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Das weiße Band - Eine deutsche Kindergeschichte Numa aldeia rural do norte da Alemanha, aconteceram em tempos factos macabros e inexplicáveis. É isso que nos conta a posteriori o antigo Professor da aldeia (Christian Friedel), reportando-se a 1913, quando o Médico teve um estranho acidente a cavalo, o filho do Barão (Ulrich Tukur) foi raptado e espancado, e a mulher de um agricultor foi encontrada morta num moinho. No medo e suspeita que se seguiu, a mão do poder quase feudal, e o papel ditatorial do Pastor (Burghart Klaußner), que humilha os filhos, e os convence constantemente das suas culpas, dominam, onde mesmo o Médico (Rainer Bock) se mostra cruel em casa, abusando da Parteira (Susanne Lothar) que o assiste, e da própria filha (Roxane Duran).

Análise:

Com o título original a significar “O Laço Branco, Uma História de Crianças Alemã” Michael Haneke escreveu e realizou um filme de natureza épica, numa história de época, passada no início do século XX numa aldeia rural do norte da Alemanha, no que o autor chamou um ensaio sobre a raiz do mal, seja qual for a sua natureza.

Contado em off por um velho professor (voz de Ernst Jacobi), que na história narrada é ainda jovem (Christian Friedel), “O Laço Branco” traz-nos, de uma forma quase bucólica, os acontecimentos entre 1913 e 1914, o ano em que o professor conheceu Eva (Leonie Benesch), que viria a ser sua esposa, numa aldeia alemã, de regime quase feudal, patriarcal e sob forte controlo da religiosidade protestante. A narrativa começa com o estranho acidente a cavalo do Médico local, que o atirou para o hospital. Este é o primeiro sinal de uma tragédia inexplicável que se abate sobre a população e que continua na morte da mulher de um agricultor, e no desaparecimento, e posterior reaparecimento do torturado Sigi (Fion Mutert), o filho do Barão (Ulrich Tukur).

Numa aldeia dominada pelo poder ancestral, temos primeiro o Barão, liderando as colheitas, as respectivas festas, e a empregabilidade local. Acusado da morte da mulher do agricultor, vê as suas couves arrasadas por um acesso de fúria do filho daquele, pelo que a família é suspeita pelo desaparecimento do seu filho Sigi. Mas magnânimo, o Barão não os acusa, vendo mesmo a esposa (Ursina Lardi), amedrontada, despedir a ama Eva, e deixar a aldeia com os filhos para voltar com uma ama italiana, mas apenas para lhe dizer que o vai deixar. Outra figura de autoridade é o Pastor (Burghart Klaußner), que trata os filhos com uma tirania repressiva e impiedosa, servindo-se da religião como propagação de medo, com constantes humilhações, no sentido de os fazer sentir culpa por tudo. As mais pequenas faltas levam-no a decretar que os filhos usem laços brancos, sinais da pureza que devem reconquistar, e ao saber que um dos filhos, Martin (Leonard Proxauf) se masturba, fá-lo passar a dormir com as mãos atadas à cama. Por fim, o Médico (Rainer Bock), restabelecido, regressa a casa, onde os seus filhos, órfãos de mãe, já haviam chorado a possível perda. Aí o Médico revela a sua crueldade, na submissão sexual a que obriga a Parteira (Susanne Lothar), que o assiste e o ajuda a cuidar da casa, ao mesmo tempo que intuímos que ele abusa sexualmente da sua filha Anna (Roxane Duran).

A tudo isto assiste o Professor, que se apaixona por Eva, e a começa a cortejar, ao mesmo tempo que narra os estranhos acontecimentos que trazem a tragédia sobre a aldeia: O acidente do Médico, com o cavalo a tropeçar num arame que ninguém viu ser colocado, a morte da mulher do agricultor no moinho, o que mais tarde levaria ao enforcamento do marido, a tortura enigmática do pequeno Sigi, o desaparecimento do filho da Parteira, reencontrado quase cego, e o incêndio misterioso de um celeiro. Num conjunto de golpes e contragolpes, mesmo que nem sempre justificados, o filho do agricultor destrói a plantação de couves do Barão, sem que se conclua ter sido ele o responsável pela morte da sua mãe; Klara (Maria Dragus) a filha do Pastor mata um pássaro com uma tesoura como vingança da forma como ela a humilhou na escola), o Mordomo espanca o filho por este tirar a flauta de Sigi. Como se não bastasse a filha do Mordomo declara ter sonhos premonitórios, e avisa sobre o acontecerá ao filho da Parteira, pelo que é acossada pela polícia. A Parteira e o filho desaparecem após dizerem que sabem que foi o atacante, e o Médico e família vão desaparecer misteriosamente. Enquanto isso, o Professor conduz as autoridades a investigarem as práticas violentas do Pastor, deixando para sempre a aldeia depois de ser recrutado para a guerra.

É, aliás, do Professor e de Eva que nasce a única gota de esperança do filme, eles que não se deixam tocar pela maldade, num exemplo que é sempre de amor, e num testemunho narrado na terceira idade, que nos mostra que sobreviveram aos flagelos que se seguiriam (a Segunda Guerra Mundial).

Talvez o que mais incomode no filme de Haneke é o sereno tom de conto de fadas com que se vão narrando episódios que têm muito de macabro. A início esse macabro parece contrastar com a placidez da aldeia e simplicidade dos seus habitantes. Mas aos poucos ele começa a parecer um espelho do horror interior que provém da prepotência (social, religiosa, política, geracional) que dita as teias com que aquela sociedade se entrelaça. Por fim, nesse escalar de macabro que vai da humilhação perpetrada pelo Pastor às crianças, ao incesto praticado pelo Médico, e torturas e mortes várias que vão ocorrendo, choca ainda a gratuitidade desse mal, e a ausência de explicação de penas e desaparecimentos, como que sem essa explicação tudo se tornasse mais gratuito e intrinsecamente violento.

Filmado numa lindíssima fotografia (a cores, e posteriormente convertido a preto e branco, para dar a sensação do distanciamento de imagens do passado), com alguns interiores iluminados apenas por velas e candeias a óleo, e onde os longos planos-sequência têm por resultado uma aura de paz, num mundo (o antigo mundo rural) que parece ser bucólico, onde a própria história se conta como uma parábola, que não exclui um tanto de onírico (como as premonições da filha do Mordomo, ou a própria voz distante do narrador), “O Laço Branco” tem tanto de violência como de serenidade, de horror como de beleza, quase que dizendo que esses opostos não existem uns sem os outros.

Alheio não é o facto de que as crianças em torno do qual a história decorre serão os adultos dos anos 30 e 40, que serão o corpo do nazismo na Alemanha hitleriana. Daí não espantar que Haneke tenha descrito o seu filme como um ensaio sobre a raiz do mal, olhando para a sociedade rural alemã e o peso do patriarcado protestante como terreno fértil para as sementes do mal germinarem, numa sociedade onde não há amor, cumplicidade, tolerância ou sequer amizade, apenas repressão, crueldade, medo e castigo. Mas tal leitura não é necessária à interpretação do filme, com a crueza da vida rural, as relações de poder e a influenciável e impressionável natureza das crianças a serem temas universais, na constatação de que a aldeia não é mais que uma parábola para toda a sociedade humana.

Nas mãos de Michael Haneke, o que poderia ser um ensaio moralista, torna-se um exercício subtil, com a sua habitual frieza e rigor realistas, onde bem e mal surgem entrelaçados de uma forma nem sempre distinta, e onde a violência é tão crua e surpreendente, numa inocência que leva à brutalidade que nos deixa sempre estupefactos, tal como desarmados estamos sempre pelo tom pastoral da narração e carácter idílico da paisagem.

“O Laço Branco” teve estreia no Festival de Cannes, onde venceria em quatro categorias, incluindo a Palma de Ouro, a que se seguiram outras aclamações da crítica e prémios internacionais, entre os quais o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. O filme de Heneke recebeu ainda duas nomeações aos Oscars: Melhor Filme de Língua Estrangeira e Melhor Fotografia.

Burghart Klaußner em "O Laço Branco" (Das weiße Band - Eine deutsche Kindergeschichte, 2009), de Michael Haneke

Produção:

Título original: Das weiße Band – Eine deutsche Kindergeschichte; Produção: X-Filme Creative Pool / Wega Film / Les Films du Losange / Lucky Red / ARD Degeto Film / Bayerischer Rundfunk (BR) / ORF Film/Fernseh-Abkommen / France 3 Cinéma / Canal+ / TPS Star; Produtor Executivo: Michael Katz; País: Alemanha / Áustria / França / Itália; Ano: 2009; Duração: 144 minutos; Distribuição: X Verleih AG (Alemanha), Filmladen (Áustria), Les Films du Losange (França), Lucky Red (Itália); Estreia: 21 de Maio de 2009 (Cannes Film Festival, França), 24 de Setembro de 2009 (Áustria), 14 de Janeiro de 2010 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Haneke; Produção: Stefan Arndt (Berlim), Veit Heiduschka (Viena), Margaret Ménégoz (Paris), Andrea Occhipinti (Roma); Produtor Associado: Stefano Massenzi; Produtor Em Linha: Ulli Neumann; Argumento: Michael Haneke; Fotografia: Christian Berger [digital, preto e branco]; Montagem: Monika Willi; Design de Produção: Christoph Kanter; Direcção Artística: Anja Müller; Cenários: Heike Wolf; Figurinos: Moidele Bickel; Caracterização: Waldemar Pokromski; Efeitos Especiais: Rolf Hanke, Gerd Nefzer; Efeitos Visuais: Geoffrey Kleindorfer, Mario Wessely; Direcção de Produção: Miki Emmrich.

Elenco:

Christian Friedel (O Professor da Escola), Ernst Jacobi (O Professor Idoso – Voz), Leonie Benesch (Eva), Ulrich Tukur (O Barão), Ursina Lardi (A Baronesa), Fion Mutert (Sigi, O Filho Mais Velho do Barão), Michael Kranz (O Tutor), Burghart Klaußner (O Pastor), Steffi Kühnert (A Mulher do Pastor), Maria Dragus (Klara), Leonard Proxauf (Martin), Levin Henning (Adolf), Johanna Busse (Margarete), Yuma Amecke (Annechen), Thibault Sérié (Gustav), Josef Bierbichler (O Mordomo), Gabriela Maria Schmeide (A Mulher do Mordomo), Janina Fautz (Erna), Enno Trebs (Georg), Theo Trebs (Ferdinand), Rainer Bock (O Médico), Susanne Lothar (A Parteira), Roxane Duran (Anna, Filha do Médico), Miljan Châtelain (Rudolf), Eddy Grahl (Karli, Filho da Parteira), Branko Samarovski (Agricultor), Klaus Manchen (Voz do Agricultor), Birgit Minichmayr (Frieda), Sebastian Hülk (Max), Kai-Peter Malina (Karl), Kristina Kneppek (Else), Stephanie Amarell (Sophie), Bianca Mey (Paula), Aaron Denkel (Kurti), Mika Ahrens (Willi), Detlev Buck (Pai de Eva), Anne-Kathrin Gummich (Mãe de Eva), Luzie Ahrens (Aluno da Escola), Gary Bestla (Aluno da Escola), Leonard Boes (Aluno da Escola), Felix Boettcher (Aluno da Escola), Sophie Czech (Aluna da Escola), Paraschiva Dragus (Aluna da Escola), Selina Ewald (Aluna da Escola), Nora Gruler (Aluna da Escola), Tim Guderjahn (Aluno da Escola), Jonas Jennerjahn (Aluno da Escola), Ole Joensson (Aluno da Escola), Gerrit Langentepe (Aluna da Escola), Lena Pankow (Aluna da Escola), Sebastian Pauli (Aluno da Escola), Franz Rewoldt (Aluno da Escola), Kevin Schmolinski (Aluno da Escola), Alexander Sedl (Aluno da Escola), Nino Seide (Aluno da Escola), Marvin Ray Spey (Aluno da Escola), Malin Steffen (Aluno da Escola), Lilli Trebs (Aluna da Escola), Paul Wolf (Aluno da Escola), Margarete Zimmermann (Aluna da Escola), Carmen-Maja Antoni (Parteira no Banho), Christian Klischat (Polícia), Michael Schenk (Detective), Hanus Polak Jr. (Detective), Sara Schivazappa (Ama Italiana), Marisa Growaldt (A Criada), Vincent Krüger (Fritz, Um Servo), Rüdiger Hauffe (Trabalhador), Arndt Schwering-Sohnrey (Agricultor), Florian Köhler (Agricultor), Sebastian Lach (Trabalhador nas Colheitas), Marcin Tyrol (Trabalhador nas Colheitas), Sebastian Badurek (Trabalhador nas Colheitas), Krzysztof Zarzecki (Trabalhador nas Colheitas), Sebastian Pawlak (Trabalhador nas Colheitas), Lilli Fichtner (Rapariga na Festa das Colheitas), Amelie Litwin (Rapariga na Festa das Colheitas), Paula Kalinski (Rapariga na Festa das Colheitas), Matthias Linke (Músico), Vladik Otaryan (Músico), Peter Mörike (Músico), Hans-Matthias Glassmann (Músico), Nikita Vaganov (Músico).