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Amour Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de octogenários, antigos professores de piano, que vivem pacatamente entre os livros e a música clássica que continuam a apreciar ouvir ao vivo. Um dia, Anne tem uma súbita crise de ausência, da qual ela própria não se lembra. Quando a situação se repete de modo mais acentuado, Georges tem de a levar ao hospital, onde lhe é diagnosticado um AVC e feita uma cirurgia que a vai deixar a caminho de uma paralisia e de uma condição mental cada vez mais débil. Só a teimosia de Georges fará com que Anne continue em casa, onde ele lhe dá todos os cuidados possíveis para que a esposa tenha o conforto e carinho que sempre lhe mereceu.

Análise:

Mantendo a sua propensão para filmar co-produções entre o seu país de origem e a França, com actores franceses, e em língua francesa, depois de uma passagem pelos Estados Unidos, e outra pela Alemanha, Michael Haneke voltava a rodar um filme em francês, novamente com Isabelle Huppert, que desta vez era secundária em relação aos dois mitos vivos que dominam o filme: Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva.

Escrito, como sempre, por si, “Amor” conta-nos a história do casal idoso Georges (Trintignant) e Anne (Riva), antigos professores de música, que vivem sós, entre a cultura que sempre amaram, até ao momento em que Anne sofre um acidente vascular que a deixa incapacitada. A princípio parece brincadeira, mas o caso revela-se grave, e Anne é submetida a uma intervenção cirúrgica que agrava a sua paralisia. A partir de então a sua condição vai-se deteriorando, com Georges a insistir cuidar dela, para ter a certeza de que ela tem todo o conforto e carinho que ele lhe deseja. Se Georges ignora o pedido de Anne de lhe pôr fim à vida, pois por algum tempo Anne ainda parece funcional, um segundo AVC deixa-se completamente incapacitada e em demência acelerada. Com Eva (Isabelle Huppert), a filha do casal a insistir para que o pai entregue a mãe a um hospital, ele continua inamovível, recorrendo à ajuda de enfermeiras contratadas, para descobrir que estas nem sempre tratam Anne com humanidade. Por fim, Georges decide matar Anne, sufocando-a com uma almofada, deixando depois a casa, preferindo imaginar que Anne saiu com ele.

Dando-nos um olhar tão doloroso quanto realista sobre a morte e o final de vida, naquilo que este pode ter de mais assustador e decrépito, Michael Haneke explora mais uma vez o tema da vulnerabilidade humana, aqui nos últimos dias de um casal, ou mais propriamente do elemento feminino. E iniciando exactamente por essa vulnerabilidade, ela começa a ser sugerida em pequenas coisas, como as actividades rotineiras do casal, que tenta viver uma vida digna, agora que espera já os últimos dias. Por isso, eles que foram professores de piano, hoje se limitam a assistir a concertos de alunos da filha (Huppert) ela própria professora de piano – como no filme “A Pianista” (Le Pianiste, 2001). O primeiro sinal é dado pelo regresso do casal a casa, depois de um concerto, quando percebem que a porta foi forçada, e houve uma tentativa de assalto, sem que nada possam fazer sobre isso.

Essa omnipresente vulnerabilidade e impotência perante forças maiores (afinal, o peso da idade, e a própria condição humana) – como também o será a vulnerabilidade do pombo que surge no apartamento, e que Georges captura, para mais tarde soltar – torna-se um jogo do que podemos ou não controlar, e do quanto dependemos disso. No caso, o controlo é nulo, e resta a Georges fazer os possíveis para manter Anne consigo, onde o amor guia os cuidados e atenção que só ele lhe pode dar. E esse amor é o que vemos cada gesto e cada luta de Georges – das prosaicas acções que vão do lavar ao dar de comer a Anne e ajudá-la a andar (mais tarde incluindo levá-la à casa de banho e finalmente mudar-lhe as fraldas, onde não se deixa de mostrar o corpo nu de Anne), até às lutas que tem que travar com todos, incluindo a filha Eva, que aparenta uma frieza incapaz de compreender a ligação entre os seus pais.

Somos nós que, por todo esse exemplo que é a dedicação de Georges, intuímos esse amor, essa dedicação, e não podemos deixar de pensar que se agora Anne é a carcaça de alguém que vai perdendo vida minuto a minuto, ela já foi alguém, uma mulher criativa, culta, emotiva, que viveu, amou e construiu uma vida com o marido. É essa mulher que Georges não pode deixar de amar, e é essa memória que ele preserva e que o guia acima da realidade presente.

Mas é sobretudo de realidade que trata “Amor”, tanto por nos lembrar que o destino de Anne é o destino que nos pode perfeitamente esperar, como pelo tratamento dado ao tema, com Haneke a dar-nos um extremo realismo onde nenhum momento de desconforto nos é negado. Com os seus habituais planos fixos, filmando o apartamento de ângulos escolhidos, para enquadramentos dos quais os personagens entram e saem, com muitos dos momentos a ocorrerem fora de campo, Haneke traz-nos, através desse aparente filmar despretensioso, um sentido de realismo ainda mais profundo, onde tudo parece estar a acontecer em tempo real à frente dos nossos olhos, sem que nós – também impotentes, como Georges e Anne – possamos fazer alguma coisa.

Por tudo isso, “Amor” é uma história de uma morte anunciada – não devemos esquecer que todo o filme é um flashback dado a partir do momento em que o corpo de Anne é encontrado dias depois da sua morte, numa cama salpicada de flores, num quarto selado por fora com fita. Desse modo, quando chegamos ao momento da morte de Anne, e vemos que esta morre às mãos de Georges, que num acto de piedade a sufoca, aceitamos esse choque como mais uma brutal peça dessa realidade para que fôramos atirados, e a que já tínhamos cedido – tal como Anne fizera antes, ao pedir essa eutanásia assistida.

Como sempre, Haneke mostra sem julgar. De um modo analítico, deixa-nos todos os dados, para que julguemos nós se quisermos, o papel da eutanásia, o gesto de Georges, e o seu sofrimento pessoal, pois afinal não é apenas a vida de Anne que está em jogo (seja na doença ou na morte), mas também a sua vida, futuro e paz de espírito. Poderá Georges fazer as pazes como seu gesto final? Recuperará a imagem de Anne que foi a mulher que ele sempre amou? Ou ficará esta imagem para sempre tolhida pela da decrepitude final da esposa? Sem respostas, num filme que termina quando o protagonista sai porta fora, cabe-nos tentar entender Georges, agora que com ele, sofremos pela condição de Anne.

“Amor” tornou-se um fenómeno imediato arrasando crítica e público apesar do seu tem difícil. O filme venceria a Palma de Ouro na sua estreia, em Cannes, e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em Hollywood, onde foi ainda nomeado em mais quatro categorias (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz, Melhor Argumento Original), fazendo de Emmanuelle Riva a actriz mais idosa a ser nomeada aos Oscars, então com 85 anos. O sucesso em prémios não ficaria por aí, com vitórias nos ingleses BAFTA, nos franceses César, e nos European Film Awards, e triunfos em muitos outros eventos internacionais.

Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant em "Amor" (Amour, 2012), de Michael Haneke

Produção:

Título original: Amour; Produção: Les Films du Losange / X-Filme Creative Pool / Wega Film / France 3 Cinéma / ARD Degeto Film / Bayerischer Rundfunk (BR) / Westdeutscher Rundfunk (WDR); Produtores Executivos: Margaret Ménégoz, Michael Katz, Uwe Schott; País: Áustria / França / Alemanha; Ano: 2012; Duração: 107 minutos; Distribuição: Les Films du Losange (França) / X Verleih AG (Alemanha) / Filmladen (Áustria); Estreia: 20 de Maio de 2012 (Festival de Cannes, França), 6 de Julho de 2012 (França), 6 de Dezembro de 2012 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Haneke; Produção: Stefan Arndt (Berlim), Michael Katz (Viena), Veit Heiduschka (Viena), Margaret Ménégoz (Paris); Co-Produção: Rodin Alper Bingol, Alice Girard (France 3 Cinéma), Daniel Goudineau (France 3 Cinéma), Hans-Wolfgang Jurgan (ARD Degeto), Bettina Reitz (ARD Degeto), Bettina Ricklefs (BR), Michael André (WDR), Wolfgang Lorenz (Rédaction ORF), Heinrich Mis (Rédaction ORF); Argumento: Michael Haneke; Fotografia: Darius Khondji [fotografia digital]; Montagem: Nadine Muse, Monika Willi; Design de Produção: Jean-Vincent Puzos; Direcção Artística: Thierry Poulet; Cenários: Susanne Haneke, Sophie Reynaud; Figurinos: Catherine Leterrier; Caracterização: Thi-Loan Nguyen; Efeitos Especiais: Yves Domenjoud; Efeitos Visuais: Arnaud Fouquet; Direcção de Produção: Ulli Neumann, Olivier Thaon.

Elenco:

Jean-Louis Trintignant (Georges), Emmanuelle Riva (Anne), Isabelle Huppert (Eva), Alexandre Tharaud (Alexandre), William Shimell (Geoff), Ramón Agirre (Marido da Porteira), Rita Blanco (Porteira), Carole Franck (Enfermeira), Dinara Drukarova (Enfermeira), Laurent Capelluto (Polícia), Jean-Michel Monroc (Polícia), Suzanne Schmidt (Vizinha), Damien Jouillerot (Paramédico), Walid Afkir (Paramédico).