Etiquetas

, , , , , , , , , ,

Westfront 1918: Vier von der Infanterie No final da Primeira Guerra Mundial, já em 1918, combate-se ainda nas trincheiras da Frente Ocidental, em França. Aí, quatro soldados alemães, o Bávaro (Fritz Kampers), Karl (Gustav Diessl), o Estudante (Hans-Joachim Möbis) e o Tenente (Claus Clausen) convivem já pacificamente com a população, e o Estudante tem mesmo uma namorada francesa (Jackie Monnier). Mas a guerra continua e a vida nas trincheiras é dolorosa, com fogo inimigo a fazer baixas, desmoronamentos de trincheiras, falta de comida e descanso, ou a desmoralização de quando se tem licença e se vai a casa, para encontrar uma realidade da qual já nada se conhece.

Análise:

Baseado na obra “Vier von der Infanterie” do escritor Ernst Johannsen, Georg Wilhelm Pabst realizou o seu filme sonoro, “Quatro de Infantaria”. Associado vulgarmente ao movimento do Expressionismo Alemão, pela sua afinidade com o cinema da então República de Weimar (a Alemanha do período entre guerras), o austríaco Pabst destacou-se daquele movimento por uma abordagem mais directa e objectiva, menos alegórica e dramática, para abordar frontalmente temas difíceis. É nessa corrente, a que se chamou Nova Objectividade (em alemão Neue Sachlichkeit), que se enquadra este “Quatro de Infantaria”, que espantou pela sua mensagem fortemente pacifista, ao retratar de modo realista e sóbrio todo o lado negro da guerra.

Os “Quatro de Infantaria” são quatro soldados alemães, que vemos na Frente Ocidental, a combater em França, num momento em que na Alemanha, a população, sem grande conhecimento da realidade, espera uma entrada triunfante em Paris. Eles são o Bávaro (Fritz Kampers), Karl (Gustav Diessl), o Estudante (Hans-Joachim Möbis) e o Tenente (Claus Clausen), que, quando os conhecemos, estão juntos em França, com o Estudante a cortejar uma moça francesa (Jackie Monnier), de quem se enamora. Mas logo se dá o regresso à frente de batalha e vida dura das trincheiras, onde um desabamento quase custa a vida a Karl, ao Tenente e ao Bávaro. Vemos depois a sobrevivência durante disparos de artilharia, quando fogo amigo começa a cair junto à trincheira alemã, tendo que ser enviado um corredor para rectificar o erro. Karl tem uns dias de licença e vai a casa, onde descobre a esposa (Hanna Hoessrich) na cama com o talhante (Jackie Monnier), e ouve a mãe dele (Else Heller) defender a nora, dizendo que os homens não devem estar tanto tempo fora de casa, levando a uma reconciliação amarga. Na frente, as batalhas continuam, e numa investida de infantaria o Estudante acaba morto apunhalado, e o seu corpo fica na lama. Sob fogo intenso, o Bávaro e Karl são feridos gravemente, enquanto o Tenente colapsa mentalmente. Karl acaba por morrer, a pensar na esposa, enquanto um soldado francês, também ferido, lhe diz «camaradas, não inimigos».

Saído pouco depois de “A Oeste Nada de Novo” (All Quiet on the Western Front), de Lewis Milestone, “Quatro de Infantaria” foi-lhe desde logo comparado, tanto por repetir um pouco a história – mostrando as desventuras de um grupo de militares alemães na frente ocidental, em França –, como por lhe tomar o mesmo tom – um forte manifesto anti-guerra, no qual esta é mostrada como algo inglório, trágico e decepador de vidas.

Se algo distingue “Quatro de Infantaria” do filme de Lewis Milestone, é um menor sentido dramático, tornando cada cena mais prosaica, e por isso também mais chocantemente realista. Pabst não nos dá apenas os horrores de guerra, da morte aos ferimentos e destruição. Mostra-nos ainda os efeitos colaterais, do Estudante e a rapariga francesa que encontram o amor, que vivem brevemente de modo quase clandestino para o perderem quando aquele morre estupidamente, apunhalado; a Karl que vê a sua família desmoronar-se («de quem é a culpa?» pergunta-se – «de ninguém» e «de todos» são as respostas que vemos serem dadas). Vemos as filas do racionamento e a dificuldade em obter comida. Vemos as muitas causas de morte, do fogo inimigo ao desmoronamento de trincheiras, do gás à perda da sanidade. “Quatro de Infantaria” centra-se menos nos seus personagens – os quatro soldados citados são apenas referências que vão surgindo na narrativa, sem que esta dependa fortemente deles – e principalmente num sem número de acontecimentos que pretendem dar-nos pinceladas do quotidiano da luta de trincheiras. E esta é tudo menos heróica, ou glamorosa, sendo-nos mostrada como um conjunto de peripécias fruto do medo, más decisões, improviso e essencialmente, muito horror e ansiedade.

Pabst defendia que o realismo não era o seu objectivo, mas sim um meio do qual partia para compor depois com outras figuras de estilo. Não espanta que haja por isso alguma estilização na definição de situações e personagens. Mas isso em nada enfraquece o efeito do filme, o qual se traduz numa caracterização impressionante, mesmo em termos cénicos, numa obra onde muitas sequências foram pensadas como se para um filme mudo. A mensagem de Pabst é claramente pacifista, o que se realça pelas boas relações que vemos entre alemães e franceses – por exemplo na história de amor –, que culminam com a morte de dois soldados inimigos, dando as mãos e dizendo «camaradas, não inimigos». O filme termina com a habitual palavra «Fim» (Ende) desta vez seguida por um ponto de interrogação. Estávamos em 1930, não se prevendo ainda que outro conflito mundial estava a menos de uma década de distância, mas enquanto uns respiravam de alívio dizendo que guerra como a de 1914-18 não se repetiria, Pabst dizia-nos que não havia assim tantas certezas. A história deu-lhe razão.

Em 1933, com a subida ao poder do partido Nazi, Goebbels decretou a proibição de “Quatro de Infantaria”, pois, segundo ele, era um filme que punha em perigo os interesses nacionais, ao defender que combater pela pátria tinha muito de negativo. Ironicamente, Pabst seria um cineasta que o Ocidente associaria ao período Nazi, e por isso mal visto internacionalmente.

Imagem de "Quatro de Infantaria" (Westfront 1918: Vier von der Infanterie, 1930), de G. W. Pabst

Produção:

Título original: Westfront 1918: Vier von der Infanterie; Produção: Bavaria Film / Nero-Film AG; Produtores Executivos: ; País: República de Weimar (Alemanha); Ano: 1930; Duração: 135 minutos; Distribuição: Vereinigte Star-Film GmbH (Alemanha), Les Films Marcel Vandal et Charles Delac (França); Estreia: 23 de Maio de 1930 (EUA), 3 de Março de 1931 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: G. W. Pabst; Produção: Seymour Nebenzal [não creditado]; Argumento: Ladislaus Vajda, Peter Martin Lampel [não creditado] [baseado no livro “Vier von der Infanterie” de Ernst Johannsen]; Música: Alexander Laszlo [não creditado]; Fotografia: Fritz Arno Wagner, Charles Métain [preto e branco]; Montagem: W.L. Bagier [não creditado], Jean Oser [não creditado], Marc Sorkin [não creditado]; Direcção Artística: Ernö Metzner; Direcção de Produção: Leo Meyer.

Elenco:

Fritz Kampers (O Bávaro), Gustav Diessl (Karl), Hans-Joachim Möbis (O Estudante), Claus Clausen (O Tenente), Jackie Monnier (Yvette – A Francesa), Hanna Hoessrich (Esposa de Karl), Else Heller (Mãe de Karl), Carl Balhaus (O Talhante) [não creditado], Vladimir Sokoloff (O Responsável pela Comida) [não creditado].