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Night of the Living Dead Os irmãos Johnny (Russell Streiner) e Barbra (Judith O’Dea) viajam até ao cemitério onde está enterrado o seu pai, quando são atacados por um morto-vivo. Johnny é imediatamente morto, mas Barbra foge, refugiando-se numa casa abandonada no campo. Pouco depois chega outro fugitivo, Ben (Duane Jones), sem gasolina no carro, enquanto lá fora mais mortos-vivos se vão acumulando, tentando entrar na casa. Enquanto Ben decide barricar portas e janelas, descobre que na cave estão mais algumas pessoas escondidas. Só que em vez de cooperarem, a discussão vai reinar, entre o medo dos atacantes, a vontade de controlar o grupo e as decisões sobre melhor forma de defesa contra monstros que não parecem morrer.

Análise:

No final dos anos 60 do século XX, o jovem de ascendência hispano-lituana George A. Romero, então um entusiasta de cinema, com uma experiência limitada a filmes amadores, formou, juntamente com nove amigos, a pequena produtora independente Image Ten Productions. A sua primeira produção foi um filme dirigido pelo próprio Romero, a partir de um argumento escrito por si e por outro elemento do grupo, John A Russo. A ideia era simplesmente criar uma história bizarra, com um pé no terror, outro na comédia, provisoriamente chamada “Monster Flick”, mas o resultado acabou por surpreender o mundo, inclusivamente os próprios autores, quando o produto final se começou a tornar um fenómeno de culto.

O guião do filme que se tornaria “A Noite dos Mortos Vivos” começava por ser uma história de visitantes alienígenas que se relacionavam com jovens terrestres, para evoluir para uma mais terrífica história envolvendo extra-terrestres comedores de cadáveres humanos. Daí passou-se para uma ideia de reanimação de cadáveres, os quais passavam a ser os comedores de humanos. Com inspiração em parte retirada de “I Am Legend”, o livro de Richard Matheson publicado em 1954, e já várias vezes adaptado ao cinema, aos poucos criava-se a ideia daquilo que hoje imaginamos como zombies, mas então apenas chamados «ghouls» (espécie de espírito ou monstro horrífico, que aparecia nos cemitérios, sem tradução definida para português).

Começando numa banal viagem de automóvel a um distante cemitério, conhecemos os irmãos Johnny (Russell Streiner) e Barbra (Judith O’Dea), que ao chegar são atacados por um morto-vivo. Johnny é morto no local, e Barbra foge, refugiando-se numa casa abandonada no campo. Aí, chega Ben (Duane Jones), que perante o estado catatónico da rapariga, assume a defesa da casa barricando portas e janelas, enquanto lá fora mais mortos-vivos vão chegando. Da cave, surgem o casal Harry (Karl Hardman) e Helen Cooper (Marilyn Eastman), que têm uma filha doente, e o casal mais jovem Tom (Keith Wayne) e Judy (Judith Ridley). Harry instiga todos a refugiarem-se na cave, mas Ben recusa, pois vê a cave como um lugar sem saída. Com ele ficam Barbra, Tom e Judy. Com a descoberta de uma televisão, que mostra que o caso está a afectar todo o país, Helen convence o marido a subir. A decisão é irem todos para um lugar a salvo, mas quando tentam encher o depósito de combustível numa bomba perto da cabana, um acidente mata Tom e Judy e faz explodir o carro. Ben quase não consegue voltar, pois Harry continua a detestá-lo por ele se lhe impor. Por fim os Cooper voltam à cave, onde a filha já se tornou morta-viva, comendo os dois pais e transformando-os. Em cima, Barbra é levada pelos mortos-vivos, enquanto Ben tem de matar o zombie Harry a tiro. Chegada a manhã, chegam os salvadores, grupos de vigilantes sob o comando dos xerifes locais, que se vão desfazendo dos mortos-vivos com tiros na cabeça e queimando os cadáveres. Quando Ben espreita de casa para ver quem eles são é morto a tiro, confundido com um morto-vivo.

Quase sem saber o que fazia, muito menos sem o esperar, George A. Romero criava um clássico instantâneo, filmado com um orçamento reduzidíssimo, com figurantes arranjados entre amigos e técnicos da equipa de filmagens, diálogos muitas vezes improvisados, e cenas reescritas diariamente à medida que as filmagens prosseguiam. Mostrando que por vezes o minimalismo é mesmo uma arma, Romero filmou a preto e branco, com uma fotografia algo saturada, e por vezes um pouco granulada, criando «ghouls» com um mínimo de maquilhagem (apenas uma descoloração facial e olheiras) recorrendo a poucos efeitos especiais, e incluindo apenas uma sequência onde se vê a atrocidade que é um bando de mortos-vivos a comer vísceras humanas.

Aliada a estas características, a própria interpretação é espartana, com poucos diálogos, e uma forma rude de estar, que confere um ainda maior realismo ao pânico da situação. Essa necessidade de fazer muito com poucos recursos torna-se mesmo uma arma na explanação da narrativa. Esta acontece de modo conciso, quase usando uma lógica de palco, onde este é a casa onde os personagens vão sendo apresentados um por um, sempre acrescentando mais peças ao puzzle. Essa opção (económica) confere também uma estrutura limpa, um sentido de claustrofobia, exacerbado nos planos fechados em torno dos protagonistas, e uma constante ameaça do desconhecido: os «ghouls» que se vão acumulando no exterior, e de quem os ocupantes da casa falam com pavor. Assim, sem necessidade de mostrar muito, ou de depender de muito sangue ou de efeitos especiais, temos sempre um sentido de ameaça, nem que seja invisível, a qual é ampliada pelo crescente pânico interno, e constantes discussões desesperadas dos protagonistas, para não falar do próprio comportamento autómato dos mortos-vivos, por isso mesmo ameaçador e terrífico.

A ajudar a todo esse desespero e claustrofobia chegam as imagens do exterior na forma de reportagens televisivas, entrevistas e imagens que lembram documentários realistas. O resultado é sempre o mesmo: a ameaça é constante, inexplicável e volumosa, o que torna toda a situação mais desesperante. O desespero é a mola para despoletar os comportamentos erráticos dos ocupantes da casa, onde se distinguem Ben, pela sua assertividade e espírito prático, e Harry, pela sua cobardia e individualismo, que vão provocar o confronto explosivo, quase mais perigoso que aquilo que vem de fora.

Mas entre o que mais marca o filme “A Noite dos Mortos Vivos” está o seu final desconcertante, quando aquele que começámos a perceber como herói (o único com cabeça fria para tomar decisões acertadas contra o pânico geral), é morto friamente por ser confundido de longe com mais um morto-vivo. É como que uma forma de Romero e Russo nos dizerem que não existem soluções, e o mundo está mesmo à beira do abismo, e as imagens finais, em fotos de homens com ganchos, como quem carrega carcaças para um matadouro vem-nos lembrar que é o homem afinal o maior dos sanguinários. O facto de o actor Duane Jones ser negro leva-nos ainda a lembrar a situação de conflito racial que os Estados Unidos atravessavam (Martin Luther King Jr. foi assassinado nesse mesmo ano), fazendo com que o filme fosse também visto à luz desse comentário social, em que os negros eram chacinados por grupos racistas, algo que Romero disse ser apenas uma coincidência, pois a cor do seu protagonista não foi algo premeditado.

Assim, recriando o mito dos comedores de carne, que aqui pouco têm a ver com os zombies como figuras fantasmagóricas do voodoo haitiano, Romero criava os fundamentos de um novo género, que tantos filmes e (mais recentemente) séries de televisão iria influenciar. O cânone do que seria o zombie foi escrito neste filme, bem como nos seguintes, pois Romero viria a assinar mais seis sequelas: “Zombie: A Maldição dos Mortos-Vivos” (Dawn of the Dead, 1978), “O Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 1985), “Terra dos Mortos” (Land of the Dead, 2005), “Diário dos Mortos” (Diary of the Dead, 2007) e “A Ilha dos Mortos” (Survival of the Dead, 2009), vários deles com remakes, sequelas e/ou prequelas. Curioso foi que, após a estreia de “A Noite dos Mortos Vivos”, também o argumentista John A. Russo quis continuar um caminho independente, e após lutas legais sobre o nome, definiu-se que os seus filmes poderiam usar «Living Dead» no título, enquanto os de Romero apenas «Dead». Com maior ou menor participação de Russo, a série “Return of the Living Dead” originou cinco filmes entre 1985 e 2005, geralmente em tom mais cómico. Há ainda a considerar o primeiro remake do original, produzido pelo próprio Romero (uma vez que, por erro burocrático, os direitos do filme original tinham caído em domínio público), “A Noite dos Mortos Vivos” (Night of the Living Dead, 1990), realizado por Tom Savini, além de outras sequelas menos conhecidas de outras produtoras. Existe ainda um enorme número de filmes que tentaram fazer aproveitamento do nome do filme inicial, à revelia de Romero, como é exemplo o filme italiano “Zombi 2 – A Invasão dos Mortos Vivos” (Zombi 2, 1979) de Lucio Fulci, que com o número «2», pretendia ser sequela do segundo filme da série de Romero (“Zombie: A Maldição dos Mortos-Vivos”), em Itália simplesmente intitulado “Zombi”.

Embora inicialmente criticado pelos baixos valores de produção, um gore chocante e um final perturbador, “A Noite dos Mortos Vivos” tornar-se-ia um fenómeno de culto, passando em breve ao estatuto de clássico, definindo um género e deixando escola, quer no uso do gore no cinema, como no estabelecimento do subgénero dos filmes de zombies.

Imagem de "A Noite dos Mortos Vivos" (Night of the Living Dead, 1968), de George A. Romero

Produção:

Título original: Night of the Living Dead; Produção: Image Ten / Laurel Group / Market Square Productions / Off Color Films; País: EUA; Ano: 1968; Duração: 96 minutos; Distribuição: Continental Distributing, Walter Reade Organization; Estreia: 1 de Outubro de 1968 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: George A. Romero; Produção: Russell Streiner, Karl Hardman; Argumento: John A. Russo, George A. Romero; Supervisão Musical: John Seely [não creditado]; Fotografia: George A. Romero [não creditado] [preto e branco]; Montagem: George A. Romero [não creditado]; Caracterização: Hardman Assoc. Inc.; Efeitos Especiais: Regis Survinski, Tony Pantanella; Direcção de Produção: Vincent Survinski, George Kosana.

Elenco:

Duane Jones (Ben), Judith O’Dea (Barbra), Karl Hardman (Harry Cooper), Marilyn Eastman (Helen Cooper), Keith Wayne (Tom), Judith Ridley (Judy), Kyra Schon (Karen Cooper), Russell Streiner (Johnny Blair) [não creditado], Charles Craig (Locutor / Zombie), S. William Hinzman [como Bill Heinzman] (Zombie no Cemiério), George Kosana (Xerife McClelland), Frank Doak (Cientista), Bill Cardille (Repórter), A. C. McDonald (Zombie / Vigilante Armado), Samuel R. Solito (Zombie / Vigilante Armado), Mark Ricci (Cientista de Washington), Lee Hartman (Zombie / Repórter), Jack Givens (Zombie), Rudy Ricci [como R. J. Ricci] (Zombie), Paula Richards (Zombie), John Simpson (Zombie), Herbert Summer (Zombie), Richard Ricci (Zombie), William Burchinal (Zombie), Ross Harris (Locutor / Zombie), Al Croft (Zombie), Jason Richards (Zombie), Dave James (Zombie), Sharon Carroll (Zombie), William Mogush (Zombie), Steve Hutsko (Zombie / Cameraman Steve), Joann Michaels (Zombie), Phillip Smith (Zombie / Vigilante Armado), Ella Mae Smith (Zombie), Randy Burr (Zombie / Vigilante Armado).

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