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Caché Georges Laurent (Daniel Auteuil) é um homem da alta sociedade de Paris, conhecido crítico literário e apresentador de um famoso programa televisivo de literatura, casado com Anne (Juliette Binoche) e pai de um filho (Lester Makedonsky). Mas a paz é perturbada quando começa a chegar, de fonte desconhecida, videocassetes que mostram que Georges e a sua casa são filmados de perto, e que apontam para factos da infância dele. Seguindo a pista deixada numa cassete, Georges encontra Majid (Maurice Bénichou), um argelino que os seus pais em tempos adoptaram, e que Georges terá conseguido que fosse entregue a um orfanado com as suas mentiras,

Análise:

Co-produção entre companhias de França, Áustria, Alemanha e Itália, “Nada a Esconder” (cuja tradução do original estaria mais próximo de “Escondido”) é um thriller psicológico gravado entre Paris e Viena, que funciona como um olhar crítico para as hipocrisias da classe média-alta, aqui representada por um intelectual, apresentador de um programa de televisão sobre cultura.

Ele é Georges Laurent (Daniel Auteuil), um pacato e realizado homem da comunicação, rosto cohecido da televisão, que começa a receber cassetes de vídeo que mostram que a sua casa é filmada de perto. Tal traz o desconforto a ele e à esposa, Anne (Juliette Binoche), que o começa a acusar de ter segredos que põem em perigo a harmonia familiar, sobretudo quando o filho Pierrot (Lester Makedonsky) desaparece durante um dia, e Georges diz ter uma ideia sobre a autoria das cassetes. Quando uma cassete aponta para uma morada, Georges resolve visitá-la, para encontrar Majid (Maurice Bénichou), um argelino que em criança foi adoptado pelos pais de Georges, e do qual ele já nem se lembrava. Majid diz desconhecer as ditas cassetes, e Georges omite o caso a Anne, a qual vem a descobrir a verdade quando nova cassete chega, mostrando o encontro entre os dois homens. Georges confessa então que em criança, por ciúme do irmão adoptivo, mentiu sobre ele a ponto de levar os pais a entregá-lo a uma instituição. Quando volta a ser chamado por Majid, chega a tempo de o ver suicidar-se, passando a ser acusado pelo filho deste (Walid Afkir), o qual nega também conhecimento das cassetes.

Com a crise das guerras com a Argélia na memória colectiva de França, Haneke explora conceitos de culpa e hipocrisia social, numa obra em que, como é sua característica, os acontecimentos nos chegam friamente, sem se anunciarem e quase sem enquadramento, de modo a causar-nos desconforto. Partindo de uma série de imagens sobre a casa de Georges, que só aos poucos vamos percebendo provirem das citadas videocassetes, o filme de Haneke – sem banda sonora que suavize as suas arestas mais aguçadas – vai-nos revelando um enredo de possíveis segredos do passado, e a forma como estes podem fazer perigar o presente, revelando que uma família tão serena e acima de suspeitas possa ter esqueletos inultrapassáveis no armário. Com as imagens das ditas cassetes a surgirem-nos sem aviso, fica por vezes esbatida a barreira entre filme e pequenos filmes diegéticos dentro do filme, como que a lembrar-nos que esse assustador voyeurismo a que condenamos o autor das cassetes é, afinal, o mesmo que fazemos ao observar de modo tão despudorado a vida do casal Laurent – por outras palavras, como se a obra que estamos a ver seja a culpada pela intrusão na vida de Georges, e cuja autoria nunca chegamos a descobrir.

Tendo escrito propositadamente para Auteuil e Binoche, Michael Haneke consegue que os dois actores nos tragam esse desconforto de um modo cru, realista e inconclusivo – pois nunca chegamos a saber a proveniência das videocassetes. As suas interpretações trazem-nos o exacto grau de frieza, cinismo e desespero com que Haneke quer regar a sua história e conceitos, tal como o fazem os planos estáticos, e as cenas de súbita e sangrenta violência.

Com a infância de Georges (tinha 6 anos quando a expulsão de Majid se deu) a confundir-se com a infância de uma França em conflito colonial, e o sacrifício chocante de Majid a confundir-se com as provações do seu povo durante o nomeado massacre do Sena em 1961, “Nada a Esconder” é como que um exercício de terapia, e um olhar de culpa para um passado que não nos deixa ser senhores absolutos do nosso presente, e um lembrar das sempre presentes tensões entre classes privilegiadas e os subúrbios das grandes cidades, tratados com desprezo e preconceito, e plenos de imigração.

Como resposta, temos a constante negação de Georges, tanto no reconhecer do problema, como no partilhar do seu passado ou no assumir da sua culpa, e temos ainda a confusão de Anne, sentindo-se posta de lado, reconhecendo que talvez não saiba verdadeiramente quem é o seu marido. E ao não nos revelar o autor das cassetes, Haneke parece querer dizer-nos que, mais que uma intriga factual, interessa-lhe os conceitos por detrás dela, da tal culpa colectiva aos relacionamentos feitos de hipocrisia e ao perigo dos segredos do nosso passado, recalcados e escondidos como um tesouro secreto. Intrigante é ainda o longo plano final, no qual vemos, quase sem nos apercebermos, que os filhos de Georges e de Majid afinal se conhecem.

“Nada a Esconder” seria premiado em Cannes com o prémio para Melhor Realizador, o prémio FIPRESCI da imprensa e o prémio do Júri Ecuménico. Receberia ainda o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro Independente, cinco European Film Awards (incluindo Melhor Filme) e inúmeros outros prémios e nomeações internacionais.

Imagem de "Nada a Esconder" (Caché, 2005), de Michael Haneke

Produção:

Título original: Caché; Produção: Les Films du Losange, Wega Film, Bavaria Film, BIM Distribuzione, France 3 Cinéma, Arte France Cinéma, Eurimages, Centre National de la Cinématographie (CNC), Canal+, ORF Film/Fernseh-Abkommen, Westdeutscher Rundfunk (WDR), StudioCanal, Österreichisches Filminstitut, Filmfonds Wien, Filmstiftung Nordrhein-Westfalen; Produtores Executivos: Andrew Colton, Michael Katz, Margaret Ménégoz; País: França / Áustria / Alemanha / Itália; Ano: 2005; Duração: 113 minutos; Distribuição: Les Films du Losange (França), BIM Distribuzione (Itália); Estreia: 14 de Maio de 2005 (Festival de Cannes, França), 2 de Julho de 2005 (França) , 12 de Janeiro de 2006 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Haneke; Produção: Veit Heiduschka; Co-Produção: Valerio De Paolis, Michael Weber; Produtor Associado: Michael André; Argumento: Michael Haneke; Fotografia: Christian Berger [fotografia digital]; Montagem: Michael Hudecek, Nadine Muse; Design de Produção: Emmanuel de Chauvigny, Christoph Kanter; Figurinos: Lisy Christl; Efeitos Especiais: Philippe Hubin; Direcção de Produção: Brigitte Faure.

Elenco:

Daniel Auteuil (Georges Laurent), Juliette Binoche (Anne Laurent), Maurice Bénichou (Majid), Annie Girardot (Mãe de Georges), Bernard Le Coq (Editor de Georges), Walid Afkir (Filho de Majid), Lester Makedonsky (Pierrot Laurent), Daniel Duval (Pierre), Nathalie Richard (Mathilde), Denis Podalydès (Yvon), Aïssa Maïga (Chantal), Caroline Baehr (Enfermeira), Christian Benedetti (Pai de Georges), Philippe Besson (Convidado da TV), Loic Brabant (Agente Policial No. 2), Jean-Jacques Brochier (Convidado da TV), Paule Daré (Assistente do Orfanato), Louis-Do de Lencquesaing (Dono da Livraria), Annette Faure (Mãe de Georges, Jovem), Hugo Flamigni (Georges, Criança), Peter Stephan Jungk (Escritor), Diouc Koma (Ciclista), Marie Kremer (Jeannette), Nicky Marbot (Motorisra do Orfanato), Malik Nait Nait Djoudi (Majid, Criança), Marie-Christine Orry (Empregada Doméstica), Mazarine Pingeot (Convidado da TV), Julie Recoing (Assistente de Georges), Karla Suarez (Escritora), Laurent Suire (Agente Policial No. 1), Jean Teulé (Convidado da TV).

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