matança de animais, como o pretendem os vegetarianos, seja da mentalidade traumática trazida pelos veteranos do Vietname, então um assunto ainda quente, ou as mentiras do governo norte-americano, em voga desde o escândalo de Watergate. Acima de tudo, o que perdura é a característica de pesadelo, de algo irreal que nos pode sempre atormentar quando deixamos a nossa zona de conforto, e nos confrontamos com algo diferente, e facilmente ameaçador.

Inicialmente promovido como história verdadeira, tendo desde logo problemas com a distribuição, e vindo a ser proibido nalguns mercados internacionais, “Massacre no Texas” não deixou de ser um grande sucesso de bilheteira, tendo em conta o seu parco orçamento e o facto de ser um filme independente. O filme ganharia um segundo fôlego no mercado de vídeo dos anos 80, vindo então a originar um jogo de computador da Atari. A crescente popularidade levaria a um número de sequelas, a saber: “Massacre no Texas 2” (The Texas Chainsaw Massacre 2, 1986), também de Tob Hooper; “O Assassino da Moto-Serra” (Leatherface: Leatherface: The Texas Chainsaw Massacre III, 1990), de Jeff Burr; e “Massacre no Texas: O Regresso” (Texas Chainsaw Massacre: The Next Generation, 1994), de Kim Henkel. Depois viria o remake “Massacre no Texas” (The Texas Chainsaw Massacre, 2003), de Marcus Nispel; o qual teria uma prequela em “Massacre no Texas – O Início” (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, 2006), de Jonathan Liebesman. Seguiu-se “Texas Chainsaw: O Massacre” (Texas Chainsaw 3D, 2013), de John Luessenhop, que funciona como sequela directa do filme original, ignorando todos os outros; e a prequela do filme original “Leatherface – A Origem do Mal” (Leatherface, 2017), de Julien Maury e Alexandre Bustillo.

Produção:

Título original: The Texas Chainsaw Massacre; Produção: Vortex; Produtor Executivo: Jay Parsley; País: EUA; Ano: 1974; Duração: 84 minutos; Distribuição: Bryanston Distributing (EUA); Estreia: 4 de Outubro de 1974 (EUA), 4 de Março de 1999 (Fantasporto, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Tobe Hooper; Produção: Tobe Hooper; Produtor Associado: Kim Henkel, Richard Saenz; Argumento: Kim Henkel, Tobe Hooper [a partir de uma história de Kim Henkel]; Música: Wayne Bell, Tobe Hooper; Fotografia: Daniel Pearl, Tobe Hooper [fotografia adicional]; Montagem: J. Larry Carroll, Sallye Richardson; Direcção Artística: Robert A. Burns; Caracterização: W. E. Barnes, Dorothy J. Pearl; Efeitos Especiais: Dean W. Miller [não creditado]; Direcção de Produção: Ronald M. Bozman.

Elenco:

Marilyn Burns (Sally), Allen Danziger (Jerry), Paul A. Partain (Franklin), William Vail (Kirk), Teri McMinn (Pam), Edwin Neal (Homem à Boleia), Jim Siedow (Proprietário), Gunnar Hansen (Leatherface), John Dugan (Avô), Robert Courtin (Lavador de Janelas), William Creamer (Homem Barbudo), John Henry Faulk (Contador de Histórias), Jerry Green (Cowboy), Ed Guinn (Motorista do Camião de Gado), Joe Bill Hogan (Bêbedo), Perry Lorenz (Motorista da Furgoneta), John Larroquette (Voz do Narrador).