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Happy End Georges Laurent (Jean-Louis Trintignat) é o octogenário patriarca de uma família de classe alta, que contempla secretamente o fim da sua vida e o desejo do suicídio. À sua volta estão a filha Anne (Isabelle Hupert), que dirige os negócios de construção civil da família, com o incapaz filho Pierre (Franz Rogowski), ambos em problemas por um desabamento numa construção. O outro filho de Georges é Thomas (Mathieu Kassovitz), que vê Eve (Fantine Harduin), de 13 anos e filha do seu primeiro casamento, voltar para si, depois do envenenamento da mãe, por ela provocado, enquanto ele próprio tem segredos a esconder da actual esposa.

Análise:

Nunca antes tendo um tão grande intervalo entre filmes, ao planear “Happy End”, Michael Haneke parece ter usado o antecessor “Amor” (Amour, 2013) como inspiração para alguns dos seus temas. E a prova é ver que voltou a trabalhar com Jean-Louis Trintingnat e Isabelle Hupert, mais uma vez nos papéis de pai e filha, com os mesmos nomes dos personagens do filme anterior, no que poderia ser uma continuação da sua história, agora passada em Calais, com vista para o mar, e com a presença da migração a competir com as histórias de vida e morte de uma família abastada.

“Happy End” é a história dos Laurent, uma família de industriais, que vive uma espécie de mudança de estações. Esta ocorre em várias vertentes. Há, por um lado, um acidente numa construção da família, gerida por Anne (Isabelle Huppert) e pelo seu incompetente filho Pierre (Franz Rogowski), e que pode pôr em perigo toda a companhia. Há a velhice do patriarca Georges (Jean-Louis Trintignant), viúvo, a sentir a senilidade a avançar, e sem interesse por nada. E há a história da pequena Eve (Fantine Harduin) que, farta da mãe, a envenena para viver com o pai Thomas (Mathieu Kassovitz), filho de Georges e irmão de Anne, o qual vive uma vida dupla, mantendo uma amante com quem troca mensagens de práticas sexuais de humilhação e sado-masoquismo. Com a chegada de Eve, vemos as frágeis ligações da família, em relações frias e desapaixonadas. Por um lado Georges faz o que pode para se suicidar (de um falhado acidente de automóvel a tentativas frustradas de comprar uma pistola). Por outro, Anne, noiva do inglês Lawrence Bradshaw (Toby Jones), sabe que isso é mais um elemento de cisão com o filho, o qual se vai afastando, sentindo-se culpado pela responsabilização da firma no processo judicial pela morte de um funcionário. Por fim, com Eve a descobrir a correspondência secreta do pai, ganha medo de voltar a ser abandonada por ele, e tenta ela também o suicídio. Pelo meio, a família não deixa de aparentar saúde para o exterior, com uma série de eventos faustosos para os quais convida a alta sociedade da região, numa demonstração oca do que Buñuel teria chamado um discreto charme de burguesia.

Aquando da estreia de “Happy End” falou-se muito da presença do tema da migração, não deixando de se realçar que a paisagem de Calais, com as suas bonitas praias e as muitas esplanadas com vista para o mar, poderiam ser as de Cannes, onde o filme estreou, estando Haneke a fazer do seu público participante na metáfora da desigualdade que o filme nos apresenta. Tal exercício – fazer do público participante, mediante uma forma de filmar que faz com que porções dos seus filmes pareçam documentários que só poderiam ter sido filmados pelos próprios espectadores – não seria novo, mas tirando a sequência final, com Pierre a apresentar vários migrantes africanos – algo que reflecte o enredo secundário do funcionário morto na construção – e o facto de os empregados da casa dos Laurent serem marroquinos (que Pierre já apresentara sarcasticamente como escravos), o tema nunca deixa o fundo. Tal não é estranho em Haneke, que prefere apresentar ideias em vez de as dissecar e julgar. Mas aqui a ideia é a da superficialidade das classes altas, numa demonstração do que uma fachada pode esconder.

Aliado a isso, temos novamente o tema da morte. Como dito inicialmente, este filme poderia ser uma espécie de continuação da história do personagem de Jean-Louis Trintignant, agora mais velho, à beira da senilidade, sem alento na sua vida, e procurando suicidar-se de várias formas. Numa conversa com a neta Eve, o velho Georges conta-lhe mesmo que cuidou da sua amada esposa até a sobrevivência desta ser tão penosa que teve de a matar, sufocando-a – tal como na história de “Amor”. É, mais uma vez, a solução da eutanásia – para a qual Georges agora procura ajuda – que Haneke parece contemplar como o tal final feliz (ou única saída possível) de que fala o título do filme. É com a perspectiva da morte que o filme se inicia e termina, numa espécie de ciclo que une avô e neta. Eve, pela sua idade tendo um espírito mais aberto, é a interlocutora privilegiada desta conversa de Georges. Afinal, vemo-la na sequência inicial a testemunhar os efeitos do envenenamento da própria mãe – Eve apenas diz que quer que ela fique calada, mas tal resultará na sua morte – como já testara no hamster, e – saberemos mais tarde – fizera com uma colega de escola. Pelo meio Eve tentará mesmo suicidar-se. Por essa razão Georges sabe poder contar com a neta quando lhe pede que o leve até ao mar, onde procura o afogamento.

Talvez a atitude de Eve, filmando e comentando através do seu telemóvel os últimos momentos da mãe e do avô nos pareçam cruéis. Mas, em Haneke, mais não são que a habitual distância, ou ausência de envolvimento com que ele pinta as suas histórias e com elas a cultura de alheamento que atravessamos. Por isso, nas suas imagens, vemos surgir a tecnologia como mediadora, aqui na forma de imagens de telemóvel, de quem prefere filmar a agir, ou de quem age para que fique filmado. Por isso vemos como Eve pertence à geração que segue os youtubers, por mais alheados que os seus exemplos nos pareçam. Mas para que não se pense que o filme julga as novas gerações e tecnologias, estas – as tecnologias – mostram-nos como podem ser usadas pelas gerações mais velhas para depravações mais velhas também, na pessoa de Thomas, um homem que, como Eve descreve perfeitamente, não conseguirá nunca amar ou comunicar verdadeiramente com ninguém.

Com tal presença de morte (note-se que antes de conhecermos as personagens já nos foram dadas a ver – sem as vermos verdadeiramente – duas: a da mãe de Eve e a do empregado da firma dos Laurent), e constante cheiro de suicídio, talvez esperemos mesmo que esta seja a saída de desespero de Pierre – o mesmo Pierre que víramos numa confrangedora tentativa de karaoke –, quando o vemos ser acossado pela mãe, e dirigir-se a uma janela aberta. É, curiosamente, este Pierre que introduzirá o tema da migração, ela própria uma história que deixa para trás a morte.

Como sempre, com temas fortes, embora aqui talvez mais dispersos que nos seus habituais argumentos concisos e claustrofóbicos, Haneke limita-se a mostrar, sem emoções, em planos fixos, como quem olha por detrás de um ecrã (como Eve), espiando quase de longe, medindo esse não-envolvimento pelo modo como deixa as cenas decorrer – veja-se como a cena do desabamento é filmada do mesmo modo anónimo das cassetes de “Nada a Esconder” (Caché, 2005) –, pelo modo como não mostra os intervenientes reagir-lhes, ou até pelas várias elipses em que descobrimos os acontecimentos mais marcantes (o facto de haver uma pessoa vitimizada pelo desabamento de terra na construção; a morte da mãe de Eve; o acidente automóvel de Georges; a tentativa de suicídio de Eve; etc.) apenas posteriormente.

Fantine Harduin, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Laura Verlinden, Toby Jones e Mathieu Kassovitz em "Happy End" (2017), de Michael Haneke

Produção:

Título original: Happy End; Produção: Les Films du Losange / X-Filme Creative Pool / Wega Film / Arte France Cinéma / France 3 Cinéma / Westdeutscher Rundfunk (WDR) / Bayerischer Rundfunk (BR) / Arte G.E.I.E. [fr] / Arte France / France Télévisions / Canal+ / Ciné+ / ORF (Film/Fernseh-Abkommen); Produtores Executivos: Margaret Ménégoz, Uwe Schott, , Michael Katz, Christopher Granier-Deferre (Londres); País: França, Áustria, Alemanha; Ano: 2017; Duração: 108 minutos; Distribuição: Les Films du Losange; Estreia: 22 de Maio de 2017 (Festival de Cannes, França), 4 de Outubro de 2017 (França), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Haneke; Produção: Margaret Ménégoz (Paris), Stefan Arndt (Berlim), Veit Heiduschka (Viena), Michael Katz (Viena); Co-Produção: Cecile Negrier, Aurelie Rouviere, Olivier Père, Rémi Burah; Produtor em Linha (Reino Unido): Christopher Granier-Deferre; Argumento: Michael Haneke; Fotografia: Christian Berger [fotografia digital]; Montagem: Monika Willi; Cenários: Olivier Radot, Anthony Neale (Londres); Figurinos: Catherine Leterrier; Caracterização: Thi Loan Nguyen, Thi Thanh Tu Nguyen; Efeitos Especiais: Jean-Baptiste Bonetto, Christian Rivet, Rémi Canaple; Efeitos Visuais: Arnaud Fouquet, Jean-François Theault, Geoffrey Kleindorfer, Mario Wessely; Direcção de Produção: Sylvie Barthet, Ulli Neumann, Ulrike Lässer, Rob Watson (Reino Unido).

Elenco:

Isabelle Huppert (Anne Laurent), Jean-Louis Trintignant (Georges Laurent), Mathieu Kassovitz (Thomas Laurent), Fantine Harduin (Eve Laurent), Franz Rogowski (Pierre Laurent), Laura Verlinden (Anaïs), Toby Jones (Lawrence Bradshaw), Aurélia Petit (Nathalie), Hille Perl (Violoncelista), Hassam Ghancy (Rachid), Nabiha Akkari (Jamila), Joud Geistlich (Selin), Philippe du Janerand (Maître Barin), Dominique Besnehard (Marcel, O Cabeleireiro), Bruno Tuchszer (Inspector de Construção), Alexandre Carrière (Inspector de Construção), Nathalie Richard (Agente Imobiliária), David Yelland (Director do Banco Inglês), Waël Sersoub (Brigão), Marie-Pierre Feringue (Testemunha da briga), Maryline Even (Esposa da Vítima), Maëlle Bellec (Amiga de Anaïs), David El Hakim (Vendedor na Praia), Frédéric Lampire (Maître do Hotel), Timothé ‘Tim’ Buquen (Youtuber).